CNJ adota medida bem-vinda contra supersalários
Por Folha de S. Paulo
Contracheque único para juízes é avanço
contra penduricalhos, mas solução definitiva depende do Congresso
A desfaçatez é tanta que, enquanto o STF
debatia o tema, magistrados de SP embolsaram em média R$ 132 mil em março,
quase o triplo do teto
O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) enfim
adotou uma providência bastante óbvia para aumentar a transparência no
Judiciário: trata-se da criação do
contracheque único para magistrados, cujo objetivo é padronizar
rubricas e vedar folhas de pagamento paralelas.
Por trás dessa resolução, aprovada de forma unânime no fim de maio, está a necessidade de centralizar em um mesmo documento diversas remunerações que hoje têm aparecido dispersas, como diárias, ajuda de custo, gratificações, indenização de férias e valores retroativos pendentes.
Por incrível que pareça, essa dispersão não
decorre de simples barafunda administrativa. Ela é proposital: tribunais lançam
mão desse expediente a fim de disfarçar a petulância com que ignoram o teto
constitucional. Somadas, essas verbas com frequência ultrapassam o máximo que
deveriam respeitar, de R$ 46.366.
Daí por que o ministro Edson Fachin,
presidente do Supremo Tribunal Federal e do CNJ, criticou "a prática de
fragmentar pagamentos em múltiplos contracheques e folhas suplementares" e
afirmou que a nova resolução "é exigência imperiosa para o
cumprimento" do limite inscrito no texto da Constituição.
Está coberto de razão. Não é de hoje que
juízes e promotores, que deveriam ser os primeiros a observar a lei, julgam-se
no direito de desrespeitar o ditame da Carta Magna, como se coubesse a eles
decidir de que maneira despender o dinheiro do contribuinte.
A desfaçatez é tamanha que, enquanto o STF discutia
mecanismos para disciplinar pagamentos no Judiciário, juízes e desembargadores
do Tribunal de Justiça de São Paulo embolsaram remuneração
média de R$ 132 mil em março —quase o triplo do teto.
E nem se diga que a média foi puxada por um
ponto fora da curva. Não foi: a maior cifra montou a R$ 226 mil, e nada menos
que 2.536 magistrados receberam acima do limite no mês, o equivalente a 94% do
total de juízes e desembargadores da corte paulista.
Sem retirar o elogio dirigido ao CNJ, o que
não se entende é por que uma medida banal como o contracheque único não existe
há mais tempo. Dito de outra forma, salta aos olhos que esse bem-vindo controle
administrativo só tenha sido adotado depois de o STF criar um
"puxadinho" para o Judiciário e o Ministério Público.
Pois foi o que o Supremo fez em março. Em vez
de aplicar a Constituição e dar um basta nos chamados penduricalhos, a corte
inventou um novo limite, correspondente a 70% acima do teto atual. E
é para fins desse teto turbinado que valerá o contracheque único, e não para a
regra estipulada na Carta Magna.
Considerada a esbórnia prevalente ao longo de
tantos anos, soluções imperfeitas não deixam de ser avanços. Mas o que a
sociedade de fato espera é que os supersalários deixem
de existir no serviço público e que isso ocorra por decisão do órgão competente
para fazê-lo: não o STF, mas o Congresso
Nacional.
CVM deve explicações sobre norma ambiental
Por Folha de S. Paulo
Órgão revoga medida de 2023 que obrigava
empresas a divulgarem relatórios sobre sustentabilidade
Decisão do colegiado, que careceu do devido
debate e de respaldo técnico, compromete a posição de vanguarda do Brasil no
tema
De modo geral, reguladores buscam elevar o
parâmetro de cumprimento de suas diretrizes, não reduzi-lo. No entanto foi isso
o que fez a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), na semana passada, ao revogar a
obrigatoriedade de divulgação de dados financeiros sobre sustentabilidade por
companhias de capital aberto.
Trata-se de um retrocesso. Ao reverter sua
posição, a comissão cede a interesses políticos e econômicos de curto prazo,
segundo os quais a pauta ambiental seria meramente ideológica.
A mudança, que carece de argumentos
respaldados por evidências, se dá em um cenário de resistência a padrões de
sustentabilidade na CVM.
A Associação Brasileira das Companhias
Abertas alegou ao órgão que a publicação dos relatórios impõe custos elevados
porque essas empresas teriam de mensurar impactos ambientais e metas de emissão
de seus ativos financeiros.
Dada a centralidade do tema no âmbito
doméstico e global, tais dados já deveriam ser computados por empresas, ao
menos dentro do seu escopo de atuação.
