Correio Braziliense
A CPMI do INSS deixou de ser
apenas instrumento de apuração e se converteu em arena de desgaste continuado.
Opera em dois tempos: o jurídico e o midiático
A quebra dos sigilos bancário e fiscal de
Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, pela CPMI do INSS, somada à decisão
judicial que já havia autorizado medidas semelhantes no âmbito da investigação
criminal, representaram uma típica “bola nas costas” no Palácio do Planalto. O
governo vinha administrando a comissão com relativa folga, amparado por maioria
circunstancial e pela capacidade de modular convocações incômodas. A votação
que atingiu o filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva mudou o eixo
político da CPMI.
O fato novo não é apenas a deliberação da comissão parlamentar. O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), já havia autorizado a quebra de sigilos em investigação conduzida pela Polícia Federal. Agora, Lula está diante de um duplo cerco, um na frente política (CPMI), outro na judicial (STF), que vão se apertar e aumentar o desgaste pessoal do presidente da República e do governo.
A CPMI investiga descontos indevidos em
benefícios de aposentados e pensionistas do INSS, supostamente
operacionalizados por Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”. O
prejuízo é estimado em R$ 6,3 bilhões e atinge um segmento social
historicamente associado à base eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da
Silva. Trata-se de um escândalo com alto potencial simbólico: envolve idosos,
renda mínima e confiança no Estado.
Até a citação de Lulinha, o governo se
defendia com uma narrativa eficaz: tratava-se de esquema iniciado em 2019,
atravessando a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro. O Palácio do Planalto tomou
providências para ressarcimento e apuração rigorosa do escândalo. A entrada do
filho do presidente no radar, mesmo que não seja denunciado, altera a equação.
Mesmo que não se prove qualquer ilícito, o custo político é sobretudo
eleitoral. A oposição ganha uma narrativa fácil para comunicação com o eleitor,
associando corrupção bilionária, aposentados prejudicados e possível elo com
familiar do presidente.
Como a mulher de Cesar, o dilema dos filhos
de presidentes ajuda a ilustrar o problema: não basta ser honesto; é preciso
parecer honesto. A situação impõe a Lula uma postura institucionalmente
correta, reafirmar autonomia da PF e do Judiciário, mas pessoalmente
constrangedora. A comissão deixou de ser apenas instrumento de apuração e se
converte em arena de desgaste continuado. Opera em dois tempos: o jurídico e o
midiático.
O primeiro depende de provas; o segundo, de
fatos políticos e vazamentos seletivos. Mesmo sem indiciamento, a simples
manutenção do nome de Lulinha no noticiário por meses já produzirá efeito
corrosivo. É nesse ponto que o governo se torna dependente do Centrão. Para
evitar convocações mais agressivas, ampliação de diligências ou pautas hostis,
o Executivo precisa negociar apoio permanente. Isso significa concessões
orçamentárias, espaço político e influência em cargos estratégicos. O custo da
governabilidade será muito alto.
Promiscuidade
Em ano eleitoral, qualquer associação entre o
presidente e escândalo que atinja aposentados tem peso ampliado. Ainda que Lula
tenha afirmado publicamente que “ninguém ficará livre” e que “se tiver filho
meu envolvido, será investigado”, a oposição explorará cada etapa da
investigação como evidência de fragilidade moral. Um governo eleito com
discurso de reconstrução institucional e justiça social passa a depender ainda
mais de alianças pragmáticas para conter danos políticos. Escândalos envolvendo
familiares têm impacto próprio. Mesmo quando não resultam em condenação,
alimentam percepções difusas de promiscuidade entre público e privado. E
percepções, nas eleições, são como fatos.
O INSS nasceu em 1990 da fusão do IAPAS com o
INPS e convive historicamente com fraudes, desde o caso Jorgina de Freitas nos
anos 1990 até os esquemas atuais. O problema é estrutural: fragilidade de
controles, volume gigantesco de recursos e capilaridade nacional. O escândalo
atual é ainda maior e ocorre em ambiente de hiperexposição digital. Se nada for
comprovado contra Lulinha,o governo poderá alegar tentativa de exploração
política. Mas até lá, a investigação será uma dor de cabeça permanente. Cada
nova fase da Operação Sem Desconto, cada novo depoimento ou planilha
apreendida, reacenderá a controvérsia.
O Planalto também subestimou o potencial de
convergência entre investigação judicial e iniciativa parlamentar. A quebra de
sigilo, tanto na esfera da CPMI quanto na decisão do ministro do STF, cria um
corredor institucional difícil de bloquear sem custo político elevado. Para
contê-lo, o governo terá que se entender com o Centrão nos termos estabelecidos
pelos presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e da Câmara, Hugo
Motta (Republicanos-PB).
Ontem, a Comissão Parlamentar Mista de
Inquérito (CPMI)do INSS ouviu Paulo Otávio Montalvão Camisotti, filho do
empresário Maurício Camisotti, e aprovou a quebra dos sigilos bancário e fiscal
de Fabio Luís Lula da Silva, o Lulinha.A sessão foi precedida por confusão e
chegou a ser suspensa após bate-boca entre parlamentares. A base governista
decidiu recorrer ao presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP), para
contestar a votação que aprovou a quebra de sigilo fiscal e bancário de Lulinha,
no âmbito da CPMI do INSS. Sua decisão ainda é uma charada.

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