terça-feira, 14 de julho de 2015

Luiz Carlos Azedo - Tudo a declarar

- Correio Braziliense

• Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo está no pelourinho por causa da Operação Lava-Jato, da Polícia Federal, que investiga a corrupção na Petrobras

Armando Falcão foi um deputado federal do Ceará que nunca fez a urna roncar, mas sempre foi bom articulador político. Foi um dos artífices das candidaturas de Juscelino Kubitschek e do general Henrique Teixeira Lott (PSD-PTB), derrotado por Jânio Quadros.

Manteve-se na oposição, porém, quando o presidente renunciou e João Goulart, o vice, assumiu a Presidência. Foi um dos conspiradores civis do golpe de 1964; por isso mesmo, quando foi instaurado o bipartidarismo, em 1966, filiou-se à Aliança Renovadora Nacional (Arena). Ruim de voto, não conseguiu se eleger em 1966.

Amargava o ostracismo político quando foi convidado para ser o ministro da Justiça. Foi o mais linha-dura dos ministros civis do governo Geisel. Elaborou o projeto de lei da fusão dos estados da Guanabara e do Rio de Janeiro. Fez a reforma do Poder Judiciário, que incluía os novos Código Civil, de Processo Penal e a Lei das Contravenções Penais, mas sua maior criação foi o “Pacote de Abril”, que estabeleceu a eleição indireta para 1/3 dos senadores, os “biônicos”.

O pacote estabeleceu eleições indiretas para governador, com ampliação do Colégio Eleitoral; instituição de sublegendas, em número de três, na eleição direta dos senadores, para evitar a implosão da Arena, em declínio eleitoral desde 1974; ampliação das bancadas que representavam os estados menos desenvolvidos, nos quais a Arena costumava obter bons resultados eleitorais; extensão às eleições estaduais e federais da Lei Falcão, que restringia a propaganda eleitoral no rádio e na televisão e fora criada para garantir a vitória governista nas eleições municipais de 1976; alteração do quorum — de 2/3 para maioria simples — para a votação de emendas constitucionais pelo Congresso; e ampliação do mandato presidencial de cinco para seis anos.

A partir desse episódio, Armando Falcão deixou de falar com a imprensa. Toda vez que era abordado pelos repórteres, dizia: “Nada a declarar!” No apagar das luzes do governo Geisel, em novembro de 1978, porém, sancionou uma nova Lei de Segurança Nacional, que pôs fim às penas de morte, à prisão perpétua e ao banimento, reduziu a incomunicabilidade de dez para oito dias e restabeleceu o habeas-corpus. Foi o começo da abertura política, de fato.

No pelourinho
A memória de Armando Falcão serve para ilustrar a grande diferença entre o que acontece num regime autoritário e o ambiente democrático em que vivemos. O presidente da CPI da Petrobras, deputado Hugo Motta (PMDB-PB), marcou para quarta-feira o depoimento do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Sua convocação foi aprovada na semana passada pela comissão, num acordo entre governistas e oposicionistas.

Cardozo está no pelourinho por causa da Operação Lava-Jato, da Polícia Federal, que investiga a corrupção na Petrobras. É pressionado por petistas, por supostamente ter perdido o controle das investigações. Querem que interfira nos trabalhos dos delegados e procuradores encarregados do caso para proteger os políticos envolvidos e blindar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que nunca morreu de amores pelo ministro e gostaria de vê-lo fora da pasta.

Nem por isso Cardozo conta com o apoio da oposição, que o acusa de tentar interferir junto ao Ministério Público e ao Supremo Tribunal Federal para salvar da falência as empreiteiras envolvidas no escândalo da Petrobras e manter a presidente Dilma Rousseff longe de qualquer investigação.

Essas suspeitas recrudesceram depois que o ministro da Justiça foi procurado pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, para que intermediasse um encontro entre ele e a presidente Dilma Rousseff em Portugal. Cardozo e o presidente do STF estavam naquele país para participar de encontro com juristas.

O encontro não constou da agenda do ministro, nem da presidencial, mas aconteceu durante a escala da viagem de Dilma à Rússia. Oficialmente, tratou do aumento dos servidores do Judiciário, mas a oposição suspeita que a Operação Lava Jato também fora objeto de conversa.

Nos tempos do regime militar, uma situação como essa de Cardozo era inimaginável. Em nota oficial, o ministro da Justiça aceitou a convocação pela CPI não como uma ameaça, mas como dever: “Se puder colaborar de alguma forma para a elucidação dos fatos, eu o farei. Comparecer ao parlamento é sempre uma honra para mim”, afirmou em nota.

O pretexto para a convocação é a denúncia feita por dois agentes federais de que teria havido escuta ilegal da Polícia Federal na cela na qual está preso o doleiro Alberto Yousseff, em Curitiba, no Paraná.

A denúncia é um dos pretextos dos advogados dos réus que pretendem anular a Operação Lava-Jato, sob o argumento de que estaria havendo abuso de autoridade por parte dos delegados, dos procuradores e até mesmo do juiz federal Sérgio Moro, que julga o caso.

Marta Arretche - Soluções fáceis à procura de problemas difíceis

Valor Econômico

• Impeachment virou o remédio para todos os males

Por quais caminhos uma sociedade se protege dos males da corrupção, da exclusão social e da instabilidade institucional? Variantes modernas do determinismo geográfico, à la Montesquieu, diriam que há uma fronteira para este destino. Nos países quentes, sob a influência do clima, o vício predominaria sobre a virtude no espírito dos homens. Assim sendo, é razoável admitir que a decisão de votar com os pés, migrando para países cujas instituições tenham sido forjadas pela neve, seja uma solução racional à constatação de perceber-se condenado ao trágico destino do mau governo.

O conhecimento acumulado sobre a história das instituições mostra, contudo, que o sucesso deste tipo de explicação se deve principalmente ao fato de atribuir causas simples a problemas complexos. Na trajetória dos países, o enfrentamento destes males está associado a uma combinação de instituições e políticas. Deslocamentos incrementais, avanços e recuos, políticas de longo prazo, a violenta reação de interesses afetados melhor descrevem as trajetórias bem-sucedidas do que a mágica da evolução linear produzida por qualquer fator isolado. Acemoglu e Robinson, em "Why Nations Fail", prognosticam ainda maior incerteza: esta eventual transição seria contingente, o que quer dizer que nenhuma condição seria suficiente para que venha a acontecer.

Na história recente do Brasil, ainda há boas razões para concluir que o impeachment de Collor e posse de Lula tenham sido os últimos testes à consolidação da democracia. A estabilidade institucional e a competição política criaram condições favoráveis para a adoção e continuidade de políticas orientadas a permitir a inclusão social e o controle dos cidadãos sobre os governos. Muitas dimensões relevantes das desigualdades foram de fato reduzidas, o que demonstra que não há determinismo geográfico que impeça que questões sociais sejam paulatinamente enfrentadas. Por outro lado, é desnecessário ocupar este espaço tão limitado para desfiar a longa série de problemas sociais que estão na fila de espera de soluções governamentais, contemporaneamente agravados pelo medo da inflação e das consequências do ajuste fiscal. O mesmo pode ser dito com relação ao controle dos cidadãos sobre os governos. A sucessão de escândalos de corrupção não é explicada pelo agravamento do problema, mas, sim, pelo aumento da eficiência na investigação e nos recursos de que dispõem os órgãos de controle.

A imensa - e aparentemente insuperável - sensação de desconforto provocada pela parte vazia do copo gera oportunidades para que soluções - fáceis apenas na aparência - sejam colocadas na agenda. Sua aceitação não requer consistência entre causas identificadas e efeitos esperados. Um clássico da ciência política - "Agendas, Alternatives, and Public Policies", de John Kingdom mostra que, na formação da agenda, não existem problemas em busca de soluções, mas soluções à procura de problemas! "Empresários" de soluções articulam causas de problemas à solução que advogam. A oportunidade se abre quando, ao prévio trabalho de persuasão, se agregam eventos políticos que requerem respostas imediatas. Passado este momento, as atenções da mídia se voltam para novos temas e o desenho concreto das soluções passa para as mãos dos operadores.

Esta operação de simplificação já creditou à reforma política o condão de nos conduzir ao paraíso, simplificação esta que vem sendo exposta pela discutível condução de sua tramitação na Câmara dos Deputados. Em Dilma II, o processo de impeachment entrou para o rol destas soluções aparentemente fáceis. Mais uma vez, trata-se de uma solução à procura de evidências. A solução é uma constante. As razões para um impeachment, por sua vez, se alternam à medida que novas oportunidades vão se apresentando.

A versão "junho/julho de 2015" desta solução tem, contudo, escassa possibilidade de vir a ser aprovada pelo Congresso. É um equívoco afirmar que se trata de um golpe. Sua aprovação requer uma tramitação segundo a qual uma maioria de 342 deputados para a abertura do processo mais uma maioria de 54 senadores seriam necessárias. Não tem, portanto, chances de ser aprovada sem o apoio do PSDB e do PMDB. Dificilmente mobilizará o apoio maciço destes partidos, contudo, porque apenas um dos potenciais candidatos do PSDB à Presidência seria beneficiado pela antecipação das eleições. Os cálculos eleitorais dos demais candidatos do PSDB dependem da manutenção da presidente Dilma no cargo. O PMDB está, como de hábito, publicamente dividido. É muito pouco provável, portanto, que esta maioria venha a ser construída no curto prazo, dados os distintos cálculos eleitorais de atores-chave para o sucesso da empreitada.