Ademais, a implementação da medida ora
derrubada não se deu de forma açodada. A norma que exigiria a obrigatoriedade
de relatórios foi adotada em 2023 pela comissão e passaria a ser mandatória
apenas em 2027.
Sua revogação, aprovada pelo colegiado da
CVM, foi assinada pela presidência interina da instituição, embora o Senado já
tenha aprovado, no final de maio, o nome de
Otto Lobo para o cargo.
Reverter políticas já esperadas pelo mercado
sem o devido debate, ainda mais num tema fundamental, não é adequado.
O prazo estipulado pela comissão deveria ser
suficiente para permitir a adaptação às novas regras. A entrada em vigor da
medida também poderia ter sido feita em etapas, aumentando gradualmente a
adesão das companhias.
Ao tornar uma política antes obrigatória em
voluntária, dentro do regime conhecido como "pratique ou explique", a
CVM compromete a posição de vanguarda do Brasil no tema.
Salvaguardas essenciais como processos de
consulta pública e análise de impacto socioambiental da regulação deveriam ter
sido adotadas para que a CVM tivesse subsídios para explicar sua decisão ou,
preferencialmente, revertê-la em prol da sustentabilidade.
Não faz bem ao mercado, nem ao país, sinalizar ao mundo que medidas com potencial para combater o aquecimento global são opcionais, numa realidade em que eventos climáticos extremos mostram o contrário.
Rigor para blindar política contra crime é
bem-vindo
Por O Globo
É correto impugnar candidaturas vinculadas a
organizações criminosas, mesmo sem condenação judicial
O Ministério Público Eleitoral (MPE) tomou
uma decisão acertada ao orientar promotores e procuradores a propor a
impugnação de candidatos com elos comprovados com o crime organizado, mesmo que
não tenham condenação na Justiça. A Lei
da Ficha Limpa, que barra a candidatura de condenados em segunda instância, não
tem conseguido blindar a vida pública contra representantes de facções criminosas.
Não ter condenação no currículo deixou de ser garantia de idoneidade.
É crucial evitar que se repita o que
aconteceu na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), onde o deputado Thiego
Raimundo dos Santos Silva, o TH Joias, atuava como representante do Comando
Vermelho (CV) buscando acesso a informações policiais. Quando entrou na mira da
Polícia Federal, foi avisado pelo próprio presidente da Alerj, Rodrigo
Bacellar, também preso depois. Em Alagoas, o pré-candidato a deputado federal
pelo MDB Patrick Almeida, influenciador com 185 mil seguidores, foi preso numa
operação contra o CV. Ele já havia tentado ser candidato a vereador pelo
Solidariedade, em 2024, mas não obteve registro.
A crise de segurança pública que aflige o
Brasil exige medidas duras como a tomada pelo MPE. A Lei da Ficha Limpa, eficaz
na punição de políticos municipais por improbidade administrativa, foi
enfraquecida recentemente pelo Congresso, e uma ação contesta a mudança no Supremo.
Mesmo que seja mantida intacta, sempre pode escapar alguém. Diante do
fortalecimento de facções como CV e PCC, hoje articuladas com grupos políticos,
é necessário mais rigor na análise de pedidos de registro de candidatura.
MPE e a Justiça
Eleitoral já vinham atuando dessa forma com sucesso no Rio de Janeiro.
A tentativa de Carlos Alberto de Macêdo (MDB) de se candidatar a vereador por
Niterói (RJ) foi rejeitada pela Justiça Eleitoral do Rio em 2024. O processo
chegou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O julgamento, em março do ano
passado, consolidou a jurisprudência que sustenta decisões de tribunais
eleitorais baseadas não apenas no que diz a letra fria da lei, mas também na
interpretação dos juízes sobre fatos comprovados.
O ministro André
Mendonça, relator do processo no TSE, argumentou que, embora Macêdo não
estivesse enquadrado na Lei da Ficha Limpa, não poderia concorrer, pois era
acusado de ter assassinado um vereador de quem era suplente para assumir sua
vaga em 2012. “A Justiça Eleitoral não pode fechar os olhos à realidade
nacional, em que organizações criminosas buscam se infiltrar na política, como
simbiose entre a atuação como integrante do Estado e a continuidade delitiva”,
afirmou Mendonça. Ele baseou sua argumentação na Constituição e na Lei dos
Partidos Políticos, de 1995, que proíbe legendas ligadas a “organização
paramilitar”. Foi apoiado por unanimidade.
Por tudo isso, também é bem-vinda a
instalação, desde 1º de janeiro, do Grupo de Trabalho de Combate ao Crime
Organizado em Âmbito Eleitoral, iniciativa da Procuradoria-Geral Eleitoral.
