Correio Braziliense
Conhecer as posições dos candidatos quanto
aos temas parece ainda mais fundamental no presente contexto em que a inflação
descolou novamente da meta e a dívida pública atinge patamares preocupantes
O ciclo econômico entendido como uma flutuação no produto e no emprego é um fenômeno "natural" nas economias capitalistas. Nas últimas décadas, houve um grande progresso no tocante à sua identificação. Se a mensuração dos ciclos se tornou algo factível aos economistas, a identificação de suas causas ainda é um ponto de grande controvérsia. Keynes foi o precursor de uma teoria do ciclo causado por flutuações na demanda efetiva. Para os economistas novo-clássicos, da tradição dos ciclos reais, esse é um fenômeno do lado da oferta, causado, entre outras coisas, por choques tecnológicos.
Em meados dos anos de 1970, surgiu na
literatura uma nova abordagem que visava explicar o fenômeno, chamada de ciclos
políticos eleitorais. Precursores dessa literatura, como William Nordhaus,
Douglas Hibbs e Alberto Alesina, entendiam que, em sociedades democráticas, a
economia está submetida às instituições políticas como calendários eleitorais e
disputas pelo cargo entre o incumbente e a oposição, e que esses elementos
explicam resultados econômicos — entre os quais, o próprio ciclo.
Os modelos que se ocupam de teorizar ciclos
eleitorais são divididos em dois grupos: ciclos políticos oportunistas e ciclos
políticos partidários (ideológicos). No primeiro grupo, cujo modelo precursor é
o de Nordhaus (1975), um político incumbente no governo é interessado em
permanecer no cargo e usa os instrumentos clássicos de política monetária e/ou
fiscal a fim de influenciar sua probabilidade de ser reconduzido. Em outras
palavras, devido ao interesse particular do político, no avizinhamento das
eleições é colocada em marcha uma queda na taxa de juros que produz uma
expansão do PIB e redução do desemprego, gerando uma herança inflacionária para
depois da eleição (quando o político já foi reconduzido). A principal crítica a
esse modelo é que, se as expectativas são racionais, na próxima eleição o
eleitor é capaz de antecipar o comportamento oportunista.
A segunda família de modelos trata a corrida
eleitoral a partir de divergências entre partidos de direita e esquerda quanto
a temas relacionados à política econômica. No modelo com expectativas racionais
de Alesina (1987), eleitores formulam expectativas de inflação condicionadas à
probabilidade de vitória dos partidos de direita ou esquerda. Assume-se que
governos de direita são mais avessos à inflação, já os de esquerda são mais
afeitos à desempregos menores e, portanto, mais tolerantes à inflação. Como há
incerteza sobre quem vencerá as eleições, as expectativas de inflação do
público são tratadas como uma média ponderada pela possibilidade de vitória de
cada partido.
A consequência disso, em um contexto com
expectativas racionais, é que, independentemente de quem vença as eleições, o
eleitor racional será surpreendido. Ou seja, como as expectativas são uma média
ponderada, se o partido de esquerda vencer a eleição e implementar o seu
programa de governo, a inflação será maior que o esperado e o desemprego mais
baixo (ciclo expansivo). Se a eleição for vencida pelo partido de direita, a
inflação será menor do que a prevista e o desemprego mais alto (ciclo
recessivo).
Repare que, no modelo de Alesina (1987), a
força motriz do ciclo é a incerteza sobre o programa de governo que será
implementado depois das eleições. Se houvesse convergência ideológica dos
partidos de direita e esquerda quanto a temas de política econômica ou, ainda,
se a probabilidade de vitória de um dos partidos é muito alta, a incerteza
desaparece e, com isso, não haverá ciclo econômico. O inverso é igualmente
verdadeiro, eleições com distâncias muito antagônicas entre direita e esquerda
sob temas de política econômica e/ou muito apertadas em termos das probabilidades
de vitória de cada lado tendem a intensificar o ciclo econômico, tornando-o
mais recessivo em caso de vitória da direita, ou mais inflacionário em caso de
vitória da esquerda.
Em suma, a mensagem do modelo é que
incertezas causadas pelo processo eleitoral têm consequências sobre o
bem-estar. Isso parece ser um tema da maior relevância no Brasil que se
avizinha de mais uma eleição, em que as pesquisas indicam uma disputa apertada
entre dois grupos com posições bastante distintas sobre temas econômicos.
Conhecer as posições dos candidatos quanto aos temas parece ainda mais
fundamental no presente contexto em que a inflação descolou novamente da meta e
a dívida pública atinge patamares preocupantes. Quais as estratégias dos
candidatos para endereçar os problemas reais do país?
*Benito Salomão — professor do Programa de Pós-Graduação em Economia da Universidade Federal de Uberlândia

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