Valor Econômico
Privilégios evidenciam a sobrevivência de
arcaísmos dos tempos coloniais
“A revolução dos bichos”, de George Orwell, é
um desses livros que a gente lê com a estranha sensação de que já o havia lido
e até mesmo de que já esteve no lugar ali descrito e até presenciou os
acontecimentos ali ocorridos. O livrinho trata do poder das entrelinhas e do
avesso na edificação da lógica perversa e oculta da dominação política fora dos
marcos da grande herança da Revolução Francesa.
A familiaridade que a leitura nos sugere dá a
impressão de que Orwell esteve no Brasil (ou Brazil?). Não só a gente já viu
isso, mas ainda está vendo.
Tudo começa com uma insurreição dos bichos da chácara de Mr. Jones. Preguiçoso e bêbado, ele descuidava dos animais e os maltratava. Os animais haviam espalhado que Major, um porco premiado, tinha tido um sonho que gostaria de contar a todos logo que o dono da granja fosse dormir. E começou: “Será esta nossa terra tão pobre que não ofereça condições de vida decente aos seus habitantes?”. Ressaltou as condições adversas em que viviam os animais: “A vida do animal é feita de miséria e escravidão: essa é a verdade nua e crua”.
Para encurtar a história, que é mera
epígrafe, eles decidem se revoltar, expulsar o dono, mudar o nome da granja
para dar-lhe um sentido social, revogar várias normas opressivas. Dividem o
trabalho, reorganizam a sociedade.
Numa ampla parede do estábulo, lugar da
reunião, um dos animais, que sabia escrever, anotou, em letras bem legíveis,
sete mandamentos sugeridos democraticamente pelos animais. Tinham por
referência avessa os homens e suas maldades. Uma espécie de constituição da
sociedade que estava sendo criada pelos insurgentes.
O sétimo e último mandamento dizia
significativamente: “Todos os animais são iguais”. Como no artigo 3º da
Constituição brasileira de 5 de outubro de 1988: “Todos são iguais perante a
lei, sem distinção de qualquer natureza...”.
Lá, tudo corria bem. Aqui, nem tanto. Os
animais estavam felizes. Quase todos os animais foram alfabetizados. Talvez por
isso aguçaram a sensibilidade, desenvolveram uma personalidade mais atenta e
lúcida, chegaram ao pensamento crítico, que alerta contra a tirania e assegura
a igualdade dos animais.
De repente começaram a notar que havia coisas
diferentes do combinado. Um dia, ao voltarem do trabalho no corte do feno,
perceberam que o leite havia desaparecido. Mais adiante, descobriram que estava
sendo misturado com a ração dos porcos que agora administravam o novo país da
igualdade. E foram notando que havia uma certa desigualdade na distribuição dos
frutos do trabalho de todos. Aos poucos, justamente em nome dos valores dos
sete mandamentos, grandes mudanças implantadas pelos porcos foram sendo feitas
na granja, que voltava a ser basicamente a mesma da época de Jones.
Os mandamentos, interpretados pelo avesso,
asseguravam privilégios aos porcos, para o fingimento de que, no formato
imaginariamente invertido, serviam ao bom cumprimento dos valores sociais neles
proclamados. Já aqui, avessos estão nas emendas constitucionais e nos
penduricalhos. De modo que surgiram indícios e boatos de promiscuidade entre
animais e homens.
Um dia os bichos resolveram conferir os
mandamentos escritos na parede do estábulo para ver se as surpresas e apreensões
resultavam de algo que lhes havia escapado quando os ditaram para que fossem
escritos. Agora, havia um só mandamento: “Todos os animais são iguais, mas
alguns são mais iguais”.
Os bichos foram, então, conferir a notícia da
convivência de porcos com os homens, “mas já era impossível distinguir quem era
homem, quem era porco”.
Em dias recentes, notícias de corte de
penduricalhos em vencimentos de servidores públicos em diferentes poderes
chamaram atenção para o fato de que privilégios patrimoniais no serviço público
evidenciam a sobrevivência de arcaísmos dos tempos coloniais, sem contar os
inventados pela própria República. Com uma característica, ao que parece muito
nossa. Tudo tem nome que disfarça o fato de que se trata de aumento salarial
ilegal para alguns, mas não para todos.
Temos no Brasil indicações históricas da
variação da categoria dos mais iguais. Como em “A revolução dos bichos”, ser
mais igual não é para os ínfimos. Não é para os crédulos das procissões
falsamente religiosas para viabilizar a ilegalidade de manifestações
partidárias. Não é vestir cueca e calcinha de tecido verde e amarelo para
fingir patriotismo e participar de demonstrações politicamente destrutivas,
como a da intentona de 8 de janeiro de 2003.
É preciso ter poder e estar no poder para ser
mais igual. Quando os animais descobrem, tardiamente, que não há diferença
entre quem é gente e quem é porco, confirma-se o fato consumado que gente virou
porco.

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