Mesmo que o aspirante a candidato não tenha condenação judicial, serão levados
em conta menções em depoimentos prestados em processo judicial perante juiz e
registros do Disque Denúncia. Deve haver, evidentemente, cuidado para evitar
injustiças e arbitrariedades. Mas é indiscutível que o Estado precisa ter
postura mais rigorosa para se proteger da infiltração do crime.
Dificuldades impostas ao aborto legal devem
ser enfrentadas com firmeza
Por O Globo
A lei assegura o direito a vítimas de
estupro, em especial crianças e vulneráveis. Ela deve ser cumprida
No Brasil, o aborto não
é crime quando a gravidez representa risco de vida para a gestante, o feto é
anencéfalo ou a gravidez é resultado de estupro. Relações sexuais com menores
de 14 anos são consideradas estupro de vulnerável, portanto crianças e
adolescentes têm o direito, garantido por lei, de interromper a gestação.
Aprovada em 2024, uma resolução do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e
do Adolescente (Conanda), do Ministério dos Direitos Humanos, estabeleceu
orientações para evitar burocracia e atraso no procedimento. Na terça-feira,
porém, o Senado aprovou um relatório da senadora Damares Alves (Republicanos-DF)
derrubando as orientações do Conanda. A Justiça provavelmente dará a palavra
final no caso. Espera-se que faça cumprir a legislação. Todo brasileiro tem
direito a opinião sobre aborto, mas ninguém pode dificultar o cumprimento de
uma lei com base em suas crenças.
A resolução do Conanda tenta evitar
burocracia para quem está em situação delicada. Muitos profissionais da área
médica, por serem contrários ao aborto ou por temerem represálias ou processos
judiciais, exigiam boletim de ocorrência ou autorização legal antes de executar
o procedimento, ainda que isso não seja previsto em lei. Atrasos podem levar à
desistência involuntária ou a medidas mais extremas. Em 2020, uma avó do
Espírito Santo descobriu a gravidez da neta de 10 anos estuprada havia anos por
um tio. A menina chegou a ser internada em Vitória, mas a equipe médica se
recusou a realizar o aborto. Com decisão judicial em mãos, avó e neta
precisaram fazer viagem de mais de 1.600 quilômetros até Recife e também lá
tiveram de enfrentar obstáculos. O local do aborto vazou, extremistas cercaram
o hospital, e a menina precisou entrar escondida.
Além de tentar dificultar o cumprimento da lei, parlamentares contrários ao aborto buscam aprovar legislação mais restritiva. Em 2024, o deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) apresentou Projeto de Lei equiparando o aborto depois de 22 semanas de gestação a homicídio — uma proposta estapafúrdia. A Câmara aprovou o regime de urgência, mas, ante a reação contrária da opinião pública, o projeto não foi votado. Em Assembleias Legislativas e Câmaras Municipais, o tema tem ganhado atenção. Entre 2019 e 2024, houve 102 propostas no âmbito estadual e 91 no municipal, de acordo com levantamento da ONG Artigo 19. Quatro em dez buscavam criar dificuldades.A gravidez de menores é problema de grandes proporções no Brasil. Crianças e adolescentes são os principais alvos de estupro. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em 77% dos 87.545 casos registrados em 2024, as vítimas eram vulneráveis. Seis em dez estupros aconteceram dentro da própria casa, e 45% são cometidos por familiares. Diante dessa realidade, a sociedade deve redobrar esforços para criar e desobstruir canais de denúncias, capturar e punir com rigor os estupradores e cuidar da saúde e dos interesses das vítimas. Jamais dificultar um procedimento a que elas têm direito por lei.
Vorcaro, o finório
Por O Estado de S. Paulo
Ao dizer a seus advogados que pagou a
autoridades por ‘amizade’, banqueiro mostra que sua eventual delação será uma
piada. Por isso as tratativas para acordo têm de ser encerradas
A negociação para um acordo de colaboração
premiada entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, a Polícia Federal (PF) e a
Procuradoria-Geral da República (PGR) tem prestado um enorme desserviço ao
interesse público e por isso deve ser imediatamente encerrada pelas
autoridades.
Vorcaro zomba do Brasil decente, incluindo
suas autoridades. O marco zero de qualquer acordo desse tipo é a admissão, pelo
colaborador, de que cometeu os crimes pelos quais é investigado ou já é
acusado. Mas, como a imprensa tem noticiado, o ex-banqueiro resiste à
confissão, omite fatos importantes e tenta impor condições para preservar
alguns de seus amigos cultivados a peso de ouro e whisky, sabe-se lá por quais
razões.
