domingo, 1 de março de 2026

Trump sendo Trump, por Dorrit Harazim

O Globo

Ele embaralhou temas e falsas verdades, desconversou sobre os problemas reais da nação de 250 anos

Discursos do Estado da União fazem parte do rito anual de todo presidente dos Estados Unidos. Costumam ser longos e enfadonhos. Servem, em teoria, para o mandatário prestar contas ao Congresso sobre o que fez e pretende fazer. O desempenho de Donald Trump na noite de terça-feira foi um exercício de embevecimento fascista com a própria voz. Durante uma hora e 47 minutos, embaralhou temas e falsas verdades, desconversou sobre os problemas reais da nação de 250 anos e transformou o plenário do Capitólio em claque de auditório.

O Grande Comunicador sabia ter em mãos um trunfo que obliteraria a canseira dos presentes. Dois dias antes, o time masculino de hóquei no gelo derrotara o arqui-inimigo Canadá de forma espetacular em Milão-Cortina. Comemoravam o cobiçado ouro olímpico no vestiário da Arena Santagiulia quando Trump adentrou a festança pelo celular do diretor do FBI, Kash Patel, que atravessara o Atlântico para assistir à final:

— Inacreditável! Fantástico! Teremos o discurso do Estado da União na terça-feira. Posso mandar um avião militar ou qualquer outra coisa, se vocês quiserem. Vai ser a noite mais cool — convidou Trump no viva-voz.

Na gravação que se tornou pública, ouve-se um animado “estamos dentro” de alguém do grupo. O presidente, fiel a seus instintos mais enraizados, ainda acrescentou uma gracinha que deve ter achado espirituosíssima:

— Teremos de trazer também o time feminino, vocês sabem. [Senão] acredito que provavelmente sofrerei impeachment — acrescentou, gerando risos no vestiário em Milão.

O episódio diz montes sobre o que o ocupante da Casa Branca realmente pensa das duas condenações de impeachment que sofreu no primeiro mandato, mas foram rejeitadas pelo Senado. E abre um flanco a mais na baixa aprovação junto ao eleitorado feminino e ao voto independente. Três dias antes do ouro masculino, a equipe olímpica feminina dos Estados Unidos já havia eletrizado o país vencendo de virada, também na prorrogação, a sempre campeoníssima equipe do Canada. Na ocasião, não recebeu convite de Trump. Quando finalmente recebeu, declinou polidamente.

Em entrevista à ESPN americana, Hilary Knight, capitã da equipe vitoriosa, deu uma aula de civilidade. Com dois ouros e três pratas olímpicas na gaveta, foi serena e classuda nas respostas. Alertou sobre a situação difícil da equipe masculina diante da “vergonhosa piada” de Trump, sem minimizar o “momentâneo lapso de julgamento” dos colegas olímpicos:

— É uma pena que essa história ofusque a conexão e apoio mútuo que (as duas equipes) sempre mantiveram — disse a camisa 21.

Declarou-se orgulhosa da vitória masculina e lamentou as duas equipes não celebrarem em conjunto. De quebra, confirmou com alegria seu noivado com a patinadora de velocidade Brittany Bowe (mais de uma dezena de vezes medalhista em mundiais) e informou que a comemoração pela medalha terá local e data decididos pela equipe.

Da presença de Patel, ela certamente não sentiu falta em Milão. O vídeo que vazou do diretor do FBI na euforia do vestiário masculino — garrafa de cerveja numa mão e esmurrando a mesa com a outra — foi a versão real do que parece ser uma fantasia trumpista. Na rasteira do ouro de domingo, a página oficial de Trump publicou um meme dele dando as tacadas finais contra o Canadá e, ao final, esmurrando um dos jogadores adversários. O ideal olímpico da turma é MMA. Segundo explicações fornecidas a posteriori, Patel estava em missão ao embarcar para Milão num jato da Força Aérea: avaliar o papel do FBI na segurança dos atletas, reunir-se com seus pares italianos e ouvir o embaixador americano na Itália. Beleza. Só que chegou ao país faltando apenas três dias para o encerramento dos Jogos.

Não que lhe faltassem problemas agudos em casa. Na mesma semana de sua escapadela, um homem armado tentara invadir o resort de Trump em Mar-a-Lago e fora morto por agentes do Serviço Secreto; o Departamento de Estado emitira um alerta a cidadãos americanos para a onda de violência desencadeada no México pelos cartéis; o país acompanhava avidamente o misterioso sequestro da mãe de uma apresentadora de televisão, com o FBI tateando às cegas havia mais de três semanas. Sem falar no estado de combustão permanente implementado pelos agentes do ICE no país.

Em seu discurso no Congresso, Trump adotou um tom francamente mussoliniano ao anunciar a entrada da equipe olímpica:

— As pessoas me dizem o tempo todo, por favor, por favor, por favor, não aguentamos mais vencer todas; até o senhor chegar à Presidência, perdíamos todas... Então eu digo: “não, não, não”. Vamos continuar ganhando grande, vamos ganhar tudo. Estamos ganhando tanto que não sabemos mais o que fazer com tudo isso... e, para provar meu ponto, temos aqui esta noite o time que dá orgulho à nação toda.

A ala republicana se pôs de pé e, entre aplausos estrondosos, entoou “U-S-A, U-S-A”. Aos democratas, restou o silêncio envergonhado de não ter contido antes o Grande Comunicador.

 

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