quinta-feira, 18 de junho de 2026

Bancos centrais, juros e guerra, por Míriam Leitão

O Globo

A incerteza sobre os desdobramentos de um acordo no Oriente Médio e os efeitos do El Niño mantêm a economia em um cenário imprevisível

A economia apelidou de superquarta o dia em que Brasil e Estados Unidos decidem a taxa de juros. Engana-se quem pensa que o tema não tem emoção. Lá, na terra de Donald Trump, o novo presidente do Fed, Kevin Warsh, foi escolhido para baixar os juros. Teve que mantê-los e avisar que pode até subi-los no ano. Aqui, Gabriel Galípolo conduziu mais uma decisão unânime por um cortezinho, a terceira vez de uma queda de metade de meio ponto. De 0,25 em 0,25, a Selic foi para 14,25%. A guerra de Trump foi um tiro no pé dele e no nosso. Os juros poderiam ter caído muito mais este ano, não fosse o conflito no Oriente Médio.

Não há como negar o que o Banco Central escreveu no começo do comunicado: “O ambiente externo permanece incerto”. A grande dúvida era se o Copom daria algum sinal de interromper a redução dos juros. Não fez isso, mas também não se comprometeu a continuar cortando. O que significa que a autoridade monetária se deixa livre para decidir em outra superquarta, daqui a 45 dias, se continua com essa queda a conta-gotas ou se para por aí, encerrando a pequena redução da taxa. O comunicado, sempre em linguagem sânscrita, avisou, ao cortar a taxa, que estava dando “sequência ao ciclo de calibração monetária”.

É difícil calibrar. O ano está imprevisível. Nos últimos dias, abriu-se uma fresta de esperança, pela chance de um acordo no Oriente Médio, e isso tem derrubado os preços do petróleo. Será que a comemoração é cedo demais? José Roberto Mendonça de Barros, da MB Associados, acha que sim.

— Os mercados, sempre eufóricos, estão derrubando demais o preço do petróleo no curto prazo por conta do acordo. Primeiro, porque é um acordo preliminar e tem uma longa duração à frente. Segundo, o mercado está subestimando o fato de que os estoques efetivos dos países consumidores estão baixos e a normalização vai levar tempo.

Se a guerra acabar, haverá um ambiente mais favorável na economia, mas a diferença não será tão grande, segundo José Roberto, porque com o aumento do uso do etanol e as medidas para mitigar a alta dos derivados do petróleo, o Brasil reduziu o impacto. Portanto, agora não teria muito a “devolver”.

As expectativas de inflação para este ano estão em 5,3%. Bem acima do teto da meta. Então por que baixar os juros com uma projeção tão alta? O economista Bráulio Borges, da LCA Consultores e pesquisador-associado do FGV Ibre, responde que é porque estão altos demais.

—A Selic está num nível muito restritivo. Basta pegar a conta do Banco Central de que os juros neutros (que não produzem inflação) é de 5% em termos reais. Com a inflação a 4%, dá uma Selic de 9%. O mercado que tem uma visão mais pessimista acha que juros neutros são de 6% a 6,5% o que daria uma Selic de 11%. Mesmo nas métricas mais pessimistas, ela está bastante restritiva.

O Banco Central tem que olhar a inflação do “horizonte relevante”. O número deste ano está dado. O que tem que trabalhar é a taxa daqui a 18 meses. E o BC mesmo diz no comunicado. “A projeção da inflação do Copom para o quarto trimestre de 2027, atual horizonte relevante de política monetária, situa-se em 3,7% no cenário de referência”.

O risco continua muito alto, avisa o comunicado. Há pouca certeza sobre o que vai acontecer com o choque externo. A chance de a tensão diminuir é porque Trump precisa de um fim de guerra para chamar de seu. Mesmo se o confronto der uma trégua, deve começar a pesar o efeito do El Niño. O economista Felippe Serigati, professor do FGVAgro diz que, independentemente das dúvidas sobre a intensidade, é certo que o fenômeno climático vai atingir algumas culturas brasileiras da safra de 2026/2027.

— O cerrado brasileiro é de longe a área mais sensível aos efeitos do El Niño e é justamente o principal celeiro. A região é uma das maiores produtoras de milho, soja, algodão e pecuária de corte. Uma eventual crise pode afetar os preços dos grãos e a pecuária. No Sul, o volume das chuvas pode prejudicar culturas como soja, milho e arroz. No Sudeste, o clima pode afetar café, cana-de-açúcar, laranja e feijão.

A guerra precisa acabar logo para que a normalização do fornecimento de fertilizantes ocorra até o começo de agosto, lembra José Roberto. Em outubro, o produto tem que estar distribuído para a próxima safra. Diante de tanta incerteza, o Banco Central abusou da palavra “cautela” no comunicado. Ele continuará indo bem devagar com esse andor.

 

 

 

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