segunda-feira, 20 de abril de 2026

Inflação de 2028 tira folga do Copom, por Alex Ribeiro

Valor Econômico

Desancoragem das expectativas de inflação de longo prazo poderá limitar o tamanho do ciclo de corte de juros

O maior desafio do Banco Central na política monetária é a desancoragem das expectativas de inflação de longo prazo. Os sinais recentes não são bons: já houve piora nas projeções para 2028, que ficaram mais distantes da meta, e há indícios de que a tendência continuará.

É pouco provável que isso inviabilize o corte de juros que o Banco Central planeja na reunião da semana que vem, que o mercado aposta que será de 0,25 ponto percentual, para 14,5% ao ano. Mas poderá limitar o tamanho do ciclo de corte - ou seja, poderemos terminar o ano com uma taxa de juros mais alta do que teríamos com uma maior ancoragem das expectativas.

Quem colocou primeiro o foco nas expectativas de inflação para 2028 foi o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, mais para o começo do mês. Desde o início da guerra no Oriente Médio, o miolo das projeções dos analistas de mercado para a inflação em 2028 subiu de 3,5% para 3,6%, distanciando-se ainda mais do centro da meta, de 3%.

Em eventos paralelos à reunião do Fundo Monetário Internacional (FMI), o diretor de Assuntos Internacionais do BC, Paulo Picchetti, que acumula a área de Política Econômica, disse que o que preocupa não é apenas a alta da mediana. As projeções do mercado estão mais dispersas, num sinal de incerteza, e pendendo para cima, o que pode indicar uma tendência de piora.

As expectativas de inflação de longo prazo são fundamentais porque, no fim das contas, dão a margem de manobra para o Banco Central acomodar pelo menos uma parte do choque nos preços causado pela guerra sem ter que manter os juros ainda mais apertados.

Num evento do Itaú BBA, Picchetti disse que há um novo “regime” para a política monetária - ou seja, uma mudança na forma como as engrenagens econômicas funcionam - depois da pandemia, das guerras e do tarifaço. Nesse ambiente, argumentou, ficou mais estreita a margem de manobra para um banco central tratar uma alta da inflação como temporária.

A expectativa de inflação de longo prazo é justamente o termômetro que mede essa margem de manobra. Se ela sobe, significa que os agentes econômicos não entendem que o efeito da guerra sobre a inflação será temporário - e essa crença pode se tornar uma profecia autorrealizada.

O que não está claro, por enquanto, é por que os economistas consultados na pesquisa Focus de expectativas de mercado estão colocando uma gordura adicional nas projeções de inflação.

A hipótese mais provável é que, no fundo, o mercado não acredite que o Banco Central será bem-sucedido em garantir que o surto inflacionário associado à nova guerra será temporário. Esse é um problema de credibilidade - que, mesmo antes do conflito, não era plena.

Mesmo depois de o Banco Central elevar os juros a 15% ao ano, o maior patamar nominal em duas décadas, e mantê-los apertados por um período prolongado, as expectativas de inflação não convergiram para o centro da meta, de 3%. Muitos atribuem isso à política fiscal, que está fora do lugar há anos.

O próprio BC dá sinais de reconhecer esse limite. Começou a cortar os juros depois de obter alguma redução nas expectativas, mas antes de elas estarem ancoradas na meta. É como se dissesse que percorreu o caminho que estava ao seu alcance, mas não conseguiria transpor a barreira criada pela política fiscal.

Esse mesmo contexto parece estar influenciando a situação atual. Diante da guerra, o Banco Central reviu seu plano de voo. Cortou apenas 0,25 ponto percentual da taxa Selic em março, em vez de 0,5 ponto. Deve fazer mais um corte de 0,25 ponto. E tem dado sinais de que, se o cenário negativo persistir, revisará o orçamento do ciclo de baixa dos juros.

Isso não foi suficiente para impedir a alta das expectativas. Pode ser que o mercado ache que o Banco Central não fará o necessário para cumprir a meta. Ou pode ser apenas o reflexo da expectativa de uma deterioração adicional da política fiscal, com o presidente Lula acelerando gastos e o crédito em ano eleitoral.

Outra hipótese - que não exclui totalmente a anterior - é que o mercado esteja apenas incorporando aos preços os efeitos secundários dessa alta inflacionária da guerra. Sinais preliminares nas projeções de inflação de serviços apontam nessa direção.

A projeção central para a inflação de serviços em 2028 está estacionada em 4%, acima da inflação cheia esperada, de 3,5%. Isso sugere que, na visão do mercado, é mais difícil reduzir a inflação de serviços. Mais recentemente, como mostra um gráfico apresentado por Picchetti, essas expectativas começaram a pender para cima - um indicador antecedente de uma possível piora.

Ventos internacionais podem desempenhar papel importante na dinâmica da inflação de serviços. Em 2023, houve queda nos preços de bens industriais, numa normalização após o choque da pandemia. Isso contribuiu para a desaceleração da inflação de serviços no Brasil, abrindo caminho para um ciclo de distensão naquele período.

Seja qual for a explicação, o fato é que as expectativas de inflação para 2028 pioraram e podem continuar piorando - e isso afeta necessariamente a política monetária. Picchetti deu sinais de que vê um balanço de riscos para a inflação do lado negativo, ou seja, com riscos altistas superiores aos riscos baixistas. Ainda assim, por ora, não indica movimentos abruptos na sinalização da taxa básica.

 

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