Folha de S. Paulo
Pactos de aperfeiçoamento não se realizam
porque há resistência para corrigir distorções nos três Poderes
De adiamento em adiamento, o fim das regalias
indevidas corre o risco de ficar para o dia de são nunca
A cada vez que os Poderes se reúnem para
combinar pactos de aperfeiçoamento nos respectivos comportamentos criam-se
expectativas que em geral não se realizam por completo. Acontece quando há
distorções a serem corrigidas, mas há resistências quase impossíveis de serem
vencidas.
Aconteceu assim com o acordo sobre as emendas parlamentares, firmado num encontro entre representantes do Judiciário, Executivo e Legislativo, em agosto de 2024.
Houve a imposição de entraves, mas o avanço
sobre o Orçamento continuou e os abusos se materializam nos
casos que frequentam o noticiário e nas dezenas de inquéritos em curso no Supremo
Tribunal Federal sobre desvio de recursos. O problema, portanto, segue
em aberto.
O caso dos penduricalhos salariais no serviço
público sinaliza repetir a trilha da postergação. Ao surto de moralização
provocado por um novo pacote de privilégios aprovado pelo Congresso, seguiu-se uma reunião de cúpula dos Poderes onde
se decidiu por criar uma "regra de transição".
Guardadas as proporções que ao fim da
malandragem conta com resistência bem maior, o espetáculo da leniência está de
volta à cena. Isso é o que se depreende do ensaio geral chamado de transição,
na qual caberia bem o codinome embromação.
Argumenta-se que o prazo até abril dado pelos
ministros Flávio
Dino e Gilmar Mendes para se pôr um fim na farra é exíguo.
Seria necessário dar um tempinho a mais aos afortunados ilegais, a fim de lhes
minorar o sofrimento de cumprir a Constituição.
Fala-se em dar seis meses, em adiar as providências para depois das eleições.
Alega-se que o Legislativo tem outras prioridades e que é preciso primeiro o
Executivo abraçar a causa.
O falatório, contudo, não esconde as
evidências de que as gambiarras salariais são tratadas como direitos adquiridos
e que a intenção é deixar o assunto esfriar na comodidade de um conveniente
grupo de trabalho. Quem sabe esse afã não arrefece até que se arrume um jeito
de propor mudanças para manter tudo mais ou menos como está?

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