sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Quebrado ao meio, Ivan Alves Filho

O filósofo alemão Friedrich Nietzsche, que tanto marcou o pensamento moderno, afirmou certa vez desejar “quebrar ao meio a História da Humanidade”.

Talvez ele não tenha logrado seu intento. Mas pelo menos uma certeza podemos ter: Friedrich Nietzsche quebrou ao meio a sua própria história.

Explico: o filósofo passaria os últimos onze anos de sua existência internado em um asilo de alienados. Morreu em 1900, logo após completar 56 anos. Teve pouco tempo para produzir, como se vê, mas o fez intensamente. Provavelmente por vislumbrar a tragédia, Nietzsche não seria o primeiro na história do pensamento. 

Acusado frequentemente de ser um filósofo de propósitos autoritários, Friedrich Nietzsche recorreu por diversas vezes aos aforismos como forma de expressar o seu pensamento. Curiosamente, o aforismo implica a adoção de um sistema aberto por parte do pensador. É seguramente contrário a qualquer rigidez conceitual. Não fica difícil perceber que Nietzsche se recusou a colocar uma grade no que quer que seja. Pensa como vive, ou seja, em liberdade.

Apesar das especulações existentes em torno da sua concepção de Übermensch (ou Super-homem) o termo utilizado por Friedrich Nietzsche tem mais que ver com a ideia de uma superação a que o homem deve buscar sempre, no sentido de ultrapassar suas dificuldades e até limites. Assim, essa concepção nada tem que ver com uma noção de mundo dos nazistas, que dela tentaram se apropriar, transformando-a em algo que apontava para uma Herrenrasse (ou uma raça de mestres, superior às demais).

Seu sistema de raciocínio é flexível, revelando semelhanças com aquele de outro gigante da filosofia europeia, Michel de Montaigne. E talvez seja o caso também de pensarmos em Chamfort e em suas máximas. De qualquer forma, a agilidade mental dos autores de aforismas impressiona ainda hoje. Assim, em um diálogo travado com Ruhlière, o moralista Chamfort, ao ouvir dele que em sua vida só cometeu “uma única maldade”, replicou imediatamente: “E quando ela vai terminar?”

Nietzsche foi influenciado inicialmente por Arthur Schopenhauer, pelo músico Wagner e pela tragédia grega, três constantes em seu trabalho. Depois, romperia com o pessimismo de Schopenhauer. Vive de forma modesta, compõe muito e viaja, sobretudo pela Itália e pela Alemanha.

Na verdade, estamos a mil léguas de um pensamento especulativo meramente abstrato. Nietzsche busca na própria vida a matéria para suas reflexões. Não é nem de longe um acadêmico, um filósofo profissional. Não é pago para pensar. Pelo contrário: paga o preço pelo que pensa. Mesmo sendo esse preço extremamente alto, como de fato o foi. O próprio filósofo apontava para essa característica fundamental de sua obra e em seus últimos escritos pedia que ninguém tomasse “partido” por ela, querendo apenas ser olhado pelas pessoas “com uma dose de curiosidade, como uma planta estranha”. 

E uma bela oportunidade de praticar isso nos é dada pela leitura de seus melhores textos filosóficos, publicados na prestigiosa coleção Bibliothèque de la Pléiade, da editora Gallimard, de Paris. Na edição coordenada por Marc de Launay, alguns textos são inéditos inclusive. Trata-se da edição definitiva dos escritos de Friedrich Nietzsche, não resta dúvida. Há ali muitas, mas muitas plantas estranhas mesmo.

Muito se especulou (e se especula até hoje) a respeito da loucura de Nietzsche. Foram levantadas as mais diferentes hipóteses, da sífilis à psicose maníaco-depressiva. Provavelmente ninguém chegará a uma conclusão exata. Até porque o cérebro humano possui cerca de 100 bilhões de neurônios, ultra compactados em uma massa de pouco mais de um quilo e meio, totalmente interligados entre si. Difícil mesmo de entender.

De toda maneira, o próprio Friedrich Nietzsche percebia que algo não ia lá muito bem com ele. Assim, já em 1881, apenas oito anos antes de enlouquecer, o autor de Genealogia da moral escrevia ao seu amigo Peter Gast: “Ah, amigo, tenho por vezes o pressentimento de levar uma vida muito perigosa. Meu espírito me diz que sou uma dessas máquinas que podem explodir de uma hora para outra”.

Dito e feito. E vamos tentar saber por qual razão, independentemente das especulações a respeito de sua saúde mental. Há quem estabeleça ligações, por exemplo, entre a evolução do seu pensamento (ou do próprio ritmo de seu pensamento, melhor dizendo até) e a instalação da loucura em seu cérebro. Poderia ter sido um caso extremo de estafa. Nesse sentido, os últimos meses do ano de 1888 têm a força de um exemplo – e de um exemplo completamente demolidor para ele. 

Esses são meses quase emblemáticos, para não dizer mesmo fatais, para esse grande leitor de Stendhal e Dostoiévski. A produção intelectual de Friedrich Nietzsche nesse período impressiona qualquer pessoa. Vejamos então. Em agosto de 1888, ele redigiu O caso Wagner. Em setembro, O crepúsculo dos ídolos. Em outubro, O anticristo. Em novembro, Nietzsche escreveu Ecce Homo. Ou seja, um ritmo simplesmente alucinante.

 “Trabalhe em algo, para que o diabo te encontre sempre ocupado”, asseverou São Jerônimo. E Nietzsche parece ter seguido isso à risca, apesar de nunca ter professado muitas simpatias pelo Cristianismo, cuja moral criticava, conforme sabemos. Mas Nietzsche nutria uma grande admiração por Cristo.

O filósofo alemão ainda não se daria por satisfeito, contudo: antes mesmo daquele fatídico ano de 1888 terminar, ele põe um ponto final em dois outros trabalhos ou ensaios, intitulados respectivamente Ditirambos de Dionísio e Nietzsche contra Wagner. Um assombro.

Certa vez, o filósofo escreveu algo que se encaixa perfeitamente em sua trajetória: “Quanta verdade suporta, de quanta verdade é capaz um espírito? Essa sempre foi para mim a mais preciosa e mais valiosa medida...Toda conquista, todo passo adiante na senda do conhecimento é fruto de um ato de valor, de dureza contra si mesmo, de própria depuração”. 

Isso posto, é preciso reconhecer os equívocos de Nietzsche em matéria de pensamento, uma vez que, por intermédio da apologia que fez do absurdo e do desespero, contribuiu seguramente para conduzir a filosofia ocidental a alguns impasses sérios. 

Seja como for, a 3 de janeiro de 1889 Friedrich Nietzsche mergulhava para sempre na loucura. O seu cérebro certamente não aguentou tamanha carga. Na verdade, cérebro algum talvez suportasse.

*Ivan Alves Filho, historiador 

 

 

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