Por Victoria Azevedo – O Globo
Futuro integrante da coordenação da campanha,
ministro do Desenvolvimento Social diz que erro do primeiro mandato foi não
consolidar maioria no Congresso e prevê aproximação de partidos a partir de
alianças aos governos locais
— BRASÍLIA - O ministro Wellington Dias
(Desenvolvimento Social) afirma que a campanha à reeleição do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva deverá ser acompanhada por uma articulação voltada ao
centro político. Em entrevista ao GLOBO, o ministro avalia que o principal erro
do terceiro mandato foi não consolidar uma maioria simples na Câmara e no
Senado, diz que faltou cuidado e atenção na relação com os aliados, e defende a
construção de palanques estaduais capazes de assegurar governabilidade em um
eventual novo mandato.
Dias atuará na coordenação de campanha da reeleição ao petista, com foco na região Nordeste. Ex-governador do Piauí e senador licenciado, o ministro afirma que é preciso retomar o diálogo com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), defende a prerrogativa de Lula em reenviar o nome de Jorge Messias a uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF) e diz que a atuação de Flávio Bolsonaro (PL) junto ao governo Donald Trump que resultou na classificação do PCC e do CV como organizações terroristas é para “abafar o escândalo do Master”.
O presidente Lula afirmou que
vai reenviar o nome do ministro Jorge Messias (Advocacia-Geral da União) para
uma vaga ao STF. É um erro diante do distanciamento que o presidente do Senado,
Davi Alcolumbre, tem mostrado?
É possível reenviar o nome e um direito do
presidente da República. Precisamos alcançar os votos que faltaram para ter a
maioria, por meio de diálogo com Alcolumbre e senadores e senadoras.
É possível uma reconciliação
entre Alcolumbre e Lula?
Sim. Davi Alcolumbre é, em primeiro lugar, do
estado do Amapá, e lá ele é parte do campo político que apoia o presidente
Lula. Além de tudo, é um líder que tem compromisso com o Brasil. De 2023 para
cá, nós tivemos vários momentos de tensão gerados por vários fatores. E
reabrimos, através do diálogo, boas relações que resultaram em mudanças
profundas e projetos que fizeram o Brasil avançar. São dois líderes que têm
seus sentimentos, suas emoções, mas são dois Poderes.
A comunicação do governo é
alvo de críticas. É um dos motivos que travam o aumento da popularidade do
presidente?
Não é fácil conduzir uma orquestra de
comunicação governamental sem ter uma orquestra afinada, que chegue em cada
canto. A eleição agora vai dizer qual é o time do governo. Hoje não está claro,
tem gente que é governo em Brasília e oposição no estado, ou o contrário. Hoje,
temos palanques nos estados muito melhores do que tínhamos em 2022.
O senhor fala em uma falta de
sintonia nessa relação com os partidos. Defende tirar espaços no governo federal?
Você tem que compor com quem tem compromisso
com o projeto. Os que se diziam governo, mas não atuavam assim, precisarão
tomar a decisão. E isso está acontecendo. Estamos trabalhando com mais de um
palanque em vários estados: Maranhão, Paraíba, Pernambuco…
Haverá duplo palanque em
Pernambuco?
Sim. Lá temos o João Campos e a Raquel Lyra.
Vamos lembrar que ela se colocou primeiro como oposição (em 2022) e no segundo
turno teve uma posição mais de neutralidade, mas uma parte considerável do
nosso time ficou com ela.
Quem se coloca como oposição
deve deixar o governo? Por exemplo, União Brasil e PP.
Não. Pelo modelo partidário brasileiro, a
organização tem que ser pelos estados. Esse foi um erro que cometemos em querer
resolver por cima. Devemos organizar estado por estado, porque é lá que sabemos
quem é governo e quem é oposição. É lá que estão colados com o eleitor.
A eleição ao Senado é
considerada prioritária por integrantes do governo diante do investimento que a
direita tem feito para essa eleição. Como o PT e o presidente Lula estão se
preparando para essa disputa?
Temos que cuidar das duas Casas e ter uma
maioria simples nelas. Qual foi o erro político desse terceiro mandato do
presidente Lula? A obsessão de ter dois terços na Câmara e no Senado, que era
impossível, fez com que a gente não valorizasse a chance que tínhamos de ter
acima de 257 votos na Câmara e acima de 41 no Senado. A gente saiu do resultado
da eleição de 2022 com 39 senadores. Bastava que a gente cuidasse bem deles,
buscasse dialogar com mais parlamentares e teríamos uma maioria simples que é o
que um governo precisa para 95% das matérias que chegam ao Parlamento. Na
Câmara, saímos com 242 deputados eleitos que, de alguma forma, no primeiro ou
segundo turno, participaram da eleição apoiando o presidente Lula. E a gente
não cuidou de conseguir mais 30 parlamentares. Um líder do tamanho do
presidente Lula não pode, num segundo mandato, não ter isso. E se tiver matéria
que precisa de mais votos, resolvemos no diálogo.
