Novo chefe da articulação política, Guimarães defende subvenção à gasolina e revisão da ‘taxa das blusinhas’, Alckmin diverge
Por Sofia Aguiar e Mariana Andrade /
Valor Econômico
Os pacotes em elaboração pelo governo Luiz
Inácio Lula da Silva para tentar reverter a queda de popularidade da gestão
federal têm sido marcados por divergências entre integrantes da Esplanada. A
possível revogação da chamada “taxa das blusinhas”, como é popularmente
conhecida a sobretaxa de importações abaixo de US$ 50 no Brasil, e propostas
para mitigar os efeitos do conflito no Oriente Médio são exemplos de propostas
que ainda não têm consenso na gestão.
Na quinta-feira (16), o recém-empossado
ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, disse que as medidas
anunciadas até agora pelo governo para reduzir o impacto da guerra no Irã nos
combustíveis são “insuficientes”. Por conta disso, segundo ele, o Executivo
deve anunciar novas ações “logo, logo”.
Dentre as medidas, ele citou a possibilidade
de se oferecer subvenção à gasolina, como já foi aplicado a óleo diesel e gás
de cozinha. Mais tarde, no entanto, o presidente em exercício, Geraldo Alckmin,
negou tal estudo.
“Neste momento, [o governo] não [estuda subvenção para a gasolina]. Até porque a Petrobras não aumentou o [preço] gasolina, não teve nenhum reajuste”, comentou Alckmin.
Os efeitos que a guerra pode ter no Brasil
são vistos com preocupação pelo governo, que teme que isso possa impactar
negativamente a campanha de reeleição de Lula. Para isso, a gestão anunciou
pacotes na tentativa de contornar o impacto ao consumidor final, mas ainda há
novos anúncios a serem feitos.
“Já tomamos algumas [medidas] muito
corajosas, mas são insuficientes para dar conta do tamanho do estrago que essa
guerra está fazendo”, disse Guimarães durante café com jornalistas no Palácio
do Planalto. Ele apontou que os ministros da Fazenda, Dario Durigan, do
Planejamento, Bruno Moretti, e da Casa Civil, Miriam Belchior, estão “cientes”
da situação e buscam novas alternativas.
“Nós não podemos aceitar isso [impacto do
conflito no Brasil], porque o problema da guerra é que ela atinge todo mundo,
não é um problema do governo”, disse. “A guerra está destroçando a economia dos
países. E vai ter que tomar outras medidas.”
Guimarães disse que o governo trabalha com a
hipótese de a guerra durar dois meses. “E as medidas são nesse sentido”,
comentou. “Eu acho que nós vamos superar isso. Infelizmente, com uma guerra que
nós não temos nada a ver com ela, apenas estamos pagando caro.”
Guimarães diz que, se necessário, país deve
se endividar mais para salvar economia popular
Uma outra linha de frente que o governo
debate de olho na popularidade é em torno da manutenção da “taxa das
blusinhas”, que também está dividindo o Palácio do Planalto. Ciente do impacto
eleitoral, o novo ministro das Relações Institucionais defendeu a revogação das
medidas.
Ele considerou, por exemplo, que a aprovação
da matéria no Congresso foi um dos elementos “mais fortes de desgaste do
governo”. “Se o governo decidir revogar, eu acho uma boa. É a minha opinião,
quando eu for consultado”, disse. A taxa foi criada em 2024 como para evitar a
assimetria na competição entre produtos nacionais e importados.
Guimarães fez um paralelo com o projeto de
lei (PL) do governo que pretende regulamentar o trabalho por aplicativos. Nesta
semana, o Planalto desistiu de apoiar a votação da matéria no Congresso este
ano por falta de consenso entre a própria classe trabalhadora e a gestão
federal.
“É a mesma coisa dos aplicativos agora. Sabe
por que não deixamos votar? Porque a conta vinha toda para o governo. Por isso
não deixamos votar”, explicou.
Horas depois da declaração do novo ministro,
Alckmin defendeu a continuidade da “taxa das blusinhas”. Em sua visão, ela
continua necessária por estimular a produção nacional e estimular o emprego.
Mesmo que a revogação não tenha sido definida
pelo governo, Lula afirmou na terça-feira (14), sem detalhar, que o Executivo
deverá anunciar medidas para mitigar a alta de preços observada desde a entrada
em vigor da nova taxação.
“Eu achava desnecessário o aumento [da taxa]
das blusinhas. São compras muito pequenas”, disse o presidente.
As divergências em torno das medidas
acontecem enquanto o governo faz uma “força-tarefa” sobre como contornar a
queda de popularidade do chefe do Executivo. Pesquisa Genial/Quaest divulgada
na quarta-feira (15) mostrou que, no segundo turno, o senador Flávio Bolsonaro
(PL-RJ) passou Lula pela primeira vez e está à frente numericamente, com 42%,
ante 40% do presidente - situação que configura empate técnico.
Por conta do cenário considerado delicado,
nesta semana, o governo enviou um projeto de lei (PL) que prevê o fim da escala
6x1, considerada uma das principais apostas da gestão para a reeleição de Lula.
A medida, no entanto, preocupa empresas que veem risco de freio na atividade
econômica.
Sobre a matéria, Guimarães admitiu a
possibilidade de o governo discutir uma transição, mas defendeu que não tenha
desoneração para compensar o impacto da medida.
Guimarães defendeu que, caso seja preciso
aumentar o endividamento do país para salvar a economia popular, a gestão
federal deve fazê-lo. Apesar disso, afirmou que o governo seguirá o caminho da
responsabilidade fiscal e social. A trajetória da dívida pública tem sido
acompanhada com preocupação por analistas.
Guimarães confirmou que o governo deve
apresentar “logo, logo” um conjunto de medidas para conter o aumento do
endividamento das famílias. Dentre as ações, há uma focada no debate em torno
das casas de apostas on-line, as chamadas bets.
Ele classificou as bets como “um dos piores
males da República” e defendeu impor uma tributação sobre as casas de apostas.
Na percepção do ministro, “a turma” do Congresso estaria disposta a
regulamentar o setor, apesar da forte pressão que representantes do segmento
fazem nas duas Casas.

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