É o caso de relembrar que a colaboração
premiada, introduzida no nosso ordenamento jurídico pela Lei 12.850/2013, não
foi concebida para servir ao investigado ou réu colaborador. Trata-se de um
negócio jurídico que pressupõe “utilidade e interesse públicos”. Mais bem dito:
o espírito da lei é resguardar a sociedade, não a liberdade ou o patrimônio do
colaborador. Os eventuais benefícios concedidos ao sr. Vorcaro seriam
concessões excepcionais do Estado justificadas apenas se a colaboração for
efetiva, ampla, voluntária e, ademais, produzir resultados concretos para a
persecução penal.
Por isso, o primeiro ato de boa-fé de quem
pretende obter as benesses do Estado é reconhecer sua participação nos ilícitos
investigados. O segundo é fornecer, sem qualquer tipo de reserva, todas as
informações e provas de que dispõe. É tão simples quanto isso. Não há
colaboração genuína quando o colaborador escolhe o que contar, decide quem irá
proteger ou explora o acordo como uma ferramenta de blindagem de seu patrimônio
pessoal, como parece ser o caso de Vorcaro. Os responsáveis pelo maior crime
financeiro de que já se teve notícia no País não podem sair com um centavo no
bolso ao fim desse escândalo.
O Estadão noticiou
que Vorcaro teria afirmado a seus advogados que bancou extravagâncias e
transferiu dinheiro para autoridades, ora vejam, por relações de “amizade”, sem
exigir contrapartidas. Só pode ser zombaria. Uma declaração desse jaez já prova
que, da parte de Vorcaro, não há interesse genuíno em colaborar, mas sim em
garantir seu padrão de vida no futuro.
Se Vorcaro não está em posição legal nem
moral de ditar os termos de sua delação, muito menos pode-se falar de sua
posição material. Tanto a PF como a PGR já dispõem, hoje, de um robusto
arcabouço probatório que independe da palavra de Vorcaro para instruir uma
futura ação penal que, muito provavelmente, pode condená-lo a muitos anos de
prisão. Os celulares do ex-banqueiro, documentos apreendidos, registros de
movimentação financeira e tudo mais que foi reunido pela PF ao longo da
Operação Compliance Zero constituem uma usina de provas. Os próprios
desdobramentos recentes da investigação, que levaram à prisão do pai de Vorcaro
e à descoberta de uma suposta “mesada” para o senador Ciro Nogueira (PP-PI),
sugerem que os policiais seguem avançando a despeito do silêncio seletivo do
ex-banqueiro.
Nessas circunstâncias, a utilidade da delação
só se justificaria caso Vorcaro trouxesse informações novas, comprováveis e
capazes de ampliar significativamente o alcance das apurações já realizadas até
agora. Se o colaborador pretende apenas ganhar tempo, melhorar suas condições
de custódia na Superintendência da PF em Brasília ou preservar “amigos”, esse
acordo não valerá o papel em que for escrito.
Por fim, há uma questão de fé pública que não
pode ser ignorada. O caso Master, que varreu a Praça dos Três Poderes e chegou
até ao STF, arruinou a confiança dos cidadãos nas instituições republicanas. A
sociedade tem o direito de esperar que todos os que se associaram a Vorcaro em
seus crimes sejam investigados com rigor, independentemente dos cargos que
ocupam. Qualquer acordo que transmita a mera impressão de indulgência
comprometerá não apenas esta investigação, em particular, mas a própria
credibilidade do instituto da colaboração premiada.
No caso do Banco Master, a melhor resposta
institucional é a mais simples: encerrar as conversas para uma delação, seguir
adiante com as provas já reunidas contra Vorcaro e deixar que a Justiça cumpra
seu papel.
Oposição patética
Por O Estado de S. Paulo
A oposição, que deveria ter defendido o setor
produtivo no caso do fim da escala 6x1, mas votou a favor, agora finge que quer
uma alternativa. Não surpreende que o populismo triunfe
Senadores da oposição apresentaram uma
Proposta de Emenda à Constituição (PEC) como alternativa ao texto que acaba com
a escala 6x1 e reduz a jornada de trabalho das atuais 44 horas para 40 horas
semanais. A iniciativa, liderada pelo senador Rogério Marinho (PL-RN),
coordenador da pré-campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da
República, estabelece um regime flexível, baseado em horas trabalhadas, e a
possibilidade de que a jornada seja definida mediante acordo individual entre
empresas e empregados.
Trata-se de uma tardia e desconjuntada reação
ao governo Lula, que, na falta de realizações capazes de convencer o eleitorado
a lhe conferir um novo mandato, tomou para si uma pauta que, até poucos meses
atrás, não era prioridade nem mesmo para o PT. Estivéssemos em qualquer outro
período que não um ano eleitoral, uma PEC como esta jamais teria avançado sem
um longo debate com todas as partes envolvidas, sopesando custos e formas de
diluí-los sem penalizar empresas e, sobretudo, a sociedade, sobre quem recairá
o ônus da “bondade”, na forma de mais inflação e menor crescimento econômico.
