Na dívida pública, Lula 3 repete Dilma
Por Folha de S. Paulo
Governo projeta passivo de 86% do PIB; sem
mudar política fiscal, país estará em risco de novo colapso
É enganoso o argumento de que EUA e Japão
possuem dívidas maiores; eles têm capacidade superior de crédito, e gastos com
juros são menores
Dada a mixórdia de artifícios contábeis
utilizados na apuração dos resultados do Tesouro Nacional ao longo dos últimos
anos, hoje o indicador mais claro e confiável para avaliar a política fiscal é
a evolução da dívida pública —e ela aponta um fracasso alarmante neste terceiro
mandato de Luiz Inácio Lula da
Silva (PT).
De acordo com as projeções do recém-divulgado projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), os passivos de União, estados e municípios atingirão o equivalente a 86% do Produto Interno Bruto em 2027. A cifra, se confirmada, mostrará alta de 14,3 pontos percentuais ante os 71,7% do PIB do final de 2022.
A escalada é similar à dos cinco anos
completos da também petista Dilma
Rousseff, a responsável pelo maior retrocesso econômico entre os
governos eleitos desde a redemocratização. Do final de 2010 ao de 2015, a
dívida pública saltou de 51,8% para 65,5% do PIB, ou 13,7 pontos.
Pelos novos cálculos do Fundo Monetário
Internacional, que seguem metodologia distinta, o endividamento governamental
brasileiro chegará a 100% do PIB no próximo ano. As projeções do Monitor Fiscal
do FMI ajudam
a dimensionar a gravidade da situação aqui e no mundo.
É enganoso o argumento, usado por defensores
de mais gasto público, de que países ricos têm dívidas bem maiores —de mais de
200% do PIB no Japão e
de 120% nos Estados
Unidos, por exemplo. Tais governos dispõem de moeda forte e
capacidade de crédito muito maior que a nossa, razões pelas quais seus gastos
com juros não
chegam aos pés dos 8% do PIB aqui registrados.
Numa comparação mais apropriada, os números
do Brasil destoam dos esperados em 2027 para a América Latina (74% do PIB) e o
conjunto dos emergentes (80%). Neste grupo, só a China (112,5%),
com as peculiaridades de ditadura comunista, tem quadro pior.
É também inútil culpar a taxa de juros
do Banco Central,
hoje em 14,75% ao ano, pela deterioração orçamentária. A Selic,
afinal, foi elevada a esse patamar sufocante devido ao imperativo de conter
a inflação impulsionada
pela alta descomunal das despesas da administração petista.
Nessa toada, a dívida crescerá até 2029,
pelas projeções do governo; o FMI, cujos cálculos vão até 2031, vê expansão
contínua. Enquanto esse ciclo não for interrompido, o país estará sob risco
crescente de uma crise de confiança capaz de paralisar investimentos, provocar
uma recessão e elevar a taxa de pobreza —como ocorreu sob Dilma.
É possível que as receitas do governo contem
com uma ajuda incerta e espúria do encarecimento do petróleo decorrente da
guerra no Oriente Médio.
O único caminho seguro, no entanto, é uma revisão drástica da política fiscal
na próxima administração, seja qual for o vencedor das eleições.
O atual arcabouço, que quando lançado previa
conter a dívida pública já neste mandato presidencial, há muito caiu em
descrédito.
A receita de Kast para o PIB chileno
Por Folha de S. Paulo
Novo governo passará por seu 1º teste com
pacote econômico, que visa reduzir gastos e carga tributária
Boa parte das medidas liberais atende a
promessas de campanha; disposição ao diálogo é o meio indicado para enfrentar
Congresso polarizado
Primeiro presidente de ultradireita do Chile desde
a redemocratização, José Antonio
Kast anunciou seu projeto para começar a reduzir os gastos
públicos e aliviar a carga tributária do setor produtivo. O pacote de
mais de 40 medidas visa, sobretudo, elevar a taxa de
crescimento econômico para 4% ao ano, ante 2,5% em 2025.
Os impactos efetivos sobre a população ainda
são incertos. Algumas medidas no setor social indicam atenção à oposição do
bloco de esquerda e à potencial resistência de segmentos de sua base de direita
na Câmara dos Deputados. A rejeição ao plano, mesmo parcial, marcará um mau
começo para o novo presidente.
Boa parte das medidas, de cunho liberal,
atende a promessas de campanha, que lhe garantiram
58% dos votos em dezembro.
Kast não oculta sua ambição de romper com o
ciclo da esquerda no Palácio de La Moneda. A convicção de que o crescimento
econômico se manteve distante de seu potencial —abaixo de 3% anuais na gestão
de Gabriel Boric—
está no alicerce do pacote.
