sexta-feira, 19 de junho de 2026

O singelo assassino, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

O psicopata condenado a 43 anos de prisão foi chamado pela imprensa de Dr. Jairinho

Seria como se os assassinos da menina Isabella Nardoni fossem tratados por Aninha e Alex

Há dias, terminou no Rio o julgamento do assassinato do menino Henry Borel, torturado e morto aos quatro anos em 2021 por seu padrasto, o ex-vereador e médico Jairo Souza Santos, sob a omissão de sua própria mãe, Monique Medeiros. Ele pegou 43 anos de prisão; ela, a quem se devia a proteção do filho, 1 ano e quatro meses, e mesmo assim a juíza a mandou para casa. É quase intolerável saber a que essa criança foi submetida durante um mês inteiro até sua morte. Apesar disso, durante todo o processo, Jairo Souza Santos foi chamado pela imprensa por seu meigo apelido de "Dr. Jairinho". Tal tratamento provoca revolta ou asco?

Em 1992, também no Rio, a atriz Daniella Perez, 22 anos, foi assassinada por seu colega Guilherme de Pádua e pela mulher dele, Paula Thomaz. Ainda insuspeito, Pádua, incrivelmente, juntou-se ao luto da família. Não me ocorre que tenha sido tratado por "Gui" no noticiário, como Daniella talvez o fizesse. Em 2002, em São Paulo, Suzanne von Richthofen urdiu com o namorado Daniel Cravinhos e o irmão deste, Cristian, a morte de seus pais enquanto dormiam. Nem por isso Suzanne tornou-se Suzy.

Também em 2002, numa favela carioca, o jornalista Tim Lopes foi capturado, torturado e morto pelo traficante Elias Pereira da Silva e seus cúmplices. O corpo foi coberto de pneus, a que se jogou combustível e se pôs fogo, num processo chamado de "micro-ondas". Elias era famoso como "Elias Maluco", não como Eli.

Em 2008, também em São Paulo, Isabella Nardoni, cinco anos, foi agredida pela madrasta, Anna Carolina, e atirada do 6º andar por seu pai, Alexandre Nardoni. Por sorte, eles não se tornaram o casal Aninha e Alex, como os amigos deviam chamá-los. E, em 2012, igualmente em São Paulo, o executivo Marcos Matsunaga foi morto com um tiro por sua mulher, Elize. Teve o corpo dividido em sete partes e estas, levadas em malas e espalhadas pela região de Cotia. Mas Elize continuou Elize, não Ize.

Já o psicopata Jairo Souza Santos foi reduzido ao singelo diminutivo "Jairinho".

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