Folha de S. Paulo
Mente-se na religião, no direito, na política
e na economia, e quanto maior a mentira, maior a sedução
Limite é atingido quando se democratiza o
grande absurdo na fantasmagoria do cotidiano
"Eu não acredito em fantasmas, não porque sejam invisíveis, mas porque são visíveis demais." Embora esta frase atribuída a Nietzsche não se encontre em nenhum de seus escritos, é bastante coerente com seu pensamento, em que realidade é terra e corpo. Outro tipo de "fantasma" foi abordado por Roland Barthes numa das críticas das mitologias pequeno-burguesas, em meados do século passado. Dessa vez eram os óvnis, também visíveis demais, porque nos relatos eram imaginados como duplos dos humanos. Se existissem, ironizava ele, deveriam ter um Estado, classe dirigente, forças armadas, um papa e as heresias.
Semanas atrás, Obama e Trump enrolaram-se com
esse assunto. Obama declarou em
entrevista que extraterrestres são reais, embora não tenha visto
nenhum. Causou comoção, pois é óbvio que em dois mandatos presidenciais teve
acesso a informações sigilosas. Dias depois, desmentiu-se. Trump, ávido por
abafar o vazamento dos arquivos de Epstein (a ponto de precipitar uma guerra desastrosa),
valeu-se da deixa para prometer a
verdade sobre os aliens. Ordenaria a quem de invisível que abrisse o
bico ao público, e não se falou mais nisso. Uma mentira atrás da outra.
O nó da questão está hoje amarrado no
digitalismo. De celular na mão, são bilhões de olhos vigilantes. Na internet,
terra onde a ficção ganha vida, são diários imagens e relatos ambíguos de
contatos com as falanges desses supostos "fantasmas", que Carl Jung via
como um mito do inconsciente coletivo (em "Um Mito Moderno de Coisas
Vistas no Céu", 1958). Seria uma busca por totalidade ou uma maneira de
preencher no imaginário, ao modo das civilizações ancestrais, o espaço
contemporâneo, descrito pelo pensamento moderno como vazio e neutro. Pois
"a alma não conhece sem fantasia" (Aristóteles, "Sobre a Alma").
Razão não faltava ao monstro que disse ser
verdadeira uma mentira mil vezes repetida. Ou que se repete porque tem um fundo
de verdade. A práxis racional da modernidade não é uma tranquila linha reta,
opera por movimentos complexos e, às vezes, contraditórios. Há muita coisa
absurda em que não se pode sequer pensar, porque não se pode fazer a
experiência. Outras são objeto de crença. Deus, indetectável por estar além da
razão, levou o teólogo Tertuliano (século 3) a decretar: "Creio porque é
absurdo". Vive-se ainda hoje sob esse império, conviver com a verdade 24
horas por dia seria talvez insuportável. Mente-se na religião, no direito, na
política e na economia. Maior a mentira, maior a sedução.
Quando então a mentira é denunciada como
nociva? Quando ela democratiza o grande absurdo na fantasmagoria do cotidiano:
aparições, milagres, curas espirituais, óvnis. Perturbativa, a internet mescla
atordoamento com paranoia, mas provoca questões: há zonas de sombra entre o céu
e a terra. Por que Obama acorreu tão célere a desmentir a mentira? Por que
Trump deixou escapar que a mentira tem verdade? Covardia ou fantasmas de razão
não identificados? Só nos resta cantar um tango argentino: "É tudo
mentira..." ("Yira, Yira", de Carlos Gardel).

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