quinta-feira, 16 de abril de 2026

Revelações sobre ex-presidente do BRB explicam insistência para negócio tão danoso, mas há muito a esclarecer, por Míriam Leitão

O Globo

prisão do ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, conhecido como PH Costa, e do advogado Daniel Monteiro, homem de confiança do banqueiro Daniel Vorcaro, na quarta fase da operação Compliance Zero, ajuda a esclarecer o que ocorreu dentro do Banco de Brasília (BRB). A investigação da Polícia Federal identificou que PH Costa recebeu propina do Master e que lavou esse dinheiro com a compra de imóveis de luxo, entre eles um apartamento no edifício Vizcaya Itaim, próximo à Faria Lima, ainda em construção, com unidades à venda entre R$ 30,1 milhões e R$ 46,2 milhões, como mostrou a colunista Malu Gaspar. As investigações ainda estão em andamento, mas já se descobriu o suficiente como o papel do advogado nesse trabalho de lavar o dinheiro em compra de imóveis.

Paulo Henrique Costa era o presidente do BRB quando o banco estatal adquiriu a carteira fraudulenta de R$ 12,2 bilhões do Master e também encabeçou a tentativa de compra do banco de Daniel Vorcaro. É importante lembrar que o Governo do Distrito Federal, controlador do BRB, fez pressão sobre o Tribunal de Contas da União (TCU) para que pressionasse o Banco Central que havia proibido a compra do Master. O Congresso também teve uma atuação forte em pressionar o BC, que felizmente não mudou de posição. A compra da carteira produziu perdas significativas no BRB.

O Banco de Brasília encontra-se neste momento em situação de extrema fragilidade justamente por causa dessa operação de compra da carteira do Master, que levou a um rombo nas contas da instituição ainda não claramente precificado, já que há nove meses o BRB não publica balanço. A atual gestão aponta para a necessidade de um provisionamento de R$ 8,8 bilhões.

As investigações continuam, afinal é preciso responder se Paulo Henrique Costa agiu sozinho ou teve ajuda. O ex-governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, apoiava todas as decisões tomadas pelo então presidente do BRB. É preciso entender as razões desse apoio. Se foi apenas confiança na capacidade administrativa de Paulo Henrique Costa.

Quando chegou à presidência do BRB, em janeiro de 2019, PH Costa tinha uma carreira muito bem-sucedida no mercado financeiro. Entre 2001 e 2018, ocupou posições gerenciais importantes na Caixa Econômica Federal, onde chegou a diretor executivo de Controladoria, diretor de Administração, Finanças e Relações com Investidores na Caixa Seguridade, superintendente nacional de Administração de Risco Corporativo e gerente nacional de Risco e Modelagem. De 2011 a 2013, Costa foi também diretor de Controladoria e Compliance do Banco Pan. PH Costa era vice-presidente de Clientes, Negócios e Transformação Digital da Caixa Econômica Federal quando se desligou para assumir a presidência do BRB. Não há relatos, até aqui, de comportamento inadequado nesses cargos, mas agora ele terá de explicar a compra desses imóveis e a origem desse dinheiro, se tiver outra explicação, em contraponto a tudo que foi encontrado pelas investigações da PF.

A nova direção do BRB, sob a liderança de Nelson Souza, contratou uma auditoria externa que encontrou vários indícios de malfeitos dentro do banco. O material foi entregue à Polícia Federal, que abriu um segundo inquérito para investigar. Quem, além de PH Costa, está envolvido no esquema é o que precisa ser esclarecido; já se sabe que Vorcaro contou até com um diretor do Banco Central. Nesse ponto, é importante lembrar que foi o próprio BC que, a partir de uma investigação interna, identificou os fatos e os encaminhou à Polícia Federal.

Em paralelo às investigações policiais e seus desdobramentos, há uma busca por soluções para sanear a situação do BRB. O banco tenta arregimentar um pool de instituições financeiras, com o apoio do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), para viabilizar um empréstimo que permita sua recapitalização. O Governo do Distrito Federal, controlador da instituição, é deficitário e não dispõe dos recursos necessários para reequilibrar as contas do BRB. É possível que se consiga mobilização de outros bancos pode viabilizar o empréstimo necessário para manter o BRB sólido.

 

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