O fato, contudo, é que uma parte do eleitorado não apenas quer o afastamento da presidente, mas revelou-se disposto a sair às ruas para vocalizar esta preferência. Em parte por baixa adesão aos valores democráticos, em parte por acreditar que soluções fáceis podem resolver problemas complexos, em parte porque a própria presidente e seu partido não se ajudam, o fato é que parte da opinião pública credita à imediata troca de comando da Presidência o condão de produzir imediato controle da inflação, aumento do gasto público, eliminação da corrupção no curto prazo... e por aí vai.

Não é, portanto, na arena parlamentar que jogam os empresários do impeachment. Muito menos na expectativa de que um encurtamento do atual mandato presidencial resulte em alternativas à atual política macroeconômica ou à condução das investigações de corrupção. Nestas frentes, à esta altura, a margem de manobra é muito pequena. Logo, a solução impeachment permanece como um jogo na arena eleitoral, cada vez menos como terceiro turno e cada vez mais como estratégia para preservar as conexões com esta parcela do eleitorado. Se assim é, o risco no curto prazo não é de estabilidade institucional, mas de encontrar meios para atender àquela lista de espera.

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Marta Arretche é professora titular do Departamento de Ciência Política na USP, diretora do Centro de Estudos da Metrópole

José Casado - Aposta de alto risco

- O Globo

Numa recente reunião com empresários, o senador Aécio Neves surpreendeu pelo tom enfático no cenário de um impeachment de Dilma Rousseff. Nem todos o levaram a sério.

Repetiu o roteiro, abandonando a ênfase, na recente convenção do PSDB: "Esse grupo político que aí está, está caminhando a passos largos para a interrupção deste mandato."

Aécio e seu grupo apresentaram uma dezena de petições ao Tribunal Superior Eleitoral. A velocidade na escrita de algumas talvez possa justificar os delitos cometidos contra o idioma e a grafia (Rousseff virou "Roussef", por exemplo). O objetivo expresso é "cassar os registros ou diplomas" da presidente e do vice.

A maioria tem média de 50 páginas e 4.000 palavras, e é suficientemente difusa na sugestão de indícios de abuso de poder na campanha.

Em nenhuma, no entanto, é possível identificar algo similar ao "Fiat Elba" de Fernando Collor, o carro de uso pessoal do então presidente comprado com dinheiro vindo de contas fantasmas gerenciadas pelo seu tesoureiro de campanha, PC Farias (o cheque do pagamento exibido no GLOBO pelo repórter Jorge Moreno foi decisivo para o afastamento de Collor).

A ofensiva judicial do PSDB de Aécio começou com acusação de fraude na contagem eletrônica dos votos. O tribunal descartou-a por descabida e sem provas. Sucederam-se iniciativas para cassação dos adversários sob variadas suspeitas.

Na ação número 194.358 justificou-se: "A diferença entre as duas chapas (Aécio e Dilma) em disputa no segundo turno foi de apenas 2,28%, num universo de 105.542.273 votos válidos. Ora, somados os votos em branco e nulos (1,71% e 4,63% do total de 112.683.273 de votos apurados, respectivamente), tem-se que a legitimidade dos reeleitos é extremamente tênue."

Quer dizer exatamente o que parece: Dilma venceu porque teve 2,28% de votos a mais que Aécio, mas diante da diferença raquítica, o PSDB de Aécio acha a legalidade da reeleição (e do governo) uma coisa "extremamente tênue".

Na essência, é a reivindicação do mais fácil - a morte política do adversário vencedor - pelo caminho do menor esforço: chancela judicial para a névoa de suspeitas de abusos na disputa eleitoral mais acirrada em 25 anos.

Em 2014, o candidato Aécio realizou a proeza de confirmar o fim de uma fantasia política, a suposta hegemonia do PT sobre o voto dos pobres. Um de cada três dos seus eleitores tinha renda familiar de até R$ 1.448, segundo o Datafolha. Entre esses, 21% sobreviviam com até R$ 2.172. Faltaram-lhe votos, principalmente na sua Minas Gerais, mas ele conduziu a oposição unida, revigorando-a com os 48,5% da preferência do eleitorado.

Passaram-se oito meses. O ex-candidato procura se manter na boca de cena da política travestido como arauto do impeachment. Essa pregação cotidiana, assentada numa peculiar interpretação da realidade na qual "a história sou eu", levou a uma nova divisão do PSDB. O partido continua sem saber o que dizer ao eleitorado recém-conquistado, e que empobrece ainda mais na crise.

As cartas sobre o futuro de Dilma e Temer dependem de sete ministros do TSE e 11 do Supremo, combinados com dois terços do Congresso - no compasso do ronco das ruas, hoje silentes. O senador Aécio fez uma aposta de alto risco. Pode sair menor do que entrou nesse jogo.

José Paulo Kupfer - Alguém tem de ceder

- O Estado de S. Paulo

Credibilidade, nos dicionários, é a qualidade de quem ou do que é crível, em resumo, confiável. O Banco Central, no entender do mercado financeiro, para ser crível e, portanto, dispor de credibilidade, deve fazer aquilo que o mercado considera que deve ser feito. Historicamente, o que deve ser feito, segundo o mercado, para que o BC conquiste credibilidade, tem sido elevar as taxas de juros. Só que, agora, parece que não.

Acusado, nos últimos anos, de leniente com as manhas da inflação - e, em consequência, de ter perdido a “credibilidade" -, o BC aproveitou o embalo do clima de ajustes instalado no segundo governo da presidente Dilma Rousseff para mudar o rumo da política monetária e se dedicar a trazer a variação do IPCA para centro da meta o mais rápido possível. Tem promovido, assim, elevações fortes na taxa básica de juros, em linha com a sabedoria convencional do mercado.

Todas as indicações, inclusive as projeções do Boletim Focus, são de que o BC vai estender o mais longo ciclo de alta de juros desde a introdução, em 1999, do regime de metas de inflação, até pelo menos 30 meses, levando a taxa Selic a 14,5% ao ano antes de iniciar um período de redução gradual da taxa. Muitos continuam a insistir que esse seria o preço a pagar para recuperar a credibilidade perdida.

É possível detectar, porém, sinais de incômodo, mesmo entre analistas de bancos e consultores de mercado, com a nova estratégia do BC. Pode-se garantir que levantar dúvidas em relação à “obsessão” do BC com o centro da meta, neste momento, não é mais exercício de algum analista isolado. O conjunto de argumentos expostos no artigo de Luís Eduardo Assis, ex-diretor do BC e experiente gestor de fundos de investimentos, publicado nesta segunda-feira noEstado, resume o que se começa a comentar não tão mais à boca pequena (http://bit.ly/1Lct2V7). “A adoção de uma política estrita de meta de inflação que releva o fato de que a economia brasileira passa por um ajuste de preços represados conduz a um exercício de autoflagelação, ainda mais no contexto de uma política fiscal contracionista”, escreve Assis.

São conhecidos os riscos impostos pela atual política monetária contracionista à estabilidade da relação dívida/PIB, o indicador chave para assegurar a crucial classificação de “grau de investimento” para os títulos brasileiros pelas agências de rating, ao produzir expansão da dívida, de um lado, e contração do PIB, de outro. Conhecidos são também os efeitos negativos de um aperto exagerado nos juros, em ambiente fiscal contido, para o reequilíbrio das contas públicas, na medida em que reforça as tendências recessivas da economia e, em consequência, reduz as receitas públicas recorrentes.

Quando os fatores de contração fiscal e monetária se combinam em ambiente político instável e de fraco apoio a um governo de baixa popularidade, forma-se, como diz um dos mais respeitados economistas de bancos, uma “trindade impossível”. Em seus cálculos, para levar o IPCA ao centro em 2016, a taxa básica de juros deveria se elevar a 16% ao ano, acarretando uma retração da economia de 2% não só em 2015, mas também em 2016. A conclusão é a de que, para que o esforço de reequilíbrio da economia se faça com a maior eficiência possível ao menor custo idem, pelo menos um dos lados desse triângulo deve ceder.

A novidade é que, para crescente número de analistas de mercado, o lado escolhido para ceder deveria ser o monetário. O raciocínio que ganha espaço é o de que, dada a prioridade que deveria ser conferida ao ajuste fiscal - o que, no momento, significa redobrar esforços para reduzir ao mínimo a meta de superávit primário - e a impossibilidade de reverter em prazo curto a falta de apoio ao governo, moderar altas nos juros seria preferível a insistir na contração generalizada. Ainda que essa escolha adie por alguns meses a convergência da inflação para o centro da meta.

Yoshiaki Nakano - A aritmética monetarista desagradável

Valor Econômico

• Os ajustes fiscais bem sucedidos, para gerar trajetória declinante de divida pública devem ser muito fortes e rápidos

No mês passado abordei a atual combinação infeliz de políticas monetária e fiscal. Uma política macroeconômica consistente que garanta não só a estabilidade, mas que crie um ambiente favorável ao crescimento é a questão central que o Brasil vem enfrentando nos anos recentes. Assim volto ao tema inspirado num texto clássico de Sargent & Wallace (Some Unpleasant Monetarist Aritthmetic, Federal Reserve Bank of Minneapolis Quarterly Review, Fall, 1981)

O cerne da grave crise de confiança que estamos vivendo na economia brasileira, que se traduz na baixa taxa de investimento e amortecimento do impulso inovador do empresariado brasileiro, tem origem no ambiente macroeconômico inconsistente. Esse ambiente é contrário ao crescimento econômico e, portanto, sem credibilidade, que se impôs sobre a economia brasileira nos anos recentes.

