O Globo
Lula e os Bolsonaros têm apoio cego dos
eleitores. Nada os abala. Lula ganhou uma eleição no auge do mensalão
Pelas informações que circulam no meio político, o presidente Lula pretende imprimir num eventual quarto mandato uma radicalização à esquerda que não esteve presente em nenhum dos anteriores. Já havia a suspeita de que ele pudesse querer deixar essa marca durante seu governo, embora, na campanha, pudesse vender a imagem de moderado para atrair um eleitor não petista que não pretenda votar em Flávio Bolsonaro. Como sempre se soube, na política uma coisa é o que se diz na campanha, outra é o que se faz durante o governo. Mas os relatos dão conta de que Lula está animado com a queda de Flávio nas pesquisas e pretende acelerar a tática do “nós contra eles”, se apoiando mesmo nas medidas já tomadas de isenção do Imposto de Renda para os que ganham até R$ 5 mil e nos ataques aos “banqueiros e milionários” que diz se aproveitarem da desigualdade social do país para enriquecer mais ainda.
O envolvimento de Flávio com o ex-banqueiro
trambiqueiro Daniel Vorcaro, colocando o escândalo do Banco Master no colo do
bolsonarismo, seria outra oportunidade para explorar a pretensa perversidade
dos ricos contra os pobres, confirmada pelo desvio de verbas da Previdência
para investimentos inseguros de vários estados, como o Rio de Janeiro. No
pacote, pode até mesmo voltar o imposto sobre grandes fortunas, que já causou
problemas em diversos países da Europa e em estados dos Estados Unidos.
Fazendo isso, o candidato Lula contradiz sua
própria experiência, pois sempre que foi para o centro político ganhou a
eleição. Se radicalizar, dará razão aos que temem justamente esse estado de
coisas, acusando-o de ser um esquerdista perigoso. Flávio ficaria reforçado em
sua posição antagônica e provavelmente ganharia novamente apoio do mercado
financeiro e dos eleitores de centro-direita que se decepcionaram com sua
aproximação de Vorcaro.
A mais recente pesquisa de intenção de voto
para a Presidência da República — BTG/Nexus — mostra o mesmo resultado do
Datafolha, com queda de Flávio depois da divulgação dos áudios com Vorcaro. Na
verdade, o resultado ainda mostra empate técnico, na margem de erro, com
vantagem numérica ampliada de Lula. Foi um estrago pequeno para Flávio, mas
outros fatos podem aparecer neste mesmo episódio, porque ainda há muita coisa
mal explicada. Se for descoberto que parte do dinheiro do filme sobre Jair
Bolsonaro foi desviado para sustentar Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, ou se
Mário Frias teve algum tipo de remuneração além do devido, se ficar provado que
o dinheiro não era apenas para o filme, aumenta a crise para Flávio.
Há ainda as delações premiadas, em que pode
aparecer muita coisa, inclusive sobre Lula. Teremos de esperar. Nenhum
candidato da direita se mostrou viável até agora para substituir Flávio e, se
não surgir nada definitivo contra ele, será o candidato desse campo no segundo
turno. Muitos que agora se desiludiram e não votam em Lula acabarão votando
nele mesmo. Apenas algo muito grande e escandaloso que retire Flávio da disputa
pode mudar o quadro.
Do jeito que vai, Lula e os Bolsonaros têm
apoio cego dos eleitores. Nada os abala. Lembremos que Lula ganhou uma eleição
no auge do mensalão. Se bem que pediu desculpas, disse que foi traído, mas era
uma crise imensa, e ele conseguiu superar. Não será surpresa, porém, se
Bolsonaro conseguir superar esta crise. Os dois são líderes populistas,
carismáticos, que têm apoio firme de grande parte do eleitorado próprio. A disputa
prosseguirá até o fim da campanha. Não acredito que Bolsonaro troque um filho
por Michelle. Ele prefere perder com Flávio a ganhar com qualquer outro.
Qualquer um que não fosse de sangue passaria a ser o líder da direita, e ele
perderia a importância.

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