O fato de o presidente do Senado, Davi
Alcolumbre (União-AP), ter anunciado que a PEC tramitará por comissões antes de
ser submetida ao plenário é puro jogo de cena. A esta altura, não há a menor
chance de o Senado barrar o avanço da proposta. Qualquer mudança que os
senadores façam no texto já aprovado pelos deputados obrigará a PEC a retornar
à Câmara para ser submetida a uma nova votação, o que atrasaria sua vigência. O
PT, de sua parte, já acionou sua rede de ativistas e influenciadores para
pressionar os senadores a não colocarem obstáculos à medida.
Fazer oposição a um governo, seja ele de
esquerda ou de direita, é assumir o risco de sofrer derrotas mesmo quando se
tem razão e, diante de um cenário inevitável, trabalhar para reduzir danos sem
perder a coerência. É o oposto do que o PL fez na semana passada. Dificilmente
assistiremos neste ano a um discurso tão patético quanto o proferido pelo líder
do partido na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), na véspera da votação do texto.
Em vez de manter um mínimo de lógica, uma vez que seu partido tem a palavra
“liberal” no nome, o deputado anunciou que sua bancada passaria a defender a
escala 4x3, em vez da 5x2. “Não somos hipócritas e oportunistas como este
governo”, afirmou Sóstenes, sem corar.
Ora, se havia um partido que não poderia
adotar esse posicionamento estapafúrdio era o PL. Trata-se não apenas da maior
legenda de oposição a Lula, como também da que detém a maior bancada da Casa,
com 97 deputados. Pouco importa que sua real intenção não fosse aprovar a
escala 4x3, mas obstruir as votações e constranger a esquerda. Para o eleitor,
manobras regimentais como essa são indecifráveis, e o pior é que ela não
funcionou. Como se não bastasse, quando o texto foi submetido a plenário,
apenas 11 parlamentares da sigla votaram contra a PEC no primeiro turno de
votações, e no segundo turno, somente 9.
Encurralado por um governo que nem de longe
conta com maioria no Legislativo e pelo receio de ser punido pelas urnas, o PL
se prestou a um papelão. Apresentada horas depois desse vexame, a PEC das horas
trabalhadas é mera tentativa de minimizar esse prejuízo político, sem qualquer
perspectiva de sucesso.
O que Sóstenes, Marinho e seus colegas
deveriam ter feito desde o início era atuar por um período de transição mais
longo e por ajustes no próprio texto com o qual o governo contava – antes que
ele fosse votado, e não depois. Não faltavam argumentos nem estudos da
indústria, do comércio e dos serviços para desmontar uma articulação construída
por mera urgência eleitoral.
Mas agora é tarde. Em vez de assumir sua
agenda e defender o setor produtivo, o partido subestimou seus eleitores,
muitos dos quais contrários ao fim da escala 6x1 por razões ideológicas, e
mostrou a eles que, quando se trata de populismo, não há diferença alguma entre
votar no PT ou no PL. No fundo, nenhum dos dois está comprometido com o futuro
do Brasil.
A conta da pobreza menstrual
Por O Estado de S. Paulo
Leis avançam e o tema deixou de ser tabu, mas
a menstruação ainda atrapalha muitas estudantes
Menstruar ainda atrapalha a educação de
milhões de brasileiras. A constatação pode parecer surpreendente num país que,
nos últimos anos, finalmente passou a discutir a pobreza menstrual de forma
mais aberta e a criar políticas públicas voltadas ao tema. Mas é exatamente
isso que mostram os dados divulgados na semana passada pelo Instituto Alana e
pelo Instituto Equidade.info. Quase quatro em cada dez alunas brasileiras
faltam à escola ao menos uma vez por mês por causa da menstruação. Em muitos
casos, as ausências decorrem de dores incapacitantes. Em outros, da falta de
condições adequadas para lidar com o ciclo menstrual. Em todos eles, o
resultado é o mesmo: prejuízo ao aprendizado e à permanência escolar.
O Brasil demorou a reconhecer a dimensão
desse problema. Em 2021, o então presidente Jair Bolsonaro vetou parcialmente o
programa que previa a distribuição gratuita de absorventes para estudantes de
baixa renda, mulheres em situação de rua e presidiárias. O Congresso derrubou o
veto, mas a regulamentação da política federal só veio em 2023. Houve avanços
desde então. O tema deixou de ser tabu em parte da sociedade e passou a
integrar a agenda de saúde pública. O que os números divulgados agora revelam,
contudo, é que esses avanços ainda estão longe de produzir os resultados
necessários.