As inconsistências da política macroeconômica podem ter diversas causas. Sargent e Wallace (1981) focam no problema de coordenação entre a política monetária e fiscal. Aqui a política monetária pode dominar a fiscal ou o contrário. Se a política monetária domina a fiscal, o banco central fixa independentemente a expansão monetária ou, no nosso caso, a taxa de juros. Fazendo isto, o banco central determina a receita de senhoriagem que suprirá ao Tesouro Nacional. Assim, a autoridade fiscal terá que enfrentar a restrição imposta pela demanda de títulos do governo.

No nosso caso, os déficits crescentes (deficit nominal de 7,9% do PIB nos últimos doze meses até maio 2015 e taxa real de juros maior que o crescimento do PIB), gerou uma trajetória de dívida pública em relação PIB crescente, o que desencadeou crise de confiança e risco iminente de perda do "grau de investimento". Isso obrigou a autoridade fiscal a estabelecer, independentemente, metas de superávit primário nos próximos anos para tentar reverter a trajetória da dívida pública. Fazendo isto, definiu quanto seria necessário ser financiado com emissão de títulos e de moeda.

Desde dezembro de 2011 parcela crescente da dívida pública mobiliária federal vem sendo financiada no "overnight" e com taxas de juros crescentes, numa indicação de que o mercado convencionou que a dívida pública, no atual regime fiscal, estava se aproximando do seu limite superior. Portanto, o executivo teve que apresentar um plano de ajuste fiscal para reverter a trajetória de crescimento da dívida pública/PIB, de outra forma, ela poderia atingir seu limite superior. Neste quadro, a política fiscal domina a monetária. E esta já vem enfrentando a restrição imposta pela demanda de títulos do governo, obrigando a financiar o déficit com emissão de moeda, no nosso caso no "overnight", como vem acontecendo, e neste caso teria que tolerar a inflação alta.

Infelizmente a inconsistência surge se o banco central impõe independentemente, neste quadro de dominância fiscal, uma política monetária restritiva para controlar a inflação. Esta pode ceder no curto prazo, mas dada a inconsistência, não controla as expectativas e, no longo prazo, tende a acelerar a inflação. Ao elevar a taxa de juros para tentar controlar a inflação, eleva o custo da dívida pública, aumentando a necessidade de ampliar o ajuste fiscal. É por isso que os ajustes fiscais bem sucedidos, para gerarem trajetória declinante de divida pública devem ser muito fortes e rápidos, para terem credibilidade.

Sem gerar um superávit fiscal de pelo menos 3% do PIB, como a taxa real de juros é maior que o crescimento da economia, o estoque de dívida deverá continuar crescendo em relação ao PIB. Se a tentativa de ajuste for gradual, a política de juros (e custo do swap cambial) deverá anular o esforço fiscal e a dívida continuará crescendo. Como esta já está aproximando do seu limite superior, o principal e juros terão, cada vez mais, que ser financiados com expansão monetária, no nosso caso no "overnight". É exatamente a forma que o regime de alta inflação ou hiperinflação toma numa economia como a brasileira, em que o banco central ainda emite moeda indexada à taxa diária de juros (Selic) obrigando todo o sistema financeiro a operar com ativos indexados à taxa diária de juros Selic/DI.

Vale observar para concluir que para sairmos da atual crise é preciso muito mais do que um ajuste fiscal. É preciso repensar toda a política macroeconômica para torná-la consistente e capaz não só de gerar estabilidade, como formar um ambiente macroeconômico indutor do crescimento. A tarefa é enorme, pois envolve reformas institucionais, compromissos fiscais e ampliação do horizonte temporal. O ponto de partida é simples e devemos iniciar eliminando as chamadas "jabuticabas" tais como, a utilização da taxa de juros Selic pelo banco central para fazer política monetária.
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Yoshiaki Nakano, com mestrado e doutorado na Cornell University, é professor e diretor da Escola de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV/EESP)

Míriam Leitão - Alívio e dúvida

- O Globo

A primeira sensação foi de alívio com o acordo da Grécia após a reunião-maratona na Europa. Depois, veio a dúvida se o preço da Grécia ficou alto demais e, portanto, se o acordo é sustentável. O primeiro-ministro, Alexis Tsipras, enfrenta resistência em casa por ter aceitado o que rejeitara, mas a chanceler Angela Merkel também teve que ceder da proposta feita, de expulsão temporária.

A proposta da Alemanha era muito ruim. A saída da Grécia por cinco anos da zona do euro não tinha amparo no tratado do bloco e teria efeitos previsíveis: todos perderiam. Os credores enfrentariam o calote. Por que e como pagar ao clube do qual você foi expulso? Na Grécia, haveria uma devastação econômica, se fosse reintroduzida uma moeda fraca e temporária como a dracma. O mistério é como a Alemanha, que viveu todas as consequências de um processo de rejeição da moeda, pode ter tido ideia tão desatinada. A Alemanha tentou melhorar a proposta, oferecendo uma ajuda humanitária, pós-expulsão, o que levou a França a reagir, dizendo que a Grécia precisava de um acordo e não de caridade.

Se o leitor quiser fazer um exercício de quem tem razão, descobrirá que ambos têm. A Alemanha dirá que já emprestou muito, aceitou uma redução de dívida, e este é o terceiro acordo com a Grécia. Por outro lado, a Grécia poderá dizer que em cinco anos fez muito esforço, tentou cumprir o combinado, teve sucesso pontual, mas sua dívida cresceu de 108% para 170% do PIB. O presidente francês, François Hollande, quis encontrar um meio termo, que resumiu na frase: "Não à austeridade sem crescimento; não ao crescimento sem austeridade."

O problema é que não basta ter razão no caso grego, é preciso encontrar uma solução que funcione. Conhecemos a luta entre credores e devedores. O Brasil foi considerado "caloteiro" até que os bancos e governos credores foram convencidos, num inteligente processo de negociação, a conceder um grande desconto em troca do esforço brasileiro para pagamento da dívida. Deu certo, e nos livramos da herança deixada pelos governos militares na negociação liderada pelo economista Pedro Malan, no início dos anos 90.

Mais dramáticos são os exemplos históricos vividos pela Alemanha. Quando a dívida de guerra imposta foi alta demais, ela entrou em colapso econômico e político. A França tinha direito de confiscar a produção de aço dos alemães, caso eles não pagassem. O fim da história todos sabem: hiperinflação, nazismo, Segunda Guerra. Depois disso, os vencedores ofereceram um acordo com perdão de dívida e incentivos ao crescimento, a despeito do horror da divisão do país.

A Alemanha pode dizer que cedeu neste fim de semana, porque queria que o fundo de ¬ 50 bilhões com lastro de ativos gregos fosse administrado pela Europa, mas acabou ficando sob supervisão grega. Os contribuintes alemães podem reclamar de um novo empréstimo de ¬ 86 bilhões a quem não tem capacidade de pagar a dívida atualmente.

Os gregos podem dizer que eles votaram vigorosamente pela rejeição daqueles termos do acordo e agora o primeiro-ministro, Alexis Tsipras, concordou com quase tudo.

O problema mais aflitivo agora é quando e como abrir os bancos gregos. Pode-se imaginar a agonia de viver o cotidiano com bancos fechados por duas semanas. A nova data para a reabertura é quarta-feira, embora ainda não exista garantia de que isso vá acontecer. É natural, em momento assim, que haja uma corrida bancária tão logo as portas se abram. Só um acordo forte, com empréstimo imediato, poderia evitar a corrida. Quanto maior a dúvida sobre a sustentabilidade do acordo, maior será o impulso do cidadão grego de raspar a sua conta bancária. O não pagamento ao FMI ontem, pela segunda vez em poucas semanas, aumenta essa sensação de insegurança.

Tsipras, ao fechar os bancos, sair da negociação e convocar o referendo, fez uma aposta de alto risco, que já afetou a economia grega. Merkel, ao endurecer tanto o jogo, pode não ter agradado nem aos gregos nem aos alemães. Tudo vai bem quando acaba bem, mas ontem a sensação é de que nada havia acabado ainda. Agora, falam os parlamentos. A análise do que foi concedido por ambos os lados pode eliminar a sensação de alívio e confirmar o ambiente de dúvidas que cerca a economia da Grécia e o futuro da Europa.

Arnaldo Jabor - O volume morto

- O Globo / Segundo Caderno

No Brasil, qual a diferença entre o comunismo de antigamente e o comunismo de hoje? Só uma: hoje eles estão no poder. Essa é a diferença principal. Na oposição são ardorosos sabotadores, no poder são um desastre administrativo. E se dedicam a sabotar o capitalismo mesmo dentro do poder capitalista. Como eles costumavam dizer, essa é a "contradição principal" deles: como ser contra o regime e governá-lo ao mesmo tempo?

A outra diferença entre ontem e hoje é de sentimentos: antes havia sim uma esquerda romântica, como vi e vivi nos tempos de estudante na UNE. A esquerda não era corrupta. Hoje a esquerda é só um pretexto para o petismo, o lulismo e o banditismo.

Naquela época, não. Nosso romantismo era meio babaca, mas era a única porta para entender o mundo.

Nós éramos mais "puros", mais poéticos, mais heroicos que os meus colegas de PUC, todos já de gravatinhas adultas. Como era bom se sentir acima dos outros, não por competência ou cultura, mas por superioridade ética. Os operários eram nossa meta existencial. Para nós eles eram o futuro da Humanidade. Nas oficinas do jornal estudantil que eu fazia, crivavam-nos de perguntas e agrados, sendo que os ditos operários ficavam desconfiados e pensavam que nós éramos veados e não fervorosos "revolucionários".