E como é possível construir
essa maioria simples no Congresso? É ir mais ao centro?
Nós já estamos organizando os palanques.
Temos lugares em que é um líder da esquerda apoiado pelo centro, como na Bahia,
no Piauí, no Ceará. Mas a maior parte dos palanques é o centro apoiado pela
esquerda. Rio de Janeiro, Amazonas, Pará por exemplo. Isso reflete esse momento
do Brasil.
Essa maioria no Congresso
virá por meio da construção dos palanques mais ao centro? É o que o senhor
defende?
Isso, exatamente. É no estado e em cada
município que as coisas acontecem. Se a gente tem esse compromisso e valoriza
esse parlamentar para ser a referência do que o governo faz ali, eles passam a
ser protagonistas, representando e com apoio governamental para as políticas. A
população valoriza e daí nasce a fidelidade.
Flávio Bolsonaro aparecia
tecnicamente empatado com o presidente Lula nas pesquisas de intenção de voto.
Com a revelação do áudio dele cobrando dinheiro de Daniel Vorcaro para
financiar o filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro houve uma mudança de
cenário. Como a campanha vai explorar isso? A campanha teme a possibilidade de
Flávio ser substituído por outro nome, como a ex-primeira-dama Michelle
Bolsonaro?
Aprendemos a não buscar nem ter qualquer
iniciativa ou desejo sobre organização de chapa adversária. Nós temos a firmeza
de uma chapa com dois líderes muito experientes, o presidente Lula e Alckmin.
Nessa eleição também teremos um peso muito grande para essa separação da
política do crime organizado. Como uma autoridade do Senado ou da Câmara ou
governador se mete com o PCC, com lavagem de dinheiro, com Vorcaro? Como é que
se envolve com tantas linhas criminosas? O Vorcaro é como um posto Ipiranga do
crime no Brasil. Precisa de uma mesada? Fala com o Vorcaro. Precisa fazer um
filme de papai? Fala com o Vorcaro.
O governo Donald Trump
decidiu classificar as organizações PCC e Comando Vermelho como terroristas,
algo que o governo vinha tentando impedir que acontecesse. Isso aconteceu
depois da viagem do Flávio Bolsonaro para se reunir com o Trump. Como essa
decisão afeta eleitoralmente o governo?
Nada mais claro entre tantos passos do
pré-candidato Flávio Bolsonaro como esse de abafar o escândalo do Master. Uma
medida irresponsável, antipatriota, que coloca o interesse individual,
familiar, de pequenos grupos acima do interesse maior do povo brasileiro. Veja
que o presidente do Brasil, legitimamente, esteve com o presidente dos EUA, e
acertaram trabalhar juntos sobre esse tema. Estamos falando de um momento em
que, seguindo o caminho do dinheiro, mais se atingiu o PCC e o Comando
Vermelho. Qual o interesse de chegar de forma tão subalterna perante o
presidente dos EUA para fazer um pedido? Tem um risco real de prejuízo
econômico para o país. Há que se avaliar do ponto de vista até do crime de
lesa-pátria.
O governo avalia ser possível
reverter essa decisão dos EUA?
A gente continua acreditando nos tratados
internacionais. Nós não somos um país qualquer. Somos um país com soberania,
democracia e laços com outros países do mundo.
O discurso dos adversários é
que o governo Lula e o PT defendem bandidos. Com essa decisão dos EUA, vai
ficar mais difícil o governo explicar à população que o presidente Lula e o PT
não defendem bandidos?
Quem mais atingiu o coração do crime foi o
governo Bolsonaro ou foi o governo Lula? Quem mais prendeu criminosos? Quem
mais teve a coragem de alcançar os grandões do crime? Foi o governo do
presidente Lula. Acho que aqui se tenta abafar, esconder o elo entre criminosos
do Master com o PCC. Quem tem que se explicar são eles.
Está no horizonte aumentar o
valor do Bolsa Família?
É uma decisão que não será para este ano de 2026. Vamos tratar quando o governo for falar do Orçamento de 2027, que é a hora que podemos avaliar que mudanças podemos fazer. A princípio não há razão para alteração neste momento. Essa discussão acontece em outubro, em novembro, depois das eleições e fora de qualquer discussão política, é uma discussão mais técnica. Será uma decisão do presidente Lula.

Nenhum comentário:
Postar um comentário