Talvez o dado mais revelador nem seja o das
faltas mensais. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) de 2024
mostram que 15,3% das adolescentes deixaram de frequentar a escola ao menos uma
vez por falta de absorventes ou outros itens para cuidados menstruais. Nas
escolas públicas, o índice chega a 16,9%. O mais perturbador, porém, é outra
informação: mais de 80% dessas adolescentes estudavam em escolas que afirmavam
oferecer absorventes. A conclusão é inevitável. O problema não está apenas na
existência da política pública, mas na sua capacidade de chegar efetivamente a
quem precisa.
Se o produto existe, mas a estudante não
consegue acessá-lo, há uma falha de execução. Se a adolescente desconhece a
oferta, há uma falha de comunicação. Se sente vergonha de procurar ajuda, há
uma falha de acolhimento. Se a distribuição é irregular, há uma falha de
gestão. Em qualquer dessas hipóteses, o resultado é o mesmo: uma política
criada para garantir dignidade e permanência escolar não cumpre integralmente
sua função.
A nova pesquisa também ajuda a desfazer outra
simplificação recorrente. A pobreza menstrual não se resume à falta de
absorventes. As cólicas aparecem como principal causa das faltas escolares. O
levantamento mostra ainda que mais de um terço das meninas brasileiras começa a
menstruar por volta dos 10 anos de idade. Trata-se de uma realidade que exige
informação precoce.
O Brasil acertou ao abandonar o obscurantismo que tratava a pobreza menstrual como assunto menor ou constrangedor. Mas reconhecer um problema é apenas o primeiro passo para solucioná-lo. Quando milhões de meninas continuam perdendo aulas por causa da menstruação, não se está diante de uma questão privada ou de um desconforto individual.
Trump pune não só o Brasil, mas sua própria
gestão
Por Valor Econômico
Eleições de meio de mandato poderão tornar Trump um presidente com baixos poderes, se os democratas obtiverem maioria na Câmara e no Senado
Enquanto enfrenta um impasse em sua guerra
contra o Irã, já em seu quarto mês, o presidente Donald Trump deu novos passos
em sua guerra comercial contra o mundo. O USTR, escritório encarregado do
comércio exterior americano, sugeriu ontem aplicação de tarifas de 10% e 12,5%
a 59 países e União Europeia (UE), após investigações sobre alegadas
transigências com a importação de produtos feitos com o uso de trabalho
forçado. O Brasil, em um par de dias, corre o risco de ter suas tarifas para
exportar aos EUA majoradas em 25% por práticas injustas de comércio, e mais
12,5%, sugeridas ontem pelo USTR, cumulativas. A argumentação para as novas
punições tem a mesma escassa consistência das anteriores, o que não quer dizer
que não serão aplicadas.
O governo americano prepara a sustentação de
altas barreiras tarifárias, depois que a Suprema Corte considerou ilegais as
supertarifas decretadas em 2 de abril de 2025. O presidente Trump imediatamente
as substituiu por taxação geral de 10% com base na seção 122 da lei de comércio
de 1974, que permite a imposição de gravames em situações de emergência, como
uma crise no balanço de pagamentos. Os EUA não enfrentam uma, mas o presidente
pode decretá-las unilateralmente, por 150 dias, necessitando, porém, do apoio
do Congresso para renová-las. Elas expiram em 24 de julho, e a Casa Branca
busca substitutos, caso o Congresso se recuse a prorrogá-las. Como os pretextos
para o tarifaço de 2025, não há fundamentos para isso na realidade, afora a
percepção de Trump de que a maior economia do mundo foi "explorada e
enganada" por todos os países com os quais tem déficit comercial. O Brasil
é um dos poucos com quem os EUA têm superávit, mas continua sendo punido.
Os arrazoados do USTR sobre trabalho forçado
são superficiais e contraditórios, feitos para confirmar pressupostos a priori
com evidências anedóticas. A alegação principal agora é que os trabalhadores
americanos estão enfrentando concorrência desleal em todo o mundo em virtude do
inaceitável "fracasso dos nossos parceiros comerciais mais importantes em
abordar a importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado". A
lista inclui 86 países tarifados (27 da UE), quase todos aliados dos EUA,
inclusive Israel, companheiro da ofensiva guerreira no Irã.
Houve distinção arbitrária de tarifas.
Canadá, Equador, México, Paquistão, Indonésia e UE receberam 10% de taxação,
porque, embora tenham sido supostamente lenientes, possuem legislação para
coibir a importação de produtos feitos com participação de trabalho forçado. O
Brasil, junto com outros países, foi taxado em 12,5%, apesar de o país ter um
programa reconhecido de combate ao trabalho em condições análogas à escravidão.
