O Estado de S. Paulo
Daniel Vorcaro não foi eleito nem se filiou a partido, mas liderava uma bancada silenciosa
Ele não teve um voto. Não era filiado a
nenhum partido político. Também não apareceu no horário eleitoral ou nas
audiências públicas no Congresso. Mas conseguia propor projetos, mobilizar
lideranças, convocar autoridades para alterar não apenas leis, mas para emendar
até mesmo a Constituição do Brasil. Tudo para facilitar os seus negócios.
A atuação parlamentar de Daniel Vorcaro transformou o banqueiro no 82.º senador da República. Apesar de não ter gabinete ou cadeira no plenário do Senado, o chefe da organização por trás da fraude bilionária do Banco Master dispunha de uma bancada silenciosa, que podia provocar “hecatombes” em Brasília. Como? Para entender o funcionamento dos tentáculos do banqueiro, o eleitor deve ler as 87 páginas da informação de polícia judiciária 1381577/2026, cujo sigilo foi levantado pelo ministro André Mendonça.
Na página 18, os federais registraram uma
mensagem de 17 de maio de 2024 do banqueiro para a namorada Martha Graeff, que
questionou quem era o homem ao lado de Vorcaro em uma foto. “Ciro Nogueira. É
um senador. Muito amigo meu. Quero te apresentar. Um dos meus grandes amigos de
vida.”
Vorcaro tinha muitos amigos.
O banqueiro perdulário pagava viagens e
despesas em hotéis de luxo do senador e de deputados, como Hugo Motta e Doutor
Luizinho. Dava festas com ucranianas e russas e promovia degustações de
charutos e uísque.
Adquiriu o direito de redigir a Emenda 11 à
PEC 65/2023, que propunha ampliar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o limite de
cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). “Saiu exatamente como mandei”,
disse Vorcaro, após ler a emenda, de autoria de Ciro. Em mensagem ao banqueiro,
um assessor definiu o efeito que a medida teria: “Você sextuplica seu negócio”.
O FGC informou em 17 de janeiro de 2026 que
pagou R$ 40,6 bilhões em garantias aos 800 mil clientes do Master. Isso
equivalia a 32,5% da liquidez do fundo, o que dá uma ideia da sangria que
haveria no FGC se a tal emenda tivesse sido aprovada.
O 82.º senador da República ainda teria
participado da redação de outros dois projetos de lei. Os federais concluíram
que o amigo Ciro atuava para “defender os interesses do banqueiro em troca de
vantagens indevidas”. O senador e ex-ministro de Jair Bolsonaro se diz inocente
e vítima de perseguição. Além da vida nababesca, ele receberia do 82.º senador
uma mesada de R$ 300 mil e participações societárias adquiridas com deságio –
ganhou R$ 11 milhões em uma dessas operações. A PF o acusa de corrupção, de
organização criminosa, de lavagem de dinheiro e de crime contra o sistema financeiro
nacional durante o tempo em que seu amigo ocupava a 82.ª cadeira no Senado.

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