Por Thiago Prado / O Globo
Entrevista com o sociólogo e escritor, que
aponta a necessidade do presidente melhorar a avaliação para ser reeleito.
O cientista político e sociólogo Alberto Carlos Almeida costuma ser uma voz que a esquerda considera relevante ouvir para tomar decisões. Antes de lançar seus últimos dois livros, foi recebido em Brasília por petistas como o presidente Lula, os ministros da Casa Civil, Rui Costa, e da Secretaria das Relações Institucionais, Gleisi Hoffman, e os senadores Jaques Wagner e Humberto Costa.
“A mão e a luva: o que elege um presidente” enaltece a importância dos resultados econômicos para um governante ser bem avaliado e, consequentemente, se reeleger. “A cabeça do brasileiro, vinte anos depois: o que mudou” lança luz sobre o perfil conservador do eleitor brasileiro. Em entrevista para a newsletter “Jogo Político”, Almeida explica por que considera em risco a reeleição de Lula em outubro mesmo com o petista na liderança das pesquisas.
O caso Master atinge
ministros do Supremo Tribunal Federal, o PT da Bahia, o Centrão e parte da
direita. Na corrida presidencial entre Lula e Flávio Bolsonaro, quem sairá como
o maior prejudicado?
O Lula. O Caso Master atinge
o sistema como um todo e, hoje, quem simboliza tudo isso é o presidente, e não
o Jair Bolsonaro e o seu filho. O escândalo reforça percepções como “todo
político é ladrão, nada muda no Brasil”. As denúncias
no INSS vão pelo mesmo caminho, é tudo ruim para o governo. Agora, ainda não é
possível dizer que corrupção será o grande tema da eleição, teremos que ficar
atentos naquela pergunta típica das pesquisas: “Qual a sua maior preocupação?”.
Esse dado oscila. Em 2005, por exemplo, o mensalão durou como escândalo que
impactou a avaliação do Lula de meados do ano até novembro. Depois, o
presidente passou a recuperar a popularidade, e venceu a eleição.
No fim de fevereiro, o
presidente do PT, Edinho Silva, falou que Flávio Bolsonaro é a “essência do
fascismo”.. É repetindo a estratégia de 2022 contra a direita que o Lula vai
vencer a eleição de outubro?
É bobagem essa estratégia de chamar Flávio
dessas coisas. Venho dizendo e reafirmo: ele é um candidato mais difícil de ser
batido do que o Tarcísio de Freitas (governador de São Paulo). O Tarcísio teria
que ficar fazendo sinais para a direita o tempo todo para se mostrar confiável
e isso teria impacto na rejeição. O Flávio não precisa de nada disso, pode
passar o ano inteiro se vendendo como moderado e sinalizando ao centro desde
já. Lula versus Flávio será uma disputa sobre quem vai ter menos rejeição. Como
estratégia, o melhor para o PT será jogar o Flávio para dentro do sistema
também. Lembrar que ele é político, que é senador, que os aliados dele estão
envolvidos no caso Master, lembrar a rachadinha. É por aí, e não falando de
fascismo.
Mesmo assim, você tem dito
nas redes que o Lula também vai precisar melhorar a própria popularidade para
ganhar a eleição. Por quê?
Neste momento, o Lula é favorito para perder.
Há anos, utilizo o dado de avaliação do governo em ótimo ou bom como régua.
Lula fechou o ano na casa dos 30% neste quesito em várias pesquisas, mas os
últimos levantamentos nas mãos do governo estão indicando o presidente na casa
dos 25% e 26%. Pelo histórico brasileiro de eleições, ele precisa ter mais de
35% de ótimo ou bom se quiser vencer.
Mas o Lula tinha subido nas
pesquisas no segundo semestre do ano passado com o discurso da soberania contra
Donald Trump e a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro. O que está
acontecendo agora para que pareça uma volta ao cenário do primeiro semestre de
um presidente fragilizado?