Naquele tempo não era possível pensar de outro jeito. De Sartre a Brizola, não havia outra ideologia disponível. A guerra fria dividia o mundo em duas facções, e a tomada do poder de Fidel Castro inebriou nossos desejos. Mesmo delirando em utopias, queríamos verdadeiramente, romanticamente salvar o país, contra o "imperialismo americano, o latifúndio e a direita espoliadora". Não havia espaço para outras ideias, e quem ousasse pensar diferente era canalha, lacaio dos americanos. Por exemplo, Raymond Aron era de "direita" porque discordou do Sartre, pois esse incitava seus leitores para agir; Aron ensinava-os a pensar. Como acreditávamos nessa dualidade, ela virou uma verdade incontestável. E essas "verdades" criaram uma nova linguagem que praticávamos com fé e determinação. Em vez dos fatos, a linguagem bastava e nos movia. A linguagem ignorava o mundo real, chato e complexo demais para a mutação histórica que faríamos pois, afinal, éramos os "sujeitos da história". Só as palavras simplistas explicavam nossa visão de mundo: alienação, massa atrasada, massa avançada, conscientização, sectarismo, aventureirismo, reacionarismo, entreguismo, proletariado, democracia burguesa e a palavra sagrada que tudo justificava: o "povo".

E é impressionante a manutenção das mesmas ideias de 50 anos atrás. Éramos implacáveis com as tentativas de conciliação; um dia, o próprio Costa e Silva aceitou receber uma delegação de estudantes. Nada aconteceu porque nós, na porta do Planalto, nos recusamos a vestir paletós. Nossas certezas eram tão sólidas que me lembro de dizer, no dia 31 de março de 1964: "Oba! Já derrotamos o imperialismo americano; agora só falta a burguesia nacional!" No dia seguinte, a UNE pegava fogo e surgia o anão verde-oliva Castelo Branco, o novo ditador.

Como era fácil ignorar a realidade quando se é da oposição, como era (e é) moleza tramar um programa político sem ter de administrar nada. Os românticos esquerdistas achavam que administrar era coisa de capitalistas (e ainda acham) pois, no desespero da zona geral, tiveram agora de contratar um "neoliberal" para tentar salvar um país quase em "perda total".

Na época, tudo fazia sentido para nós, sentido calcado em palavras-chaves que descreviam a vida, o país, as tragédias mundiais, a subestimação da resistência daquele mal chamado "capitalismo" que tudo descrevia. O capitalismo era tratado como uma pessoa: "capitalismo hoje acordou de mau humor, o capitalismo tentou nos enganar outro dia, o capitalismo está mentindo etc." Nunca entenderam (como hoje) que o capitalismo não é um regime político, mas um modo de produção - mal ou bem, o único que ainda funciona nesse mercado devastado por crises.

O socialismo utópico ou não era a única ideologia que movia o mundo e que agora justifica a destruição do Estado e do país que os petistas estão perpetrando. De certa forma, essa cagada que aprontaram (perdoem a vulgaridade) foi uma vitória.

A palavra de ordem não era derrotar o capitalismo? Pois agora estão conseguindo cumprir sua utopia: derrotá-lo (e o Brasil junto) sem terem nada para botar no lugar. É espantosa a capacidade de errar dessa gente. Mas para eles, na pior tradição hegeliana, o "erro" é apenas um acidente de percurso. O erro é apenas uma contradição negativa e passageira. Nesse tempo, as reuniões eram incessantes e insuportavelmente longas. E era o mesmo papo de agora no PT: precisamos falar com o povo, com movimentos sociais, sindicatos e (uma palavra que me deprimia) "associações de bairro". Eu pensava: "Que será isso? Será que querem conscientizar minhas tias?". Nas infinitas reuniões todos falavam inflados de certezas e ao final se perguntavam: o que fazer? Ninguém sabia. Mas continuávamos firmes militantes do nada, sem saber para onde ir, porque ter dúvidas era "revisionismo". É como hoje; ver o Rui Falcão falando até me emociona, pois é uma viagem no tempo. Não havia espaço para os males internos e seculares do Brasil; tudo era culpa dos inimigos externos (como hoje - não é, Dilma?).

Hoje já estão no "volume morto", como definiu o Lula num raro acesso de autocrítica, mas continuarão persistindo na marcha da insensatez. Eles não mudam nunca.

Nunca me esqueço de um debate do grande intelectual "aroniano" José Guilherme Merquior com dois marxistas na TV. Os dois falavam sempre dos erros da esquerda, mas considerados apenas como "percalços" de uma marcha triunfal para o futuro. Eles diziam, batendo no peito: "Erramos no stalinismo, na Hungria, em Praga, aqui erramos em 1935, 1964, em 1968, mas continuaremos lutando." Merquior respondeu na lata: "Por que vocês não desistem?"

Olivia e Francis Hime - Saudade

Vinicius de Moraes – A ausente

Amiga, infinitamente amiga
Em algum lugar teu coração bate por mim
Em algum lugar teus olhos se fecham à ideia dos meus.
Em algum lugar tuas mãos se crispam, teus seios
Se enchem de leite, tu desfaleces e caminhas
Como que cega ao meu encontro...
Amiga, última doçura
A tranquilidade suavizou a minha pele
E os meus cabelos. Só meu ventre
Te espera, cheio de raízes e de sombras.
Vem, amiga
Minha nudez é absoluta
Meus olhos são espelhos para o teu desejo
E meu peito é tábua de suplícios
Vem. Meus músculos estão doces para os teus dentes
E áspera é minha barba. Vem mergulhar em mim
Como no mar, vem nadar em mim como no mar
Vem te afogar em mim, amiga minha
Em mim como no mar...


Rio de Janeiro , 1954

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Opinião do dia – José de Souza Martins : ‘Só sai dela com negociação’

O cenário político brasileiro não é o de uma convincente crise que leve à interrupção do mandato de Dilma Roussef. Mas a presidente está cercada de um conjunto anômalo de adversidades, a menor das quais é a do ponto de vista que sobre seu mandato tem o principal partido de oposição, o PSDB. A maior dificuldade de seu governo está no interior da aliança que deveria assegurá-lo.

Inviabilizada a coalizão, praticamente fica inviabilizada a governabilidade. Um terceiro fator negativo da crise é a postura do Lula e de setores do PT que desamparam a presidente em nome de interesses que não são os do governo e do País, mas do partido.

De crise política se sai com negociação, abrindo mão de concepções próprias e abrigando, no que couber, concepções alheias. O cenário sugere que chegamos ao fim do protagonismo do PT, mesmo que Dilma Roussef preserve seu mandato até a data prevista para concluí-lo. Nesse sentido, para administrar a crise, ela teria que governar em nome de interesses que não são os de seu partido.
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José de Souza Martins é um escritor e sociólogo brasileiro. Professor Titular aposentado do Departamento de Sociologia e Professor Emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. O Estado de S. Paulo, 12 de julho de 2015.

Congresso discute controle do TCU às vésperas de análise das contas de Dilma

Fábio Fabrini - O Estado de S. Paulo

• Projetos, como o que prevê fiscalização externa do órgão, voltaram à pauta de comissões há um mês, em datas próximas ao início do julgamento do balanço de 2014

BRASÍLIA - Parlamentares governistas e de oposição fizeram andar no Congresso projetos que pressionam integrantes do Tribunal de Contas da União (TCU) às vésperas do julgamento das contas da presidente Dilma Rousseff. Desde o mês passado, voltaram à pauta de comissões da Câmara propostas que encurtam a permanência de ministros da corte nos cargos e a obrigam a abrir sua administração para fiscalização do Legislativo e do próprio governo. No Senado, o presidente Renan Calheiros (PMDB-AL) quer criar uma “autoridade fiscal” com atribuições semelhantes às do tribunal.

O TCU monitora a tramitação dos projetos, que constam em uma lista de 61 que têm impacto no seu funcionamento. Na semana passada, o tema foi tratado pelos ministros em reunião fechada e tem sido fonte de preocupação. A avaliação interna é que “essa movimentação repentina” das propostas “sugere que é para pressionar” a corte.

O TCU apontou no mês passado distorções de R$ 281 bilhões no Balanço Geral da União de 2014 e fixou prazo de 30 dias para a presidente apresentar defesa sobre 13 irregularidades, entre as quais as chamadas “pedaladas fiscais”. Com base nas explicações, o tribunal dará, possivelmente em agosto, parecer para embasar julgamento do Congresso sobre as contas. Os ministros podem recomendar que sejam rejeitadas, aprovadas ou se abster de uma opinião.

A oposição e setores da base aliada em conflito com o governo tentam influenciar os ministros a optar pela reprovação, o que abriria caminho para pedir o impeachment de Dilma por suposto crime de responsabilidade. O Palácio do Planalto, por sua vez, faz lobby em contrário e tenta evitar que um parecer adverso da corte chegue ao Congresso.

Fiscalização. Na Câmara dos Deputados, a Comissão de Fiscalização Financeira e Controle incluiu na pauta de votação desde 17 de junho - dia em que o TCU abriu o prazo para Dilma responder - proposta que abre uma fiscalização “contábil, financeira, orçamentária e operacional” do Congresso sobre a área administrativa da corte.

O projeto original, do deputado Eduardo da Fonte (PP-PE), põe o próprio governo, por meio da Controladoria-Geral da União (CGU), como auxiliar do Legislativo na tarefa de fazer o pente-fino. “O TCU chega na Câmara e dá todo tipo de pitaco. Acho estranho não querer ser fiscalizado. Nenhum órgão é soberano, acima do bem e do mal”, justifica o deputado.

