sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Escândalo embola o jogo da política, por Vera Magalhães

O Globo

Integrantes do Executivo imaginavam que Lula poderia sair incólume, mas percepção difusa de escândalo também atinge o governo e ajuda a explicar nova queda em pesquisas

O rastro de destruição deixado pela fraude do Banco Master em Brasília é tão grande que é difícil, hoje, apontar quem tem algo a ganhar com os desdobramentos do escândalo. Em maior ou menor grau, perdem o governo, o Supremo Tribunal Federal (STF), o Congresso e os partidos políticos, de A a Z.

Num ambiente marcado por alta tensão, em que um Poder aponta o dedo para o outro para detectar culpas, omissões, relações com o esquema de Daniel Vorcaro e responsabilidade por vazamentos de toda natureza, o rombo provocado pelo banco e a demora em estancá-lo são um trabalho de muitas mãos, que deixará mortos e feridos pelo caminho em todos os campos agora que as investigações acontecem de forma desordenada, tamanho foi o afã de abafá-las.

O governo Lula erra por arrogância ou ingenuidade quando imagina que poderá escapar incólume do tiroteio. A narrativa, disseminada na Esplanada, de que o presidente mandou apurar tudo e divulgar sem embargos, “duela a quem duela”, não resiste ao fato de, entre aqueles cujo sigilo foi quebrado, estar um dos filhos de Lula, Fabio Luis Lula da Silva, o Lulinha, personagem já conhecido de escândalos passados que ajudaram a desgastar o PT de forma incontornável junto a parcela do eleitorado.

Não é só isso: diante da profusão de atores e da complexidade de entendimento de uma fraude financeira sofisticada pela maioria do público, tudo recai, genericamente, na “conta do governo”. O "datapovo", aquela conversa rápida com motoristas de aplicativo e outros prestadores de serviços, já é suficiente para detectar a percepção de que, goste o Planalto ou não, o caso Master já está no colo de Lula e de que a ideia de atirar detritos no ventilador alheio pode dar tão errado quanto o recente oba-oba do carnaval.

As implicações, ainda não totalmente mapeadas, mas já bastante sérias, de ministros do Supremo com o caso também levam à associação imediata na cabeça do eleitor com o governo. O raciocínio — do qual, aliás, compartilham vários ministros preocupados de Lula — é mais ou menos assim: o STF que condenou Jair Bolsonaro de forma draconiana para ajudar o PT está até o pescoço envolvido nessa falcatrua e trabalhando para blindar os ministros a qualquer custo.

Negar essas implicações apenas porque são, sim, simplificações por vezes toscas é ignorar a lógica mais básica da polarização cristalizada que vigora no Brasil desde pelo menos 2018: a narrativa antecede os fatos e, por vezes, os substitui em definitivo.

Os próximos passos dessa crise são imprevisíveis porque as revelações de quem fez o que para permitir a alavancagem do Master ir tão longe e a liquidação do banco demorar tanto ainda estão só no começo. Agora que todo mundo resolveu investigar o caso, incluindo duas CPIs e a Comissão de Assuntos Econômicos do Senado — cada um com interesses próprios e, diga-se, nem sempre republicanos—, vai sobrar para todo mundo.

A alta octanagem explica atitudes como a do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, político conhecidamente centralizador e cioso do controle que exerce sobre a Casa que comanda, mas que viu os rombos no casco de seu navio se multiplicarem em menos de uma semana.

Até aqui, a sensação (errônea) de que há dois escândalos “do governo” em curso — do Master e do INSS — tem ajudado na consolidação de Flávio Bolsonaro como adversário de Lula. Mas até quando? Planalto e PT reconhecem que comeram bola ao deixar Flávio correr sem marcação na expectativa de enfraquecê-lo só quando a campanha começasse.

Com a abertura da caixa de Pandora que soltará rachadinha, compra de mansão em dinheiro vivo e outros passivos dele, as ligações de seus aliados próximos com a fraude do Master também começarão a ser exploradas.

Ninguém conseguirá surfar nessa onda, e quem tentar correrá grande risco de ser embolado ou até de se afogar.

 

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