O Globo
Sem força para derrotar proposta em ano
eleitoral, partidos pedem apoio a empresários para impedir votação
A direita decidiu cerrar fileiras contra o
fim da escala 6x1. Na semana que passou, três presidentes de partido atacaram a
ideia de mudar a lei para que todo trabalhador tenha direito a dois dias de
descanso por semana. As falas revelam mais sobre a mentalidade da turma do que
sobre o mérito da proposta.
O chefão do União Brasil, Antonio Rueda, definiu a mobilização como “um desatino”. “É muito danosa para a economia e o setor produtivo”, decretou, sem mencionar os trabalhadores. O dono do PL, Valdemar Costa Neto, disse que o fim da escala 6x1 seria “uma bomba” e se solidarizou com a classe dirigente: “Não é fácil para os empresários que já reclamam dos nossos impostos e tudo mais”.
Em jantar com endinheirados em São Paulo, os
dois políticos prometeram se empenhar para impedir a mudança. “A gente tem que
ter inteligência e segurar essa votação”, afirmou Rueda. “Vamos trabalhar para
não deixar votar. Vamos dar a vida para isso”, empolgou-se Valdemar, sob
aplausos da plateia.
Num acesso de sinceridade, a dupla admitiu
que a única forma segura de barrar a proposta é sabotar sua tramitação. “Se
puser em pauta, é muito difícil não passar”, reconheceu o dono do PL. “Se for a
plenário, vai ser avassaladora (a aprovação)”, emendou o capo do União Brasil.
Com a experiência de quem renunciou a dois
mandatos de deputado para não ser cassado, Valdemar avisou que o debate na
Comissão de Constituição e Justiça da Câmara será “uma guerra”. Faltou dizer
que do outro lado estarão trabalhadores desarmados, que não administram verbas
milionárias do fundo partidário e só vão a jantares de bacanas na condição de
garçons.
As vítimas da escala 6x1 costumam ralar muito
e receber pouco. Ganham a vida em ofícios como como balconista, caixa de
supermercado, motorista de ônibus, frentista e auxiliar de limpeza. Sem
perspectiva de melhorar a renda, esses trabalhadores passaram a sonhar com mais
tempo para descansar e conviver com a família. É uma demanda justa, mas há quem
prefira tratá-la com desprezo.
Em entrevista à Folha de S.Paulo, o
presidente do Republicanos, Marcos Pereira, declarou que “ócio demais faz mal”.
“A população vai fazer lazer onde? O povo não tem dinheiro, infelizmente. Vai
ficar mais exposto a drogas, a jogos de azar”, desdenhou. Deputado e bispo da
Igreja Universal, ele comanda o partido do presidente da Câmara, Hugo Motta, e
do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.
Desde que o tema entrou na pauta, nas
eleições de 2024, entidades patronais repetem previsões apocalípticas sobre o
fim da escala 6x1. Trombeteiam um futuro de quebradeira, demissões em massa e
derretimento do PIB. O terrorismo econômico não tem surtido efeito nas
pesquisas, o que talvez explique a mudança de discurso dos últimos dias.
No jantar com os grã-finos paulistas,
Valdemar conclamou o lobby empresarial a impor sua força em Brasília. “Temos
que trabalhar para não deixar votar de jeito nenhum. Pedir a pressão dos
empresários em cima de seus deputados”,
disse, enfatizando as quatro letras do pronome possessivo.

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