segunda-feira, 20 de abril de 2026

A semente do próximo Fidel, por Oliver Stuenkel*

O Estado de S. Paulo

Trump segue padrão histórico: período de nfluência americana seguido por reação nacionalista intensa

Tudo indica que Donald Trump buscará replicar em Cuba uma estratégia semelhante à que usou na Venezuela: quer transformar a ilha socialista em um país alinhado e submisso aos EUA, sem necessariamente alterar outros elementos centrais do sistema político. Isso pode envolver substituir o atual presidente, Miguel Diaz-Canel, por alternativa mais maleável.

Nos bastidores em Washington, fala-se que Trump está buscando uma espécie de “Delcy cubana”, em referência à líder venezuelana cuja permanência no poder depende, em grande medida, do apoio de Washington. Demandas de Trump incluem compensar cidadãos e empresas dos EUA por propriedades confiscadas após a revolução de 1959.

Independentemente de exigências específicas, porém, o plano mais amplo para Cuba é claro: tornar o país em um Estado cliente dos EUA – um país formalmente soberano, ma dependente na prática.

À primeira vista, isso representaria uma vitória estratégica para Washington. Afinal, significaria ampliar a influência americana no Caribe, reduzir o espaço de atuação de adversários como China e Rússia e reforçar a capacidade dos EUA de moldar os rumos políticos e econômicos da região – objetivo declarado na Estratégia de Segurança Nacional apresentada pelos EUA no fim do ano passado. Em um contexto de competição geopolítica crescente, sobretudo entre grandes potências, a tentação de garantir zonas de influência mais previsíveis é comum.

DEPENDÊNCIA. Há, porém, um problema estrutural nessa lógica. Governos que dependem de uma potência externa quase sempre enfrentam um déficit de legitimidade interna. Para muitos cidadãos, passam a ser vistos – frequentemente de forma justificada – como submissos a interesses estrangeiros. Esse tipo de percepção cria um ambiente político volátil, no qual a estabilidade depende menos de apoio popular e mais de sustentação externa.

A história de Cuba mostra que esse tipo de arranjo abre espaço para o surgimento de líderes com forte discurso nacionalista e antiamericano. São políticos que se apresentam como defensores da soberania, prometendo romper com a dependência externa, restaurar o orgulho nacional e “devolver o controle ao povo” – uma narrativa que encontra terreno fértil em sociedades onde a presença estrangeira é percebida como intrusiva ou humilhante.

Vale lembrar que, em 1959, Fidel Castro chegou ao poder após uma revolução alimentada pelo ressentimento contra a forte influência dos EUA nas décadas anteriores. A proximidade entre elites cubanas e interesses americanos, somada à percepção de desigualdade e perda de autonomia, ajudaram a criar as condições que tornaram a revolução possível. O nacionalismo, nesse contexto, emergiu como uma força mobilizadora poderosa.

Esse ressentimento tem raízes na fundação do Estado cubano. Quando Cuba se libertou do domínio espanhol, em 1898, após a Guerra Hispano-Americana, o preço da intervenção militar americana que selou o desfecho foi alto: a Emenda Platt, incorporada à constituição cubana de 1901, sob pressão de Washington, concedia aos EUA o direito de intervir na ilha e estabelecer bases militares, como Guantánamo.

RISCO. Cuba nasceu, portanto, formalmente independente, mas estruturalmente subordinada – e essa submissão plantou sementes de ressentimento que continuaram a germinar ao longo do século 20. Ou seja: uma estratégia pensada para aumentar o controle pode, no longo prazo, produzir o oposto. Ao tentar moldar o sistema político cubano de fora para dentro, Washington corre o risco de reacender dinâmicas históricas que já demonstraram sua capacidade de criar resistência.

Mesmo que uma liderança mais alinhada aos EUA consiga se consolidar no curto prazo e melhorar a situação econômica, sua sobrevivência dependerá de apoio externo, o que reforça o ciclo de fragilidade interna. Qualquer crise poderá ser reinterpretada como consequência da submissão a interesses estrangeiros, alimentando novas ondas de contestação.

Se esse for o caminho escolhido por Trump, há um risco real de que ele esteja apenas adicionando mais um capítulo a um padrão histórico recorrente: períodos de forte influência americana seguidos por reações nacionalistas intensas.

*Pesquisador do Carnegie Endowment, na Harvard Kennedy School, e professor de relações internacionais da FGV-SP

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