Folha de S. Paulo
É que há muito tempo vivemos no
desencantamento do mundo, outro modo de falar do niilismo total
Uma rede depravada como a de Epstein é
reveladora porque ataca fragmentos de sacralidade humana
Numa mensagem ao potentado árabe Sultan Ahmed bin Salayem, delicia-se Jeffrey Epstein: "Adorei o vídeo de tortura". Apesar da repetição cansativa dos horrores nos arquivos Epstein, a cada página a magnitude da aberração ainda faz refletir. A frase tenebrosa sugere algo além de sexo stricto-sensu no círculo de depravação que, desde uma princesa norueguesa até um príncipe britânico, se fechou em torno de figuras notáveis do poder global.
Jean Baudrillard insistia na anedota do
devasso que pergunta sedutoramente à parceira: "O que você vai fazer
depois da bacanal?" A suposição normalizada é a da orgia como clímax
dionisíaco de um encontro sexual, mas na pergunta está implícito um
"além" não formulado.
É que há muito tempo vivemos no
desencantamento do mundo, outro modo de falar do niilismo total, que recobre
praticamente a todos. "As pessoas trabalham com mais eficácia, consomem
mais, comem com mais abundância e fazem amor com mais liberdade... mas o
trabalho perdeu o sentido, o sexo está perdendo o seu, e a alimentação torna-se
uma questão de higiene" (Raymond Ledrut, "La révolution
cachée").
Na destruição permanente de todos os valores
e de negação, por princípio, de qualquer legitimidade, o sexo perde de fato a
referência externa (até mesmo o imperativo biológico da reprodução) que o
sacraliza como encontro jubiloso de corpos por pressão do desejo. Não mais é
"moderno" associá-lo à subversão antivitoriana (Sigmund Freud) ou à liberdade revolucionária (Wilhelm
Reich).
Reduzido a relações contingentes, ele é uma
função biologicamente racionalizada e instrumentalizada pelo mercado. Jacques
Lacan, o psicanalista que fez furor e faz moda, era taxativo: "Não existe
a relação sexual".
Mas como é temerário conceitualizar ou
generalizar sobre a pulsão alheia, resta a hipótese de que tudo se limite a uma
variedade do niilismo intelectual, despercebido pelo senso comum ou pela
passividade da experiência cotidiana. Certo mesmo é que esse durável espírito
de destruição exprime plenamente a época atual em muitas formas ativas, a
exemplo do terrorismo.
Não o terror dos loucos de Deus, que buscam o
paraíso no martírio, no massacre de multidões ou na explosão dos símbolos
fortes de um poder. Mas o niilismo terrorista dos valores, com alvo fixo nas
vísceras da moralidade, o neofascismo dos ricos. De fato, acontece à nata de uma
elite bilionária transpirar aspectos insuspeitados da dimensão terrorista do
capital, onde neoliberalismo e neofascismo são duas faces de uma mesma moeda.
Uma rede depravada como a de Epstein é
reveladora porque ataca fragmentos de sacralidade humana ainda persistentes na
totalização niilista. Trata-se do corpo feminino, antes reverenciado da
puberdade à maternidade, agora temido pelo niilismo. De um lado, a ameaça do
tecnicismo biológico. De outro, pretexto erótico para o terrorismo da diferença
sexual (tortura, pornografia, humilhação) pela degradação do sexo e pela
corrupção de menores. Versão neoliberal da burca talibã. Nesse ecossistema
bestial fazem cadeia bilionários, gurus, Trump, Clinton, príncipe, princesa. O ex-príncipe
Andrew Mountbatten-Windsor, literalmente: a polícia já bateu na porta
e levou.

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