Talvez ele não tenha logrado seu intento. Mas
pelo menos uma certeza podemos ter: Friedrich Nietzsche quebrou ao meio a sua
própria história.
Explico: o filósofo passaria os últimos onze anos de sua existência internado em um asilo de alienados. Morreu em 1900, logo após completar 56 anos. Teve pouco tempo para produzir, como se vê, mas o fez intensamente. Provavelmente por vislumbrar a tragédia, Nietzsche não seria o primeiro na história do pensamento.
Apesar das especulações existentes em torno
da sua concepção de Übermensch (ou Super-homem) o termo
utilizado por Friedrich Nietzsche tem mais que ver com a ideia de uma superação
a que o homem deve buscar sempre, no sentido de ultrapassar suas dificuldades e
até limites. Assim, essa concepção nada tem que ver com uma noção de mundo dos
nazistas, que dela tentaram se apropriar, transformando-a em algo que apontava
para uma Herrenrasse (ou uma raça de mestres, superior às demais).
Seu sistema de raciocínio é flexível,
revelando semelhanças com aquele de outro gigante da filosofia europeia, Michel
de Montaigne. E talvez seja o caso também de pensarmos em Chamfort e em suas
máximas. De qualquer forma, a agilidade mental dos autores de aforismas
impressiona ainda hoje. Assim, em um diálogo travado com Ruhlière, o moralista
Chamfort, ao ouvir dele que em sua vida só cometeu “uma única maldade”,
replicou imediatamente: “E quando ela vai terminar?”
Nietzsche foi influenciado inicialmente por
Arthur Schopenhauer, pelo músico Wagner e pela tragédia grega, três constantes
em seu trabalho. Depois, romperia com o pessimismo de Schopenhauer. Vive de
forma modesta, compõe muito e viaja, sobretudo pela Itália e pela Alemanha.
Na verdade, estamos a mil léguas de um
pensamento especulativo meramente abstrato. Nietzsche busca na própria vida a
matéria para suas reflexões. Não é nem de longe um acadêmico, um filósofo
profissional. Não é pago para pensar. Pelo contrário: paga o preço pelo que
pensa. Mesmo sendo esse preço extremamente alto, como de fato o foi. O próprio
filósofo apontava para essa característica fundamental de sua obra e em seus
últimos escritos pedia que ninguém tomasse “partido” por ela, querendo apenas
ser olhado pelas pessoas “com uma dose de curiosidade, como uma planta
estranha”.
E uma bela oportunidade de praticar isso nos
é dada pela leitura de seus melhores textos filosóficos, publicados na
prestigiosa coleção Bibliothèque de la Pléiade, da editora Gallimard, de Paris.
Na edição coordenada por Marc de Launay, alguns textos são inéditos inclusive.
Trata-se da edição definitiva dos escritos de Friedrich Nietzsche, não resta
dúvida. Há ali muitas, mas muitas plantas estranhas mesmo.
Muito se especulou (e se especula até hoje) a
respeito da loucura de Nietzsche. Foram levantadas as mais diferentes
hipóteses, da sífilis à psicose maníaco-depressiva. Provavelmente ninguém
chegará a uma conclusão exata. Até porque o cérebro humano possui cerca de 100
bilhões de neurônios, ultra compactados em uma massa de pouco mais de um quilo
e meio, totalmente interligados entre si. Difícil mesmo de entender.
De toda maneira, o próprio Friedrich
Nietzsche percebia que algo não ia lá muito bem com ele. Assim, já em 1881,
apenas oito anos antes de enlouquecer, o autor de Genealogia da
moral escrevia ao seu amigo Peter Gast: “Ah, amigo, tenho por vezes o
pressentimento de levar uma vida muito perigosa. Meu espírito me diz que sou
uma dessas máquinas que podem explodir de uma hora para outra”.
Dito e feito. E vamos tentar saber por qual
razão, independentemente das especulações a respeito de sua saúde mental. Há
quem estabeleça ligações, por exemplo, entre a evolução do seu pensamento (ou
do próprio ritmo de seu pensamento, melhor dizendo até) e a instalação da
loucura em seu cérebro. Poderia ter sido um caso extremo de estafa. Nesse
sentido, os últimos meses do ano de 1888 têm a força de um exemplo – e de um
exemplo completamente demolidor para ele.
Esses são meses quase emblemáticos, para não
dizer mesmo fatais, para esse grande leitor de Stendhal e Dostoiévski. A
produção intelectual de Friedrich Nietzsche nesse período impressiona qualquer
pessoa. Vejamos então. Em agosto de 1888, ele redigiu O caso Wagner. Em
setembro, O crepúsculo dos ídolos. Em outubro, O anticristo. Em
novembro, Nietzsche escreveu Ecce Homo. Ou seja, um ritmo simplesmente
alucinante.
“Trabalhe em algo, para que o diabo te
encontre sempre ocupado”, asseverou São Jerônimo. E Nietzsche parece ter
seguido isso à risca, apesar de nunca ter professado muitas simpatias pelo
Cristianismo, cuja moral criticava, conforme sabemos. Mas Nietzsche nutria uma
grande admiração por Cristo.
O filósofo alemão ainda não se daria por
satisfeito, contudo: antes mesmo daquele fatídico ano de 1888 terminar, ele põe
um ponto final em dois outros trabalhos ou ensaios, intitulados respectivamente Ditirambos
de Dionísio e Nietzsche contra Wagner. Um assombro.
Certa vez, o filósofo escreveu algo que se
encaixa perfeitamente em sua trajetória: “Quanta verdade suporta, de quanta
verdade é capaz um espírito? Essa sempre foi para mim a mais preciosa e mais
valiosa medida...Toda conquista, todo passo adiante na senda do conhecimento é
fruto de um ato de valor, de dureza contra si mesmo, de própria
depuração”.
Isso posto, é preciso reconhecer os equívocos
de Nietzsche em matéria de pensamento, uma vez que, por intermédio da apologia
que fez do absurdo e do desespero, contribuiu seguramente para conduzir a
filosofia ocidental a alguns impasses sérios.
Seja como for, a 3 de janeiro de 1889
Friedrich Nietzsche mergulhava para sempre na loucura. O seu cérebro certamente
não aguentou tamanha carga. Na verdade, cérebro algum talvez suportasse.
*Ivan Alves Filho, historiador

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