O relatório da USTR revela incongruências
patentes. O Brasil é punido por não possuir leis contra a importação de bens frutos
desse trabalho, mas é citado como exemplo de suspeição de seu uso na pecuária,
uma condição que, segundo o documento, teria beneficiado as exportações de
carne do Brasil para o mundo e, em especial, para a China, em detrimento das
vendas do produto americano. A base de comparação numérica é o período de 2015
a 2025, período no qual as vendas brasileiras subiram a 38% para 53% e as dos
EUA caíram de 6% para 2%.
O intervalo de tempo escolhido pela USTR é
suspeito, pois compreende o início da ofensiva protecionista de Trump contra a
China em seu primeiro mandato. A China procurou livrar-se da dependência de um
rival político agressivo, preferindo importar mais do Brasil, hoje o maior
comerciante de carnes para o mundo. Apesar da acusação, as carnes estão entre
os bens isentos de tarifas na lista do USTR.
À semelhança de Trump, os postos chave do
governo estão ocupados por pessoas em estado de negação da realidade. Jamieson
Greer, que comanda o USTR, disse que não havia problemas com elevar tarifas,
porque elas não provocaram inflação, quando é sabido que os índices atingiram
3% em dezembro, longe da meta do Fed, em consequência da taxação generalizada
de Trump. O muro protecionista foi incapaz de reduzir substancialmente o enorme
déficit comercial.
Trump criou dificuldades agudas para o
Brasil, que, se a dose dupla de punição for confirmada, será um dos países mais
taxados do mundo pelos EUA. Mas Trump também criou grandes problemas para si
mesmo. O efeito inflacionário da guerra no Irã tem sido corrosivo na sua
popularidade, e as ações do USTR darão um novo fôlego aos preços dos bens
importados, depois que a primeira onda altista das tarifas já tinha ido embora.
As eleições de meio de mandato poderão torná-lo um presidente com baixos
poderes, se os democratas formarem maioria na Câmara e no Senado.
Como ocorreu com as acusações de práticas comerciais injustas, as de trabalho forçado não deixam muito espaço para manobras brasileiras. Enquanto toca a música eleitoral nacionalista, o Planalto cogita oferecer algumas vantagens tarifárias aos EUA, como forma de amenizar os estragos provocados por decisões de um presidente atrabiliário. É viável chegar a algum acordo por esse caminho, já que, sem razão, a Casa Branca aperta o cerco contra o Brasil.
Freio interno à máquina de guerra
Por Correio Braziliense
O Legislativo dos EUA reafirmou um princípio
elementar: o monopólio do uso da força no cenário externo não pode ser refém de
humores do Executivo, cálculos de curto prazo ou conveniências eleitorais
A Constituição dos Estados Unidos reserva ao
Congresso, e não ao presidente, o poder de declarar guerra. É uma distinção
deliberada, determinada com o peso de quem havia acabado de se livrar de um
monarca. Na prática, porém, esse equilíbrio foi sendo corroído ao longo do
século 20, à medida que o Executivo acumulou prerrogativas militares sob a
justificativa da urgência, e o Legislativo, com frequência, preferiu o silêncio
confortável à responsabilidade incômoda de decidir. Agora, o Congresso decidiu
que esse silêncio tem limite.
A aprovação, pela Câmara dos Representantes
dos Estados Unidos, de uma resolução que limita os poderes bélicos de Donald
Trump contra o Irã não representa apenas uma derrota política para a Casa
Branca. Ao aprovar a medida por 215 votos a 208 e dispensando a necessidade de
sanção presidencial, o Legislativo norte-americano acionou uma trava
diplomática e reafirmou um princípio elementar: o monopólio do uso da força no
cenário externo não pode ser refém de humores do Executivo, cálculos de curto
prazo ou conveniências eleitorais.
O fato de quatro deputados republicanos terem
votado com a oposição democrata confere à decisão uma gravidade que ultrapassa
a polarização habitual de Washington. Esse desprendimento partidário ilustra a
utilidade do sistema de freios e contrapesos, mecanismo desenhado para conter
arroubos unilaterais na democracia americana. Quando o risco de um conflito de
desfecho imprevisível ameaça vidas, altera rotas comerciais e desestabiliza a segurança
global, a lealdade à estabilidade do Estado deve suplantar a fidelidade ao
governante de turno.
