domingo, 1 de março de 2026

Acordões com gosto de pizza, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Até onde o Supremo Tribunal Federal vai se lambuzar com ‘pizzas’ mal assadas?

Brasília evolui, a olhos vistos, do surrado “toma lá, dá cá” para o “você me livra, eu te livro e todos nós nos livramos”. Um método se abastece do dinheiro público e o outro abusa das brechas que garantem a impunidade geral, mas ambos têm a ver com corrupção e mobilizam mundos e fundos, tudo e todos, em torno de “negociações”.

Na capital do País, “negociações” têm outros nomes ou expressões, costumeiros principalmente na boca e nas canetas de comentaristas, analistas e críticos. Um desses apelidos é “acordão”, outro é “vai dar em pizza” e o resultado é o mesmo: conversa-se muito e, no final, todos se acertam. Mas em ano eleitoral fica bem mais difícil.

Neste momento, há uma tentativa de “negociação” entre Supremo, Congresso e Planalto em torno de uma ampla e difusa pauta que passa por emendas parlamentares, penduricalhos nos três Poderes, os muitos tentáculos do Banco Master e o “dízimo” apartidário do INSS.

Com tantas frentes, as eleições vindo aí e a PF sem dó nem piedade, qualquer acordão ou pizza está complicado e o grito da moda é “salve-se quem puder”, ou melhor, “salvem quem puderem”. O que tem mais chance é o que une todos eles: os penduricalhos, que nós é que pagamos.

O Supremo despe a toga de salvador da Pátria e os ministros desfilam à paisana em gabinetes, reuniões, encontros, “negociações”, e os mais “políticos” entre eles nem sequer escondem o foco: agora é salvar o colega Dias Toffoli a qualquer custo.

Até o filho do presidente da República, o Lulinha, teve os sigilos bancário, fiscal e telemático quebrados, tanto pelo ministro André Mendonça, do STF, quanto pela CPMI do INSS. Entretanto, com a família Toffoli é diferente.

O mesmo Mendonça, que pôs as investigações do Master nos eixos, livrou os irmãos de Toffoli de depor na CPI do Crime Organizado e o decano Gilmar Mendes, com seu voluntarismo incurável, suspendeu as quebras de sigilo, não de Lulinha, mas da empresa dos Toffoli.

“Negociações”, “acordões” e “pizzas”, porém, seguem regras. Têm mão dupla, custo alto, e não podem valer para um lado só. Até onde o Supremo vai jogar tudo fora a favor de Toffoli, que já tem o processo legal, as armas de defesa e canais para explicar tudo ao distinto público?

Se há um “acordão” neste caso, é intramuros no Supremo, que, além de se lambuzar com uma “pizza” mal assada, fecha os olhos para os privilégios que Alexandre de Moraes usa em seu favor. A Corte, assim, adultera um velho grito de guerra para criar o “todos por uns e esses uns contra todos e a instituição”. E, afinal, Senado topa um acordão contra o impeachment de Toffoli? 

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