Esses são fatos isolados, eventos de
cobertura de mídia que, claro, balançaram a popularidade do Lula positivamente.
É parecido com o exemplo do Barack Obama nos EUA. Quando o Osama Bin Laden foi
capturado e morto, em 2011, a popularidade dele subiu nos Estados Unidos.
Depois, caiu de novo. O ponto é que, passados quatro anos, o eleitor brasileiro
continua achando que o governo não o atende, que não está fazendo diferença na
sua vida. Falamos muito de queda da inflação nos últimos meses, mas há um
elemento que talvez tenhamos que prestar mais atenção: a carestia. A verdade é
que as coisas continuam muito caras para a população.
Renato Meirelles, em artigo
no GLOBO essa semana, fala sobre essa tema com a seguinte provocação: “A
inflação recuou nos índices, mas a Dona Maria não consulta o IPCA antes de ir à
feira. Ela lembra que o frango custava metade”...
É isso. As pessoas não
conseguiram aumentar a quantidade de coisas que compram, o salário deixou de
dar conta. A isenção do Imposto de Renda, pelo visto,
não está significando percepção de melhoria de vida das pessoas.
A repercussão ruim do desfile
da Acadêmicos de Niterói com uma ala ironizando a “família em conserva” teve
algum impacto?
Não acredito que uma
ala de escola de samba faça as pessoas mudarem de ideia sobre o que pensam a
respeito de um governo. Isso é uma afronta à
inteligência do eleitor. Lula já é pior avaliado entre os evangélicos desde
sempre, o desfile não alterou esse quadro.
E o que Lula pode fazer
faltando tão pouco tempo para a eleição?
Não vai adiantar só comunicação, não. Para não ficar na
dependência de eventos midiáticos aleatórios, as pessoas vão precisar sentir a
melhoria de via na veia. O que fez o Bolsonaro em
2022? Baixou o preço dos combustíveis com canetadas. Ele estava numa situação
muito pior que a do Lula neste momento e quase ganhou a eleição naquele ano.
O senhor está sugerindo que
só vai restar ao Lula ser populista para vencer?
Sim. Vai precisar gastar mais, baixar os
juros. Não basta falar que é defensor do fim da pauta 6x1 que pode vir a acontecer
um dia. Vai precisar de medidas na área econômica para que a população perceba
efeitos agora. E, de preferência, medidas que não precisem da autorização do
Congresso. Porque pode ser que desta vez deputados e senadores não queiram mais
aprovar nada a favor do governo.
Na sua opinião, Lula 3 está
sendo pior que Lula 1 e 2?
Acho que há duas diferenças cruciais. A
primeira, econômica. O Lula não fez os movimentos dos outros mandatos que é o
de começar contendo gastos e fazendo ajustes para chegar no fim do governo
expandindo. Ele deixou a Presidência em 2010 crescendo 7%. Desta vez, os dois
primeiros anos terão crescimento superior aos dois finais. A segunda coisa é
que ele não pegou um grande partido do centro e transformou em um grande aliado
como foi o MDB lá atrás. Eram outros tempos, claro, mas trazer Geraldo Alckmin
para vice e dar ministérios periféricos para o Centrão foi insuficiente. Acabou
sendo um governo que ampliou pouco e que ficou muito vinculado à esquerda. Não
adiantou ter escondido a Janja um pouco mais nos últimos meses, a cara do Lula
3 ainda continuou sendo essa: a de ser um governo muito petista e bastante
exclusivista.
Várias dessas análises estão
em seus livros e postagens na internet. Afinal, a esquerda gosta de te ouvir,
mas não segue seus conselhos?
Acho que no fundo eles não leem as coisas que
eu escrevo, não. O Lula foge de determinadas discussões até, mas já o PT, nada.
A cartilha que o partido segue é insana. Dizer que pardo é preto? Dizer que a
mulher é dono do seu corpo na questão do aborto? Ser contra privatizações,
sendo que o brasileiro a apoia se o serviço melhorar? É tudo uma loucura na
esquerda.

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