Folha de S. Paulo
Ataque a iranianos não tem sentido ou fins
claros, nem país era ameaça imediata
EUA trumpianos fazem extorsão e recorrem a
bombardeios negocistas e impensados pelo mundo
Israel matou
3% dos palestinos e avariou ou arruinou 80% das construções de
Gaza. Queria aniquilar o Hamas,
que ainda está lá, depois de mais de dois anos de
guerra e massacre. A situação política continua indefinida, embora o
Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) tenha decidido em
2025 que Gaza será até
o fim de 2027 governada por um "Conselho de Paz" comandado
por Donald Trump.
Ainda que falhe, mesmo barbarizando, a cúpula
de Israel costuma
saber o que faz ou quer. O que Trump quer no Irã? No discurso
em que declarou a guerra, aliás ilegal, afirmou que quer acabar
com o programa nuclear, mísseis balísticos e marinha do Irã. Que quer a queda
do regime, tarefa que terceirizou para os iranianos.
Quanto ao mais, Trump pegou gosto por bomba e
ameaças. De março a maio de 2025, atacou os houthis, do Iêmen (grupo apoiado
pelo Irã), que atacam Israel e navios. Em dezembro, bombardeou a Nigéria,
supostamente autorizado pelo governo nigeriano a atacar grupos islâmicos.
Desde 2025, afunda barcos de
"narcoterroristas" no Caribe e no Pacífico. Neste ano, foi a vez da
Síria. Estrangulou a Venezuela, sequestrou
Nicolás Maduro e mantém uma faca no pescoço da ditadura
chavista, a quem dá ordens. Ameaçou México e Colômbia com
ataques a "narcoterroristas". O próximo alvo é Cuba.
Trump quer dizer, enfim, que ninguém está
seguro. Imagina que pode obter "deals" (acordos e negócios) com
guerras em que americanos não morrem. O caso do Irã é mais enrolado.
O Irã é um país grande e ditadura enraizada,
com vários centros fortes de poder: aiatolás, Guarda Revolucionária,
tecnocracia e empresários que se dão bem no regime. Parte da população é
religiosa e, como a elite ideológica, avessa a "valores ocidentais" e
nacionalista. Apesar da revolta recente, não há oposição organizada. Os
aiatolás preferem matar e morrer a fazer concessões.
Vitórias decisivas, quando há vitórias, ou
rendições são mais e mais raras. Exigem destruição da força armada inimiga e da
infraestrutura; morte ou cooptação de elites do poder (desfazimento do Estado).
Os EUA fizeram algo assim no Iraque (2003), mas tiveram de invadir. O
"Ocidente" fez em parte isso na Líbia e na Síria, deixando caos e
barbárie, ou foi derrotado, como no Afeganistão.
Uma guerra decisiva toma tempo. No Oriente Médio,
pode causar danos a interesses ocidentais, como no petróleo, embora o risco
maior não se concretize desde 1979 (Revolução Iraniana). Apesar de tentativas,
nunca houve o famoso fechamento do estreito de Ormuz (por onde passa um quarto
do petróleo mundial transportado por mar).
Em 2019, um ataque de Irã e/ou houthis à
Arábia Saudita arruinou a produção de 5% do petróleo mundial. O preço do barril
subiu 15%, mas caiu no mês seguinte, pois os sauditas deram um jeito. Além do
mais, a economia do petróleo mudou, com mais produção nas Américas. Mas ainda
se trata de risco econômico, o mais temido por Trump.
A força militar do Irã vira pó com os ataques
de Israel e EUA. Os iranianos não têm amigos que lhes deem dinheiro ou apoio
militar (a Rússia é mui amiga, só). Ainda assim, não é difícil perder o
controle da situação no Oriente Médio.
Trump quer mandar no mundo e arrumar negócio para si e compadres por meio de extorsão e ameaça de tiro. Em alguns casos, no curto prazo, funciona, como na Venezuela, talvez em Cuba. O resultado geral é insegurança, fragmentação política mundial perigosa e rearmamento.
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