A proposta foi apresentada em 2013 e, de lá para cá, tramitava em “banho-maria”. Na semana anterior ao julgamento no TCU, ela recebeu parecer favorável do deputado Hissa Abrahão (PPS-AM), da oposição. O presidente da comissão, Vicente Cândido (PT-SP), já o incluiu duas vezes na pauta, mas o colegiado recuou diante dos pedidos de integrantes do tribunal e de divergências na própria comissão sobre o texto a ser adotado.

O TCU faz auditorias em órgãos do governo, entre eles a própria Controladoria-Geral da União. Um dos principais problemas, para integrantes da corte, é que o projeto inverteria papéis, colocando um ente fiscalizado pelo tribunal para fiscalizá-lo. A CGU é um órgão de controle interno do governo e não tem, por lei, competência para inspecionar o tribunal, um órgão auxiliar do Legislativo.

No último dia 1.º, a proposta quase foi votada, mas, a pedido do TCU, o deputado Edinho Bez (PMDB-SC) pediu vista e apresentou um parecer em separado, que exclui a possibilidade de a CGU participar. Diante da polêmica, o relator também recuou e protocolou, na sexta-feira passada, um relatório com a mesma alteração. Vicente Cândido avisa que o projeto voltará à pauta no mês que vem, quando o TCU prevê julgar as contas de Dilma. “Vamos dizer que é uma coincidência. Não vejo nenhuma retaliação”, alega.

Reformulação. Ainda na Câmara, na Comissão de Constituição de Justiça (CCJ), uma Proposta de Emenda à Constituição sugere uma ampla reformulação do TCU. Um dos artigos prevê que ministros da corte, que hoje ficam no cargo da nomeação até a aposentadoria compulsória, aos 75 anos, tenham mandato de três anos.

O texto foi apresentado em 2007 pela deputada Alice Portugal (PC do B-BA), foi arquivado no início do ano e desarquivado em seguida. Em 16 de junho, véspera da sessão no TCU que julgaria as contas do governo, ganhou parecer pela admissibilidade - o que significa que não fere aspectos da Constituição e está apto a tramitar nas demais comissões.

O relatório foi do deputado Veneziano do Rêgo (PMDB-PB), irmão do ministro do TCU Vital do Rêgo. O gabinete do deputado explica que o relatório não aborda o mérito da proposta, por não ser atribuição da CCJ, e que o peemedebista é até contra as alterações sugeridas.

Integrantes da oposição se mobilizam também para desenterrar uma proposta que pune o presidente do TCU por crime de responsabilidade se ele deixar de processar e julgar infração cometida por prefeitos. Em geral, presidente do TCU não relata nem julga. Em casos específicos, ele vota quando é necessário o desempate.

No Senado, Renan apresentou no fim de junho, dias após o início do julgamento no TCU, proposta para criar uma “autoridade independente” a fim de monitorar, avaliar e fazer alertas sobre a política fiscal do governo. O tribunal, no entanto, já faz trabalho semelhante.

Para integrantes da corte, trata-se de um órgão concorrente. Além disso, argumentam, o texto não deixa claro como será constituído seu corpo técnico, que estará sob o comando de um diretor escolhido, em lista tríplice, pelo presidente do Senado.

Renan diz que a ideia é “aprimorar os mecanismos de avaliação e controle da política fiscal”, em favor do “crescimento econômico”. Segundo sua assessoria, não há conflito com as atividades do TCU, pois o novo órgão não aplicará sanções nem terá função no julgamento das contas do governo.

Nova meta fiscal será discutida em reunião com Dilma

Adriana Fernandes, Erich Decat e Murilo Rodrigues Alves - O Estado de S. Paulo

• Coordenação política do governo vai debater hoje sobre as propostas de reduzir ou de criar uma banda para o superávit primário

A mudança da meta fiscal de 2015 será levada para discussão hoje na reunião de coordenação política da presidente Dilma Rousseff, apesar de ela ter dito no sábado, em Milão, que trabalha para manter a meta em 1,1% do PIB. O governo tem até o próximo dia 22 para tomar uma decisão sobre o assunto – este é o prazo final para o envio ao Congresso de relatório bimestral do Orçamento.

“A posição do Executivo em relação à meta será discutida na reunião de coordenação política sob a liderança da presidente”, disse o ministro da Aviação Civil, Eliseu Padilha (PMDB), que integra o núcleo político do governo. A meta fiscal, ou de superávit primário, é a economia que o governo faz para pagamento de juros da dívida.

A presidente vai receber da equipe econômica os cenários fiscais em jogo e a perspectiva de receitas extraordinárias com maiores chances de entrarem nos cofres do governo até o final do ano. Além da redução da meta de R$ 66,3 bilhões, ou 1,1% do PIB, a área econômica estuda criar uma banda de flutuação para o superávit primário entre 0,6% e 1,6%, num modelo parecido com as metas de inflação.

Abatimento. A proposta que fixa uma margem de tolerância para a meta fiscal ressuscita, na prática, o mecanismo usado até o ano passado que permitia o abatimento da meta das despesas com investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O abatimento funcionava com um “amortecedor” para administrar frustrações de arrecadação ou aumento de despesas inesperadas.
Os ministros Joaquim Levy (Fazenda) e Nelson Barbosa (Planejamento), quando definiram as metas para 2015, 2016 e 2017, acabaram com o abatimento. Foram fixadas metas chamadas “puras”, com alvo fixo, para retomar a confiança na política fiscal.

“A banda é tudo de bom para todos”, disse um integrante da equipe econômica. A vantagem é que ela permite administrar os riscos em torno do desempenho da arrecadação e das votações pelo Congresso.

Há cerca de dois meses, diante de pressões de parlamentares para que se fizessem concessões nas propostas do ajuste fiscal para que se pudesse aprová-lo em uma reunião da coordenação política, Levy e Barbosa avisaram que a meta não seria cumprida. De lá para cá, o governo faz “jogo de cena” em torno da mudança da meta. Mas o aval para a mudança já foi acertado por Levy com as lideranças políticas, o que envolveu o anúncio da proposta do senador Romero Jucá (PMDB-RR) de reduzir a meta para 0,4% do PIB.

A reunião de hoje deve deliberar sobre uma proposta um pouco mais alta do que a meta de Jucá. Segundo lideranças do Congresso que conversaram com Levy, ele trabalha por uma meta maior contando as receitas de medidas que foram e serão tomadas. Mas mesmo um valor em torno de 0,6% do PIB é considerado ambicioso pelos técnicos do governo. / Colaborou Lisandra Paraguassu

TSE cruza dados eleitorais e presidenciais de Dilma

• Oposição baseia ação em supostos abuso de poder e financiamento ilegal

• Maioria dos ministros da corte foi indicada por governos do PT, mas relator foi nomeado no governo FHC

Márcio Falcão – Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - Técnicos do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) preparam um cruzamento dos dados da prestação de contas da campanha à reeleição da presidente Dilma Rousseff com os gastos do Palácio do Planalto com viagens e eventos no período eleitoral.

O levantamento será avaliado junto com os depoimentos de delatores do esquema de corrupção da Petrobras no pedido de cassação feito pela oposição contra a petista e o vice Michel Temer.

A ideia é analisar se houve abuso de poder político e econômico como diz a oposição.

Os documentos já foram enviados pela Presidência à Justiça Eleitoral. No ano passado, Dilma conciliou em viagens eventos oficiais e atos de campanha. O PT, no entanto, ressarcia os cofres públicos pelos deslocamentos feitos com a estrutura oficial no período eleitoral.

O uso da máquina pública é um dos argumentos utilizados por partidos de oposição, puxados pelo PSDB, para pedir que o TSE casse o registro de Dilma e Temer e dê posse ao senador tucano Aécio Neves (MG) na Presidência.

Na ação, a oposição sustenta ainda que Dilma deve deixar o comando do país porque as campanhas do PT teriam sido financiadas com dinheiro de corrupção na Petrobras, o que tornaria a eleição "ilegítima" e viciada.

Outra acusação é que o governo segurou divulgação de dados oficiais durante as eleições e fez pronunciamentos em cadeia de rádio e TV para promover a petista.

Já foram ouvidos o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, o doleiro Alberto Yousseff e o ex-diretor do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada Herton Araújo. Nesta terça-feira (14), será a vez do dono da UTC, Ricardo Pessoa, prestar depoimento.

Em seu acordo de delação premiada, Pessoa disse que doou R$ 7,5 milhões à campanha de Dilma por temer prejuízos em negócios com a Petrobras. O montante foi declarado à Justiça Eleitoral.

O andamento da ação provocou novo embate entre governo e oposição, levando a troca de ataques entre Dilma e Aécio sobre golpismo.

Diante da politização, ministros do TSE ouvidos pela Folha passaram a defender cautela na apuração do caso e demonstraram irritação com as especulações sobre a tendência dos votos.

Dois integrantes do tribunal, sob a condição de anonimato, rechaçaram a tese de um eventual terceiro turno na corte. Aplicar a lei não pode ser considerado golpe, afirmou um ministro. Um colega reforçou que ser julgado, defender-se e questionar faz parte das regras democráticas. "As instituições brasileiras têm credibilidade."

Entre os ministros, porém, há quem veja a cassação via TSE como complexa, se não houver algo flagrante, e que seria melhor deixar decisões drásticas para vias que incluam aval do Congresso, caso da análise das contas de 2014 do governo no TCU (Tribunal de Contas da União).

Votos
A expectativa é de que a ação seja analisada entre agosto e setembro pelo tribunal. Dos sete ministros, cinco foram escolhidos por governos do PT e dois pelo PSDB. A indicação, no entanto, não garante um cenário favorável ao governo.

Relator do pedido de cassação no TSE e ministro do STJ, João Otávio de Noronha foi nomeado por Fernando Henrique Cardoso.

