O Globo
A democracia fica vulnerável quando a extrema
direita faz uso da religião como estratégia política. A Justiça Eleitoral tem
dificuldade de punir a prática
Começou a temporada do uso político de Deus,
uma manipulação permitida e incentivada por líderes evangélicos. A declaração
de Flávio
Bolsonaro de que é uma “guerra espiritual” e “uma luta contra o mal”,
se referindo à eleição deste ano, no qual ele é um dos pré-candidatos, repete o
roteiro de abuso do poder religioso. Pastores, por serem líderes seguidos pela
congregação, restringem a liberdade de escolha dos fiéis ao se posicionarem tão
explicitamente em uma questão que deveria estar restrita ao campo cívico. O
político que se utiliza disso está tendo uma atitude farisaica.
Flávio Bolsonaro não tem qualquer intimidade com a pauta evangélica e faz isso exclusivamente por oportunismo eleitoral. A democracia fica vulnerável quando isso acontece, porque as igrejas se tornam currais eleitorais e a Justiça Eleitoral pouco pode fazer contra essa distorção, sem ser acusada de ferir a liberdade de culto. O direito de professar a fé nada tem a ver com uso político dos púlpitos e sua transformação em palanques. A fronteira difusa que pastores criaram nos cultos e nos atos públicos como a “Marcha para Jesus” nunca foi demarcada pela legislação eleitoral.
O que aconteceu na “Marcha para Jesus” de São
Paulo este ano é lamentável sob todos os pontos de vista. A presença de Flávio
Bolsonaro e de Tarcísio
de Freitas é campanha antecipada, é uso da religião como estratégia
política num país laico, e é mentira. O que está acontecendo este ano no país
não é uma guerra espiritual e sim uma disputa de projetos políticos em que cada
cidadão e cada cidadã deveria ter o direito de escolher livremente. O
constrangimento que muitas denominações evangélicas impõem sobre os seus
membros é um ato político-eleitoral. Não deveria ocorrer, não é aceitável,
porém não se sabe como neutralizar.
A luta eleitoral por si só é intensa e há
muito espaço para a comparação de ideias e projetos. Deveria ficar restrita a
este lugar. Mas a direita nos últimos tempos tem imposto a interferência de
outros campos na arena política. O conceito de pátria que pertence a todos tem
sido apropriado por eles através do sequestro da bandeira e do hino nacional.
Na época da ditadura, os militares se
colocavam como detentores do monopólio dos símbolos da pátria. Da mesma forma
fez a extrema direita atual. Os manifestantes bolsonaristas abraçavam a
bandeira e entoavam o hino enquanto preparavam um golpe de Estado, como se viu
no 8 de janeiro. Até o plano de assassinatos de adversários foi definido pelos
golpistas como “punhal verde e amarelo”. Este ano em que todos estaremos juntos
torcendo pela seleção, eles vestirão a camisa amarela como se ela fosse só deles.
Esse suposto entusiasmo com as cores
nacionais ficou comprometido diante do que os líderes bolsonaristas têm feito
ao estimular o ataque à economia brasileira. Ao pedir novas tarifas sobre
produtos brasileiros, na verdade, trabalham para o enfraquecimento do país.
O ex-presidente Jair
Bolsonaro usou as igrejas evangélicas em favor de sua candidatura nas
duas disputas presidenciais das quais participou. Foi bem-sucedido na trama.
Esse segmento eleitoral, instrumentalizado pelos pastores, votou maciçamente no
candidato da extrema direita. Houve até pastores em marchas cristãs fazendo
arminha com a mão. Agora seu filho, Flávio Bolsonaro, tem a mesma desfaçatez do
pai e tenta usar Deus como parte do seu arsenal de campanha. Ao subir no
palanque no dia de Corpus Christi, ele disse que não estava ali como candidato,
mas como cristão. Era mentira. As afirmações que fez no mesmo dia mostraram
isso. “Vamos orar pelo nosso Brasil, essa guerra é espiritual. E hoje a maior
resposta que podemos dar ao mal, que vai ser expulso do governo do Brasil esse
ano”, disse ele, claramente manipulando a fé.
A Justiça Eleitoral precisa encontrar uma
forma de deter esse uso de símbolos religiosos. O ministro Luiz Edson
Fachin tentou tipificar o abuso do poder religioso como um ilícito
eleitoral específico que poderia levar à perda do mandato. A maioria do
Tribunal Superior Eleitoral (TSE)
rejeitou a proposta. O tema, contudo, permanecerá na agenda. Cada período
eleitoral será temporada da demagogia religiosa em que aparecem os fariseus, os
falsos profetas e os vendilhões do templo. Isso restringe a liberdade do voto,
por isso é uma questão a ser enfrentada pela Justiça.Isso restringe a liberdade
do voto, por isso é uma questão a ser enfrentada pela Justiça.

Um comentário:
Vendilhões do templo e vendilhões da pátria.
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