domingo, 1 de março de 2026

Objetivo desta vez é substituir o regime, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Incapacitado, Irã poderia conduzir guerra assimétrica, que incluiria ataques terroristas

O bombardeio lançado na manhã de ontem no Irã por Estados Unidos e Israel tem escopo fundamentalmente distinto daquele realizado na chamada “guerra dos 12 dias” em junho: desta vez, o objetivo não é apenas conter os programas nuclear e de mísseis iranianos, mas criar as condições para a população substituir o regime.

Trata-se de ameaça existencial, da óptica da teocracia em Teerã, à luz dos protestos de dezembro e janeiro, os mais contundentes desde a Revolução Islâmica de 1979, esmagados com o massacre de milhares de manifestantes. Os bombardeios visaram à decapitação do regime.

As agências estatais iranianas confirmaram a morte do líder espiritual, Ali Khamenei. O presidente Masoud Pezeshkian também foi alvo dos ataques.

DECISÃO TOMADA. De acordo com os mediadores de Omã, que adotam posição de isenção, as negociações rumo a um acordo nuclear estavam próximas de resultados significativos. Entretanto, como sugeri na minha coluna do domi ngopassado , Donald Trump já havia tomado a decisão de atacar.

No dia 19, o presidente americano declarou que esperaria entre 10 e 15 dias antes de se decidir sobre uma ação militar. Da mesma maneira que, dia 19 de junho, também uma quinta-feira, ele se deu duas semanas para decidir, e ordenou o bombardeio das instalações nucleares três dias depois. Trump não é imprevisível. Ele apenas segue padrões próprios.

A campanha de agora tem como objetivo também aniquilar a força naval iraniana, um dos principais vetores da deterrência do país, ao lado do arsenal de mísseis convencionais, pois permite a negação do acesso à sua costa e a ameaça de bloquear o Estreito de Ormuz, pelo qual transita um quinto do petróleo mundial.

A China vinha negociando o fornecimento ao Irã de mísseis antinavio hipersônicos, capazes de evadir as defesas dos grupos de batalha dos porta-aviões Gerald Ford, o maior do mundo, e Abraham Lincoln, mobilizados no Mediterrâneo para a campanha.

FUTURO DA GUARDA. Por outro lado, como também escrevi aqui há uma semana, por mais abrangente que seja a decapitação, não será suficiente para neutralizar o Corpo da Guarda Revolucionária Iraniana, uma força armada robusta e coesa, preparada para recompor a cadeia de comando, cuja principal função é defender o regime e oprimir o povo.

À medida que os bombardeios degradem a capacidade de ataque convencional do Irã, o país tem a capacidade, disposição e expertise de incursionar em uma guerra assimétrica, que provavelmente incluiria ataques terroristas. Os aliados dos EUA no Golfo, em especial Bahrein, cuja população é de maioria xiita, estão vulneráveis a campanhas de desestabilização de suas monarquias.

Os opositores i ranianos não estão armados para enfrentar o poder repressor do regime nem organizados e unidos para formar um novo governo. O cenário é de caos, no horizonte visível.

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