Presidente do TSE e ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), Dias Toffoli tem criticado o governo --sendo que já atuou como advogado-geral da União no governo Lula e advogou para o PT. Vice-presidente do tribunal, Gilmar Mendes tem atacado ações de governos petistas.

Chegaram aos cargos pelas mãos de Dilma o ministro do STF Luiz Fux e a ministra do TSE Luciana Lóssio, que ocupa vaga dos advogados no tribunal e foi escolhida depois de atuar na área jurídica da campanha do PT em 2010.

O ex-presidente Lula indicou a ministra do STJ Maria Thereza de Assis Moura e o ministro Henrique Neves, também da classe dos advogados, para atuar como substituto no TSE. Ele, porém, foi reconduzido para cadeira de ministro titular por Dilma.

PF mapeia dinheiro de cartel para José Dirceu

• Relatório mostra caminho que suposta propina percorreu até chegar à JD Consultoria

Cleide Carvalho / Mariana Sanches - O Globo

SÃO PAULO — A Polícia Federal rastreou o caminho do dinheiro que liga o cartel de empresas que fraudaram a Petrobras ao ex-ministro da Casa Civil José Dirceu. A sequência de operações está descrita em um relatório da Polícia Federal sobre as irregularidades cometidas pela construtora Camargo Corrêa nas obras da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. Antes de chegar à JD Consultoria, do ex-ministro, o dinheiro passou por dois intermediários, os chamados operadores da Operação Lava-Jato. Um deles, Milton Pascowitch, dono da empresa Jamp, disse em delação premiada, no começo do mês, que o pagamento feito a Dirceu era propina oriunda dos desvios da Petrobras.

Laudo da PF mostra que, de 2009 a 2014, durante a vigência do contrato de obras da refinaria, a Camargo Corrêa repassou R$ 67,7 milhões a duas empresas do consultor Julio Camargo, a Piemonte (que recebeu R$ 22,7 milhões) e Treviso (para a qual foram repassados R$ 45,048 milhões). Júlio Camargo já assinou um acordo de delação premiada com a Justiça e, em depoimento, confessou os crimes.

No mesmo período, essas duas empresas depositaram R$ 1,375 milhão a Pascowitch. Ele afirmou ainda que era o próprio Dirceu quem fazia “insistentes” pedidos de dinheiro, necessários para garantir a manutenção dos contratos da Engevix com a Petrobras.

Laudo foi enviado à Justiça Federal pela PF
Os levantamentos da Polícia Federal mostram que foi por meio de Pascowitch que o dinheiro chegou a Dirceu. Dentro do mesmo período em que recebeu os depósitos, a Jamp repassou, entre 2011 e 2012, a José Dirceu valor bem próximo ao que ele recebeu: R$ 1,457 milhão. Os valores recebidos por Dirceu da Jamp constam de um relatório da coordenação-geral de pesquisa e investigação da Receita Federal.

No laudo enviado à Justiça Federal pela PF, a JD Consultoria aparece listada entre as 31 empresas “suspeitas de promoverem operações de lavagem de dinheiro” em contratos de obras da Refinaria Abreu e Lima. Piemonte e Treviso, de Julio Camargo, também são citadas no mesmo documento.

A JD Consultoria e Assessoria foi criada pelo ex-ministro Dirceu, em sociedade com seu irmão Luis Eduardo, depois que ele deixou o governo, fustigado pelas denúncias do mensalão, pelas quais acabou condenado. A Jamp, de Pascowitch, é a sexta empresa que mais repassou dinheiro à JD.

Dirceu também recebeu pagamentos por meio da JD de outras seis empresas acusadas de compor o cartel das empreiteiras investigado na Operação Lava-Jato. Entre 2010 e 2013, segundo o relatório da Receita, o montante chega a R$ 8,5 milhões. De acordo com o documento, a JD recebeu da Construtora OAS R$ 2,9 milhões, da UTC Engenharia, R$2,3 milhões, da Engevix, R$ 1,1 milhão, e da Egesa Engenharia, R$ 480 mil. Além delas, a própria Camargo Corrêa repassou diretamente à empresa de Dirceu R$ 900 mil. Em nove anos de funcionamento, a empresa de Dirceu faturou R$ 29 milhões, pagos por mais de 50 empresas.

Segundo informações fornecidas pela defesa do ex-ministro à Justiça, a empresa teria prestado consultoria em países da Europa e da América Latina em setores como engenharia, telecomunicações e indústria. Para tentar comprovar que efetivamente atuava como consultor, Dirceu anexou ao processo seus passaportes, que registram mais de cem viagens ao exterior entre 2006 e 2012.

José Dirceu está na mira dos investigadores da Lava-Jato há mais de seis meses. Depois de avaliar a contabilidade das empreiteiras OAS, UTC e Galvão Engenharia, a Polícia Federal descobriu os pagamentos a Dirceu, o que fez com que a Justiça Federal decretasse a quebra do sigilo bancário e fiscal da JD Assessoria.

Em janeiro passado, a juíza substituta da 13ª Vara da Justiça Federal, Gabriela Hardt, que determinou as ações contra Dirceu, argumentou que os recursos recebidos pela JD das empreiteiras investigadas na Operação Lava-Jato seguiam o mesmo molde que abasteceu o esquema montado pelo doleiro Alberto Youssef. Segundo ela, Dirceu operava “através de empresas de fachadas”, com repasse de propina “pelo pagamento de serviços de consultoria fictícios a empresas diversas para viabilizar a distribuição de recursos espoliados do Poder Público”.

Preços dez vezes maior
A investigação da Polícia Federal é rica em detalhes sobre como o cartel funcionou para dar vitória ao consórcio responsável pelas obras na Abreu e Lima, liderado pela Camargo Corrêa, na Unidade de Coqueamento Retardado (UCR). De abril de 2010 a junho deste ano, a Petrobras já pagou R$ 4,573 bilhões pela obra, incluindo atualização monetária. O preço original da obra era R$ 3,411 milhões.

Os investigadores, em documentos internos, afirmam que a chance de ter existido cartel nos contratos da estatal é de 99,9%. Os investigadores descobriram que a empreiteira também obtinha enormes lucros comprando insumos para obras. Em alguns casos, o preço cobrado da estatal chegou a ser 10 vezes mais alto do que o pago pelo consórcio.

Dirceu diz que colaborou com Engevix no exterior
A assessoria do ex-ministro José Dirceu afirmou, em nota, que o contrato com a Jamp “teve o objetivo de seguir na prospecção de negócios para a Engevix no exterior, em especial no Peru”, sem qualquer relação com a Refinaria Abreu e Lima. A nota “refuta qualquer ilação de que os serviços de consultoria para a Jamp não foram prestados” e diz que a defesa de Dirceu não teve acesso ao “conteúdo do relatório da Polícia Federal sobre a obra de Abreu e Lima nem ao depoimento do empresário Milton Pascowitch”. A assessoria de Dirceu lembra que o presidente do Conselho da Engevix, Cristiano Kok, e o ex-vice-presidente Gerson Almada “já declararam à imprensa e à Justiça que José Dirceu foi contratado com o propósito de expandir os negócios da construtora no exterior”. Também em nota, a assessoria da Camargo Corrêa afirmou que seu advogado, Celso Villardi, “apresentou documentos nos autos sobre pagamentos realizados para a JD” e que “todos os serviços foram efetivamente prestados”.

Condenado no mensalão, ex-ministro tentou Habeas Corpus
O laudo enviado à Justiça pelo Ministério Público Federal, que inclui a JD Consultoria entre as empresas “suspeitas de promoverem operações de lavagem de dinheiro” em contratos das obras da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, é mais um capítulo envolvendo o ex-ministro José Dirceu nas investigações da Operação Lava-Jato. Dirceu, condenado no mensalão por corrupção ativa, teve seu nome ligado ao esquema de corrupção na Petrobras e, de lá para cá, tentou duas vezes um habeas corpus preventivo, negado pelo juiz.

Documentos apreendidos pela PF apontaram que a JD Consultoria teria recebido transferências milionárias de empreiteiras envolvidas no esquema. Na semana passada, a PF divulgou que, mesmo tendo investigado a JD Consultoria em inquérito separado, “permanece a suspeita sobre regularidade dessas relações, reforçada pelo vínculo temporal estabelecido com a obra da UCR/Renest (Unidade de Coqueamento Retardado da Abreu e Lima)”.

A PF informou ainda que, na construtora Camargo Corrêa, também investigada, encontrou uma planilha eletrônica com descrição de contrato com Dirceu. Dizia: “serviços de consultoria análise dos aspectos sociológicos políticos do Brasil”. A data do contrato era 22 de abril de 2010, e havia a referência “vencido”.

Um dos advogados do ex-ministro, Roberto Podval, em nota ao GLOBO, disse que Dirceu “nunca teve contrato com o consórcio responsável pela obra da Refinaria Abreu e Lima”. De acordo com Podval, “Dirceu foi contratado pela Camargo Corrêa para atuar em Portugal, como a própria construtora reconhece. Portanto, não há qualquer relação com contratos ou obras da Petrobras”. A nota diz ainda que “todas as informações, como contratos e notas fiscais, já foram encaminhadas à Justiça Federal do Paraná em janeiro”.

Contratos com empreiteiras
O MPF chegou à JD Consultoria ao analisar documentos da Receita Federal e constatou que três construtoras — Galvão Engenharia, UTC Engenharia e OAS — investigadas na Lava-Jato transferiram dinheiro para contas da JD. Na época, a assessoria de Dirceu informou que ele prestou serviço de consultoria. Em janeiro deste ano, a Justiça quebrou os sigilos bancário e fiscal de Dirceu, do sócio, que é irmão do ex-ministro, e da empresa. O ex-ministro, então, comunicou ao juiz Sérgio Moro, responsável pela Lava-Jato no Paraná, que encerrou as atividades da empresa.