Segundo estimativa do governo, 150 mil
empresas serão beneficiadas com a redução da alíquota do tributo sobre a renda,
de 27% para 23%, e de requisitos oficiais para investimentos produtivos,
sobretudo as licenças ambientais. O objetivo é agilizar cerca de US$ 16,3
bilhões em projetos hoje travados.
Para pequenas e médias empresas, o governo
subsidiará 10% dos salários pagos. A intenção é baixar a taxa de desemprego, em
torno de 8,5%, para 6,5% em 2030, além de impedir a escalada da informalidade,
situação em que estavam 26,8% dos trabalhadores no último trimestre do ano
passado, segundo o Instituto Nacional de Estatísticas.
O pacote também pretende reduzir o déficit
—relativamente pequeno, se comparado ao brasileiro, mas em trajetória de alta—
das contas públicas, que atingiu 2,8% do PIB em
2025, com o enxugamento dos gastos, a começar pelos ministérios, inclusive os
da área social. A iniciativa foi alvo de protestos em Santiago na sexta-feira
(17).
A oposição criticou o governo por abrir mão
de receitas, ao reduzir impostos e subvencionar empresas, enquanto corta os
gastos públicos de uma economia distante
de uma crise fiscal.
O pacote ainda não foi enviado ao Congresso.
Um teste de força polarizado entre a direita e a esquerda, porém, não resultará
em benefício aos chilenos. A disposição da gestão Kast em promover um debate
sensato sobre crescimento econômico sustentável é, desde já, a melhor opção.
Estatal de terras-raras é péssima ideia
Por O Globo
Exploração de minérios é estratégica e não
pode ser contaminada por debates ideológicos ultrapassados
Terras-raras são 17 minerais críticos usados
em turbinas de geração eólica, superímãs de motores elétricos e baterias, entre
outras aplicações críticas para a transição energética. O mercado mundial é
hoje dominado pela China,
onde se concentram exploração, beneficiamento e transformação de minério em
insumos industriais. O Brasil detém a segunda maior reserva do planeta, com 23%
das jazidas (perto de 22 milhões de toneladas), atrás apenas da chinesa, mas
responde por 1% da produção global. Num ano eleitoral, a polarização política
tomou conta do debate em torno de como aproveitar a oportunidade.
De um lado, aqueles que se identificam como
“nacionalistas” querem repetir a campanha “o petróleo é nosso” que resultou na
criação da Petrobras nos anos 1950 — pelo menos dois Projetos de Lei na Câmara,
ambos de partidos do governo Luiz Inácio Lula da Silva, criam uma “Terrabras” para
explorar terras-raras. De outro, aqueles pejorativamente qualificados pelo
governo como “entreguistas”, vinculados à oposição, veem na iniciativa um
movimento alinhado aos interesses da China e preferem explorar as jazidas em
associação com os Estados Unidos —
como sugeriu em março o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro,
na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), no Texas.
A repetição de estereótipos, porém, traduz
uma visão simplista e equivocada do tema. Basta lembrar que a própria Petrobras
só conseguiu ampliar a produção brasileira graças aos contratos de risco em que
se associava à iniciativa privada — e que a autossuficiência só veio com a
abertura do mercado de exploração à competição estrangeira.
Algo semelhante precisa acontecer na
exploração das terras-raras. O Brasil não precisa escolher entre os Estados
Unidos, que dominam alguma tecnologia de refino, e a China, seu maior parceiro
comercial. Deveria continuar com a postura estratégica de não alinhamento
automático, sem desconsiderar a longa história de relacionamento e afinidades
com os americanos ou desprezar os benefícios que pode obter na proximidade com
a China. É preciso, como diz nota do Instituto Brasileiro de Mineração,
“construir uma política que amplie a presença do Brasil no mercado global de
minerais críticos sem repetir modelos cujos limites já são conhecidos”.
Uma vantagem em relação ao petróleo é que o
país conta com reservas conhecidas, e diversos grupos privados estrangeiros já
atuam no setor. Um consórcio chinês detém 15% da CBMM, empresa de Araxá (MG)
que domina o mercado de nióbio no planeta. No campo específico das
terras-raras, as chinesas Shenghe e CNMC também fecharam parcerias para
exploração no Brasil. Mas a principal operação comercial, apenas com
beneficiamento inicial, tem sido feita pela Serra Verde Pesquisa e Mineração,em
Minaçu (GO). No núcleo de controle da empresa estão dois fundos americanos, e o
projeto conta também com um fundo canadense.
É positivo que o setor tenha múltiplas
conexões externas. Falta estabelecer políticas para que o Brasil adquira
competências de refino e beneficiamento dos minerais, com o objetivo de que
eles sejam a base de uma indústria diversificada. É na regulação que os
parlamentares devem se concentrar, não na criação de novas estatais. Não se
deve perder tempo com debates ideológicos improdutivos e ultrapassados.