Na economia real, as consequências de uma
escalada no conflito com Teerã seriam drásticas. A ação militar no Golfo
Pérsico reflete-se quase de imediato na volatilidade do petróleo, pressionando
os preços dos combustíveis e em toda a cadeia logística, estrangulando
orçamentos familiares e penalizando economias que ainda lutam para equilibrar
contas públicas fragilizadas. A resolução da Câmara age como um freio contra
esse abismo econômico.
A história recente da política externa
americana cobra um preço alto pela omissão parlamentar em episódios
semelhantes. Nas últimas duas décadas, o cheque em branco frequentemente
concedido ao Executivo para atuar sem amarras no Oriente Médio resultou em
intervenções prolongadas, trilhões de dólares escoados e vácuos de poder
sangrentos. As lições do Iraque e do Afeganistão parecem, ainda que
tardiamente, ter ecoado no Capitólio. O texto aprovado ainda depende do Senado,
onde enfrentará resistências consideráveis, mas representa um primeiro passo
pragmático em direção à contenção racional do conflito.
Seria, contudo, uma ingenuidade perigosa terceirizar a garantia da paz mundial às engrenagens internas do Congresso americano. A contenção pontual da máquina de guerra de Washington expõe, por contraste, a letargia das instâncias multilaterais. Se os freios domésticos de uma superpotência provam ser a última fronteira para conter um confronto militar, a construção da paz exige que a ONU e demais fóruns de governança abandonem a posição de espectadores paralisados e recuperem a capacidade de impor limites antes que a força bruta os imponha por conta própria. O mundo, afinal, não pode depender de quatro republicanos dissidentes para evitar uma guerra.
O Dia Mundial do Meio Ambiente
Por O Povo (CE)
A era do aquecimento global chegou ao fim; a
era da ebulição chegou
Com o planeta com 1,3°C acima dos níveis
pré-industriais, os efeitos da crise climática são cada vez mais visíveis e
destrutivos. Incêndios, inundações e secas prolongadas são alguns dos fenômenos
decorrentes do aquecimento global, que também provoca migrações, por tornar
várias regiões inabitáveis.
Esse cenário de urgência marca o Dia Mundial
do Meio Ambiente 2026, quando o assunto receberá destaque nos meios de
comunicação. No entanto, passada a efeméride, o mais provável é que a pauta
somente volte a circular diante da ocorrência de algum desastre relacionado ao
clima.
O tema ainda não faz parte das preocupações
do dia a dia das pessoas, apesar das consequências dramáticas decorrentes da
emergência ambiental. Entretanto, está com as autoridades mundiais a grande
responsabilidade de conter o aumento da temperatura, mas elas não fazem o
suficiente para que isso aconteça. Afora o surgimento de líderes negacionistas,
a exemplo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que incentiva o uso
de combustíveis fósseis.
Assinado em 2015, por cerca de 200 países, o
Acordo de Paris é um importante momento em que as nações se comprometeram com o
propósito de reduzir a emissão de gases que provocam o efeito estufa. Mas,
passados 11 anos, a meta de manter o aquecimento do planeta a níveis inferiores
a 2°C, preferencialmente em 1,5°C, em relação aos níveis pré-industriais, ainda
parece difícil de ser alcançada.
Em entrevista coletiva, em 2023, o
secretário-geral da ONU, António Guterres, fez um apelo urgente: "A era do
aquecimento global chegou ao fim; a era da ebulição chegou. O ar está
irrespirável. O calor é insuportável. E o nível de lucros com combustíveis
fósseis e a inação climática são inaceitáveis. Os líderes precisam liderar.
Chega de hesitação. Chega de desculpas. Chega de esperar que os outros tomem a
iniciativa. Simplesmente não há mais tempo para isso". Mas a situação
pouco mudou desde então.
O Brasil é um dos signatários do Acordo de
Paris, mas as últimas decisões do Congresso Nacional vão contra a necessidade
de preservação do meio ambiente.
No ano passado foi aprovada a Lei Geral do
Licenciamento Ambiental, tachado de PL de Devastação por ambientalistas.
Segundo eles, a nova lei promove o maior retrocesso socioambiental do Brasil em
40 anos, criando regras que facilitam a destruição da natureza.
Em 20 de maio deste ano, a Câmara dos
Deputados aprovou uma lei que veda embargos ambientais tendo como base apenas a
imagem de satélite do local desmatado. O projeto requer notificação prévia
antes da aplicação de qualquer medida cautelar. O Ministério do Meio Ambiente e
entidades ligadas à causa ambiental afirmam que o projeto favorece
desmatamentos ilegais.
É inaceitável o afrouxamento de regras ambientais, quando o esforço deveria ser em sentido contrário. Que o Dia Mundial do Meio Ambiente lembre a todos que temos somente uma Terra, que precisa de nossos cuidados.

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