Meses depois, em delação premiada, Milton Pascowitch disse que intermediou pagamento de propina a Dirceu para que a Engevix, empreiteira investigada, mantivesse contratos com a Petrobras. Segundo Pascowitch, a empresa dele, a Jamp, pagou R$ 1,5 milhão para a JD.

Logo após o depoimento de Pascowitch ser divulgado, os advogados de Dirceu entraram com pedido de habeas corpus preventivo. O juiz federal Nivaldo Brunoni, do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4), negou. Dias depois, o mesmo juiz negou um novo pedido.

Com a divulgação da relação das empresas suspeitas de lavagem de dinheiro, o procurador Carlos Fernando Lima, um dos coordenadores da força-tarefa da Lava-Jato, disse à revista “Época Negócios” que “está muito difícil a situação do José Dirceu em relação ao que recebia da Jamp”. E completou: “as histórias estão sendo contadas sem o mínimo de cuidado de razoabilidade. Eles estão se confundindo”.

Dinheiro desviado da Petrobras também pagou prostitutas de luxo

Flávio Ferreira - Folha de S. Paulo

CURITIBA - Além de financiar a compra de helicópteros, lanchas e carros importados, o dinheiro desviado da Petrobras pelo esquema de corrupção investigado na Operação Lava Jato também foi usado para pagar serviços de prostituição de luxo com "famosas" da TV e de revistas para diretores da estatal e políticos, segundo relatos de delatores às autoridades do caso.

A história foi explicada ao Ministério Público e à Polícia Federal pelo doleiro Alberto Youssef e o emissário dele, Rafael Angulo Lopez, após eles terem sido questionados sobre expressões usadas nas planilhas nas quais registravam o fluxo do dinheiro do esquema de corrupção.

De acordo com os controles dos dois delatores, só em 2012 cerca de R$ 150 mil foram gastos para financiar a contratação das garotas, algumas delas conhecidas pela exposição em programas de TV, capas de revistas e desfiles de escolas de samba.

Colaboradores explicaram que todos os valores associados aos termos "artigo 162" e "Monik" nas planilhas foram destinados ao pagamentos de prostitutas que cobravam até R$ 20 mil por programa.

A expressão "artigo 162" era uma referência ao endereço de uma cafetina conhecida como "Jô", que agenciava programas para os dirigentes da Petrobras e políticos.

Nas planilhas entregues aos investigadores, há vários lançamentos de R$ 5 mil e R$ 10 mil ligados a esses termos. Muitas vezes as prostitutas buscavam os pagamentos em dinheiro no escritório de Youssef, segundo os relatos.

O dinheiro do esquema de corrupção também era usado para bancar festas com as garotas. Só em uma delas, no terraço do hotel Unique, em São Paulo, foram gastos R$ 90 mil principalmente em bebidas, de acordo com os delatores.

Um comprovante de transferência bancária de um exdiretor da Petrobras para uma garota conhecida na mídia, no valor de R$ 6 mil, foi encontrado em uma das buscas autorizadas pela Justiça na Lava Jato, e ficou famoso entre os investigadores do caso.

A força-tarefa da Lava Jato não utilizou esse papel e as explicações dos delatores sobre o emprego de valores desviados para contratação de prostitutas, pois a mera solicitação ou aceitação de propina ou vantagem pessoal já confere o crime de corrupção -- não importando, para fins penais, a maneira como o dinheiro sujo foi utilizado.

Embora a prostituição não seja crime, explorar o trabalho de garotas de programa é.

China e EUA preocupam governo Dilma

Assis Moreira - Valor EconÔmico

UFÁ, RÚSSIA - A intensa turbulência nas bolsas de valores da China deixou um "sabor amargo" na delegação do governo brasileiro que participou da cúpula dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), em Ufá na semana passada. Existe preocupação, também, com a turbulência que pode ser provocada pela esperada elevação da taxa de juros nos Estados Unidos.

O que assustou autoridades dos Brics foi ver a segunda maior economia do mundo usar seu enorme poder de fogo durante dias sem conseguir neutralizar o risco de colapso das bolsas, o que ampliou a desconfiança dos mercados.

Para autoridades brasileiras, o que ocorreu nos mercados por causa da China mostrou como é importante aproveitar o tempo para fortalecer as defesas da economia antes da elevação dos juros nos EUA que pode provocar mais um período de volatilidade.

Como o Valor apurou, para enfrentar esse quadro, o governo quer garantir que as expectativas de inflação estejam, até lá, realmente ancoradas na meta - de 4,5%. Nesse período, o plano é ter o ajuste fiscal implementado para valer.

Além disso, o programa de swap cambial do Banco Central - uma espécie de contrato que dá proteção contra flutuação da moeda - está próximo de US$ 104 bilhões e rolando cerca de 60% dos contratos. Diminuindo a rolagem das operações, o Banco Central permite maior flutuação da taxa de câmbio e estaria abrindo espaço para uma ação mais incisiva à frente, se necessário.

Em meio à acumulação de incertezas no cenário mundial, o compromisso de ancorar as expectativas de inflação antes que o Federal Reserve (Fed), o banco central americano, eleve os juros poderia levar o BC a estender o ciclo de alta dos juros aqui dentro. Nos últimos dias, o BC vinha começando a sinalizar o oposto.

Na delegação brasileira, era dada ênfase à afirmação de que volatilidade não pode ser confundida com vulnerabilidade. Menções de analistas a "cinco emergentes frágeis" a choques externos, que inclui o Brasil, são vistas como posicionamento de mercado para vender moedas e ações. A situação da zona do euro tambem está sendo monitorada pelo governo. A avaliação brasileira é de que há realmente um grande esforço europeu para evitar agravamento da situação da Grécia. Mas é algo complexo e pode ser demorado.

Brasil quer inflação ancorada quando Fed subir juros
A intensa turbulência nas bolsas de valores da China deixou um "sabor amargo", para representantes do governo brasileiro que participaram da cúpula dos Brics (Brasil, Rússia, Índia e África do Sul), em Ufá na semana passada. E reforçou o sentimento do quanto é importante aproveitar o tempo para fortalecer as defesas da economia antes da potencial volatilidade que virá com o aumento dos juros nos Estados Unidos.

Conforme o Valor apurou, para enfrentar tal quadro as autoridades querem garantir que a expectativa de inflação esteja realmente ancorada na meta até lá, com o ajuste fiscal rigoroso implementado, e ter conforto no uso do programa de swap.

A presidente Dilma Rousseff foi à cúpula dos Brics em Ufá, a capital muçulmana da Rússia, a 1,3 mil quilômetros de Moscou, acompanhada do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, num momento de agitação dos mercados provocada pela combinação de dois eventos: as incertezas sobre a Grécia na zona do euro e o estouro da bolha chinesa, que evaporou US$ 3,5 trilhões das bolsas de Xangai e Shenzen em algumas sessões.

O que assustou autoridades de países parceiros foi ver Pequim usar seu enorme poder de fogo sem conseguir por dias estancar o problema, o que ampliou a desconfiança dos mercados.

A delegação brasileira procurou ver até que ponto a correção nas ações chinesas é relevante do ponto de vista macroeconômico, de consumo e de investimentos. A avaliação é de que parece limitada. Mas os chineses admitiam a parceiros que não tinham uma visão precisa sobre o episódio.

Fontes do governo brasileiro argumentam que as exportações para a China são grandes, representam 17% do total vendido pelo país, mas não chegam a 2% do PIB. Isso porque a economia brasileira é fechada e o comércio exterior tem peso menor.

Porém, admitem que o impacto indireto é importante pela percepção de risco dos agentes de mercado e pelos preços das commodities.

Em meio ao desconforto deixado pelo revés chinês, na delegação brasileira se enfatizava que volatilidade não pode ser confundida com vulnerabilidade.

Com relação à zona do euro e aos problemas da Grécia, o importante para o Brasil, nos contatos com o Banco Central Europeu (BCE) e alguns outros bancos centrais que não fazem parte da moeda única, é sinalizar que estará na linha de frente para limitar um contágio de uma eventual saída da Grécia do bloco.

A avaliação brasileira é que há realmente um grande esforço para evitar agravamento da situação da Grécia. Mas é algo complexo e pode ser demorado.

O evento que mais desperta atenções do Brasil e outros emergentes é, sobretudo, quando os EUA vão normalizar a sua política monetária e como isso vai ocorrer.

A percepção do governo brasileiro é que o processo tem sido bem comunicado pelo Federal Reserve (o BC dos EUA) e será o movimento mais antecipado em política monetária de que se tem notícia na história mundial.

Se houver um movimento de venda de moedas emergentes, isso vai afetar a economia americana. O Fed já incorporou esse risco. Para os BCs de emergentes, como o brasileiro, tal leitura é suficiente para ter a parceria da autoridade monetária americana nesse processo de normalização.

No entanto, o temor é que mesmo a melhor comunicação não evite certos riscos. Faz oito anos que não há subida de juros nos EUA. Existe uma geração de operadores de mercado, com média de 25 a 30 anos, que nunca viu o juro aumentar.

Alguns membros do Fed têm sinalizado que a normalização da política monetária vai ser proporcional à reação do mercado. Se for boa, vão subindo os juros. Se for mais negativa, o Fed pararia um pouco. Alguns chegam a falar em reversão em caso de virada brusca no mercado, algo considerado pouco verossímil na percepção brasileira.

