O Estado de S. Paulo
O petista não foi eleito por seu ‘discurso de esquerda’, mas pela rejeição do eleitor ao seu oponente
Há muito tempo a palavra “neoliberalismo” deixou de ser um conceito do campo econômico para se tornar um “palavrão intelectual”, como observou Rajesh Venugopal, professor da London School of Economics, no Reino Unido. Em artigo publicado em 2015, ele analisou o uso do termo, demonstrando como passou a servir a generalizações teóricas e à descrição de fenômenos sem conexão entre si. De uma delimitação do papel do Estado como regulador da atividade econômica, transformou-se em definição de atitudes políticas autoritárias, ou de imperialismo, ou de uma nova forma de exploração dos pobres pelos ricos, ou até mesmo de massificação de produtos culturais.
O presidente Lula e o PT sempre tiveram a
palavra “neoliberalismo” na ponta da língua quando precisavam de um bode
expiatório para um problema qualquer. O recurso se desgastou, mas não foi
abandonado. Em discurso realizado no último sábado, em Barcelona, na Espanha,
Lula fez uma espécie de autocrítica da esquerda global, uma tentativa de
encontrar explicações para a ascensão da direita antidemocrática em diversos
países do mundo, inclusive o Brasil. E a explicação que Lula encontrou é que a
esquerda se rendeu ao neoliberalismo. Pois é.
Segundo o presidente, “o progressismo não
conseguiu superar o pensamento econômico dominante” e seus representantes se
tornaram “gerentes das mazelas do neoliberalismo”.
“Governos de esquerda”, disse Lula, “ganham
as eleições com discurso de esquerda e praticam a austeridade”. E, de acordo
com ele, “abrem mão de políticas públicas em nome da governabilidade”.
São afirmações curiosas quando se relembra a
campanha presidencial de 2022, que resultou na vitória de Lula para um terceiro
mandato. O petista não foi eleito por seu “discurso de esquerda” ou por
apresentar um sólido programa de governo progressista, mas por ter sido o
candidato mais apto a capitalizar a rejeição ao seu oponente, o então presidente
Jair Bolsonaro. E mais: na apertada disputa de segundo turno, Lula contou com o
que chamava de “frente ampla” com forças de centro. Seu vice, Geraldo Alckmin,
é um ex-tucano e ex-adversário de urna.
A julgar pelas palavras de Lula em Barcelona, tudo isso foi um erro. “Sucumbimos à ortodoxia”, disse ele. “Nós nos tornamos o sistema. Por isso não surpreende agora que o outro lado se apresente como antissistema.” A frase transparece uma ponta de inveja do bolsonarismo. Para o PT, o discurso antissistema nunca funcionou para chegar ao Palácio do Planalto.

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