Folha de S. Paulo
Ex-presidente de banco do DF negociava
propina como quem fala de linguiça no churrasco
Governadora do DF ainda quer ajuda federal para tapar buraco criminoso do banco
A governadora do Distrito
Federal, Celina Leão (PP) ainda quer que o governo de Luiz Inácio Lula da
Silva arrume dinheiro para tapar o rombo da roubança do BRB, o banco
estatal de Brasília.
Como o banco não tem publicado balanços, não se sabe o tamanho do buraco —o
Banco Central sabe. Se não interveio na coisa ou não liquidou o banco, deve
imaginar que o buraco ainda possa ser coberto.
Leão diz que arrumou dinheiro de uma gestora de fundos, uma solução que parece espantosamente criativa, ao menos pelo pouco que se sabe dela, mas não o quanto realista ou suficiente, para dizer o menos. Não deve bastar, pois o banco adia sine die o balanço e pede dinheiro a Lula. Seria um escândalo que recebesse, ainda mais agora que se sabe mais sobre o propinaço do BRB. O governo Lula tem dito nas internas e em público que não vai fazer parte da operação tapa-buraco, nem por meio de bancos federais.
O BRB era dirigido por pelo menos um
corrupto. Fazia um negócio temerário, mesmo para quem não entendesse nada de
banco, como pode alegar o governo do Distrito Federal, na
época do rolo comandado por Ibaneis Rocha (MDB).
Não entendendo, que perguntasse na praça a
quem entendesse. Que contratasse consultoria externa, como se fez, depois do
leite podre derramado, depois que o Banco Central, a Polícia Federal e o
público souberam da nojeira. Logo, o problema é do governo do Distrito Federal.
Se quer ter um banco estatal, sempre uma temeridade, que saiba cuidar dele, que
saiba manter o balanço em ordem ou pague a conta de erros ou imundícies. De
outro modo, fim. Se por mais não fosse, cobrir perdas, ainda mais de
bandidagem, é um incentivo para pilhagem futura, estatal ou privada. Chega.
Importante agora é pegar a bandidagem toda. A
PF diz que Paulo Henrique Costa, o presidente do BRB no rolo, levou
ou levaria umas dezenas de MILHÕES de reais. Daniel
Vorcaro alugou oficialmente, com declaração, um lobby de alta gente da
República, por algumas centenas de milhões de reais. Mas o mestre do Master
sumiu com dezenas de BILHÕES de reais. Quem mais levou?
A PF mostrou que Costa negociava propina com
Vorcaro, chefe da máfia que tinha um banco, o Master. Parte
da mumunha estava nas mensagens de celular trocadas pelos amigões, que se
falavam como quem trata da conta da linguiça do churrascão.
Segundo
a PF, Vorcaro daria a Costa cerca de R$ 146 milhões em imóveis. O
pagamento era pelo serviço de esconder a carcaça cadavérica do Master.
Engolindo a massa podre, o BRB em tese pagaria os empréstimos que Vorcaro tomou
na praça (como CDBs) e nos quais daria (deu) calote, dando sumiço em dezenas de
bilhões. Sabe-se que os dinheiros
transitaram pelos fundos Reag, a administradora e gestora de fundos de
vários tipos de criminosos. Além do mais, o BRB comprava terrenos na Lua,
empréstimos que não existiam. O banco era um pretexto para um esquema de
pirataria e gangsterismo.
A coisa era tão explícita que é razoável
esperar, até no Brasil, um tempo longo de cadeia para Costa. Em decorrência, é
também razoável especular que Costa vá delatar. Vorcaro e Costa podem cair em
um jogo de quem dá mais na delação, quem entrega mais cabeças. Pelas regras
oficiais, é difícil fazer "acareação" de delações premiadas. Mas
Vorcaro e Costa vão ter de correr e tomar mais cuidado com o que dizem.
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