A expectativa é que o começo da alta dos juros americanos possa ocorrer em setembro, dezembro ou no ano que vem. Para o Brasil, isso não é menos relevante. Quanto mais cedo for, maior a possibilidade de aumento gradual. Se for mais tarde e mais abrupto, cresce o risco de abalos nos mercados.

Pelo entendimento do governo brasileiro, a sua primeira linha de defesa é o câmbio flutuante. Isso sinaliza que o BC e a equipe econômica estão atentos aos riscos, têm se preparado e vão aproveitar o tempo para continuar reforçando suas defesas.

No governo, a avaliação é que o BC tem feito progressos para ancorar as expectativas de inflação à meta. A constatação inevitável é que a inflação em 2015 vai ser alta por conta do reajuste de preços relativos e da valorização do dólar. Só a conta da luz teve um reajuste de 50%, exemplifica uma autoridade. O entendimento é que o juro alto está segurando os efeitos de segunda ordem do ajuste de preços relativos para que esses não se propaguem para 2016. E o BC está conseguindo isso, na avaliação no governo.

Além disso, para o BC o importante é ter o ajuste fiscal rigoroso, e que seja para valer.

No quesito proteção cambial, o estoque de contratos de swap está próximo de USS 104 bilhões. Com a rolagem parcial desses instrumentos a cada vencimento, o BC estaria abrindo espaço para uma ação mais incisiva à frente, se necessário.

Uma questão em Ufá foi como o Brasil vai se recuperar mais rapidamente, como promete a presidente Dilma Rousseff, com juros tão elevados. Para um importante membro da delegação brasileira, o crescimento envolve também fatores não econômicos. Ele observa que o juro é negativo na Europa, mas ainda assim o crédito continua caindo. Acha que também no Brasil, independentemente da política monetária, a confiança é fundamental para reativar a atividade.

Para essa fonte, se for examinado o que houve com a inflação e os juros nos primeiros seis meses do ano, possivelmente o juro real instantâneo está "muito baixo" no Brasil.

Euclid, fala com a Merkel

• Tsakalotos é um marxista com modos informais. Seu preparo e temperamento permitem algum otimismo

• O novo ministro das Finanças da Grécia terá a missão de reabrir o diálogo com os alemães, a União Européia e o FMI Se conseguir, será um herói de nosso tempo

Rodrigo Turrer, com Gabriel Lelíis – Revista Época

O grito foi alto — e ouvido na Europa inteira. O "não" da população grega no referendo sobre os termos de um novo acordo com os credores do país tem repercussões imediatas e pode afetar as próximas gerações. Logo de cara, pode resultar na saída da Grécia do Euro. Se as previsões mais catastróficas se confirmarem, pode ser apontado no futuro como o primeiro sinal de esfacelamento do projeto europeu. O homem com a missão de evitar isso, estancar a sangria da Grécia e conseguir ajuda externa é um pacato economista de 55 anos, formado na Universidade de Oxford, casado com uma britânica e portador de dupla nacionalidade, holandesa e grega. Euclid Tsakalotos é conhecido por seu estilo despojado e temperamento ameno -o exato oposto de seu antecessor, o extravagante e mercurial Yannis Varoufakis, que deixou o cargo na semana passada. "Depois do resultado do referendo, eu soube de uma certa preferência de participantes do Euro grupo pela minha..."ausência" de suas reuniões", escreveu Varoufakis em seu blog pessoal. "Uma ideia que o primeiro-ministro considera potencialmente útil para ele chegar a um acordo. Por essa razão, estou deixando o Ministério das Finanças." Assim, sobrou para Tsakalotos convencer a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, a União Europeia e o Fundo Monetário Internacional a ajudar os gregos.

O ministro que saiu é um especialista em Teoria dos Jogos e ajudou o governo grego a fazer uma aposta que parecia maluca, mas se revelou correta: o chamado às ruas e a força do voto de um referendo aumentaram o poder dos negociadores gregos diante do Eurogrupo, que reúne ministros de Finanças e outras autoridades da Zona do Euro. Mas, com seu estilo truculento e agressivo, o ex-ministro estava identificado demais com as posturas intransigentes adotadas pela Grécia nas negociações dos últimos meses. "A saída de Varoufakis é um aceno aos credores feito pelo governo grego", escreveu Mujtaba Rahman, especialista em Europa da consultoria de risco Eurasia. "(O novo ministro) Tsakalotos conhece seu partido profundamente e pode ajudar a construir uma ponte entre os objetivos europeus e os objetivos gregos".

Tsakalotos anda de moto, usa mochila e dispensa terno e gravata, mas não segue o abrasivo discurso radical de seu antecessor. Nascido em Roterdã, na Holanda, em 1960, filho de um engenheiro civil e uma dona de casa gregos, Tsakalotos passou 30 anos na Inglaterra – onde estudou no colégio St. Pauli, um reduto da aristocracia britânica, antes de cursar política, filosofia e economia em Oxford, outro reduto aristocrático. Ph.D. em economia e política, começou a dar aulas na Universidade de Kent, ainda na Inglaterra, onde conheceu a economista Heather Gibson. Os dois se casaram e tiveram três filhos, antes de se mudar para a Grécia, em 1994, quando Tsakalotos virou docente 11a Universidade de Atenas.

O novo ministro difere do anterior em forma e conteúdo. Ao contrário de Varoufakis, que se proclama um"marxista errático", Tsakalotos – que também se define como marxista - é adepto da chamada "Nova Esquerda" Ou seja, como Tony Blair, nome mais reluzente da tendência, dispõe-se aparentemente a assumir compromissos com a realidade capitalista sem perder de vista seus objetivos sociais. Começou a militar no Partido Comunista da Grécia nos anos 1980 e se tornou um dos principais ativistas do Synaspismos — uma coalizão de esquerda fundada em 1991, que abarcava trotskistas, socialistas e verdes, e deu lugar, em 2013, ao Syriza, do atual primeiro-ministro, Alexis Tsipras. Desde o começo do Syriza, Tsakalotos é um de seus principais ideólogos, disposto a tudo para ajudar - até a ficar no caixa do souvlaki, um espetinho grego, nas festas para arrecadar fundos. Em 2012, foi eleito para o Parlamento grego. Antes de Varoufakis ser nomeado ministro das Finanças, Tsakalotos era o favorito para o cargo. Teve de se contentar com o posto de ministro adjunto de negócios estrangeiros e aguardou sua chance.

A paciência será uma virtude importante nas próximas rodadas de negociação — e a mudança no estilo é nítida. Na última quarta-feira, dia 8, depois de meses de impasse, Tsakalotos adotou um tom humilde e cumpriu a primeira condição para evitar a saída da Grécia da Zona do Euro: enviou o pedido para um terceiro programa de ajuda financeira. Atenas solicitou um resgate de € 50 bilhões, em troca de três concessões. A primeira é aceitar um programa completo de resgate, o que implica se submeter a revisões contínuas por parte do Eurogrupo. A segunda é a elevação do IVA (imposto sobre consumo) e uma reforma no sistema de aposentadorias a partir da semana que vem — um entrave nas negociações até agora. Por fim, Atenas deixou de pedir uma completa "reestruturação da dívida" e aceita discutir a questão até o fim do ano.

Ainda é pouco. Os gregos terão muito trabalho pela frente antes de dar fim ao período de tormento. E, qualquer que seja o desfecho dos acordos dos próximos dias, será amargo. Se houver algum tipo de acordo e a Grécia continuar no Euro, evita-se a catástrofe — mas persiste o problema da dívida dificílima de honrar, a pesar sobre uma economia já esmagada. Um novo empréstimo, como o pedido por Tsakalotos, inflará o montante da dívida para € 350 bilhões, quase o triplo do PIB.

O domingo, dia 12, foi fixado como um prazo para o acordo. Se não houver acordo, a saída da Grécia da Zona do Euro é uma opção concreta. O efeito afugentaria o investimento nos demais países europeus, uma vez que haverá maior insegurança sobre o futuro da moeda comum. Um estudo da firma de advocacia Baker & Mackenzie estima em US$ 1,4 trilhão o efeito da derrocada do euro na economia mundial. O problema econômico levaria a um problema político ainda maior. O euro sempre foi mais do que uma moeda: é a joia do projeto de unificação europeu. Uma eventual saída da Grécia poderia abrir a porteira para a fuga - ou expulsão - de outros endividados, como Portugal e Itália. Seria o fim prático da moeda comum de 19 países, fundamental para cimentar o projeto. A incerteza política aumentaria. O projeto de integração regional mais bem-sucedido do mundo ficaria rachado. Ganhariam voz nacionalistas e extremistas contrários à União Europeia em todo o continente. Como disse Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu; "Um fracasso será doloroso para o povo grego e pode ter um impacto geopolítico em toda a União Europeia. Quem pensar o contrário é ingênuo"

Os líderes europeus precisam encontrar rapidamente uma solução. Os sócios procuram uma fórmula para evitar o calote de uma dívida de € 3,3 bilhões que precisa ser paga ao Banco Central Europeu no próximo dia 20. A Grécia provavelmente se comprometerá com novas medidas (cortes ou reformas). Enquanto isso, a Europa deverá dar alguma segurança a bancos e instituições financeiras gregas que estejam no rumo do colapso, pela contínua fuga de capital.

Em uma tragédia grega clássica, problemas aparentemente insolúveis podem ser resolvidos pela entrada em cena de um elemento radicalmente novo, como um deus com poderes para consertar o que está errado. O recurso se chama de deus ex machina. É injusto depositar esse tipo de responsabilidade sobre um homem. Mas é o que se espera, agora, de Tsakalotos.