Detrans deveriam cumprir lei que exige exame
toxicológico na CNH
Por O Globo
Regra entrou em vigor em dezembro, mas 560
mil habilitações foram emitidas sem respeitá-la
A lei que exige exame toxicológico na
obtenção da primeira Carteira Nacional de Habilitação (CNH) para carros e
motos — categorias A e B — entrou em vigor em 9 de dezembro. Mesmo assim,
diversos Departamentos de Trânsito (Detrans) não têm cumprido a exigência, pois
o governo argumenta que são necessárias normas complementares. Com isso,
cria-se insegurança jurídica. Desde a publicação da lei, mais de 560 mil CNHs
foram concedidas sem que os novos motoristas tenham sido obrigados a fazer o
teste. Não se sabe se, diante da exigência legal, elas terão validade.
O exame toxicológico é considerado um dos
instrumentos mais rigorosos de detecção de drogas. Analisa amostras de cabelo,
pelos corporais ou unhas. Com isso, é capaz de detectar o consumo de
substâncias psicoativas até 90 dias antes da coleta. Se o laudo for positivo, a
habilitação é suspensa por três meses, com direito à contraprova feita numa
amostra armazenada. Entre as drogas mais usadas ao volante, destacam-se as
anfetaminas, também chamadas de “rebite”, para manter o motorista acordado,
dirigindo horas seguidas sem descanso. O risco de acidentes é grande, pois
podem provocar apagões de consciência, com perda de controle do veículo. Há
também registros de uso de maconha, cocaína ou opiáceos, que dão sensação de
prazer, mas causam sonolência e perda de reflexos — condição fatal ao volante.
O exame toxicológico é exigido de motoristas
profissionais — categorias C, D, E — desde 2016, mesmo na renovação da CNH. A
exigência resultou em queda no número de acidentes logo no ano seguinte, de
acordo com análise da Polícia Rodoviária Federal e do SOS Estradas, programa de
segurança nas rodovias. Na comparação com 2015, os acidentes envolvendo
caminhões caíram 34%, com ônibus 45%, com veículos pesados 36%. Considerando
todos os acidentes com motoristas profissionais, a queda foi de 27%. De acordo
com o SOS Estradas, entre 2016 e 2019, os flagrantes de condutores de
caminhões, carretas e ônibus em fiscalização de rotina caíram 60%.
Tais resultados tornaram o modelo brasileiro
de identificação do uso de drogas uma referência em segurança viária. Por isso
a exigência do exame toxicológico no caso de motoristas não profissionais foi
incluída no Projeto de Lei que criou a CNH Social — do então deputado José
Guimarães (PT-CE). Depois foi vetada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva,
em seguida restaurada com a derrubada do veto no Congresso. Hoje ministro de
Relações Institucionais, Guimarães tem instruído os Detrans a esperar normas complementares.
Novos motoristas têm sido aconselhados a fazer os testes e guardar o laudo
negativo para evitar dissabores.
É verdade que ainda não há, para motoristas comuns, a mesma evidência de êxito da exigência que existe para os profissionais. Mesmo assim o certo seria, diante da atual insegurança jurídica e de toda a experiência acumulada no tema, o governo apenas mandar seguir a lei, resultante de debates que seguiram o processo democrático.
Como as civilizações morrem
Por O Estado de S. Paulo
Há valores que não dependem de ideologia. Há
linhas que não podem ser cruzadas. Entre as bravatas de Trump e advertências do
papa, estão em jogo os pilares que sustentam a civilização
No auge da escalada contra o Irã, entre
insultos e expletivos, o presidente dos Estados Unidos jurou: “Uma civilização
inteira morrerá esta noite”. O mundo reagiu como aprendeu a reagir: um
sobressalto, alguma descrença e – após o recuo – cansaço. Já se ouviu demais.
Mas certas palavras não envelhecem. Sobretudo quando saem da boca de quem pode
cumpri-las.
Há guerras inevitáveis. Há adversários que
precisam ser combatidos. A teocracia iraniana – totalitária, repressiva,
terrorista – não merece indulgência. Não se pode ignorar suas ameaças
nucleares. Mas a barbárie deve ser subjugada, não imitada. Quem destrói os
limites morais na guerra hoje compromete a paz que se quer amanhã. A Alemanha e
o Japão do pós-1945 não foram reerguidos sobre ruínas éticas.
Ao acusar a ameaça de Donald Trump de
“inaceitável”, o papa Leão XIV invocou a fronteira moral construída ao longo de
séculos para conter o impulso mais satânico das guerras: transformar tudo em
alvo. Sua denúncia está escorada por um arsenal doutrinário milenar: a
violência pode ser necessária, mas nunca ilimitada; a justiça da causa não
justifica qualquer meio; civis não são alvos. A Igreja não proíbe a guerra,
proíbe a barbárie.
A represália de Trump diz tanto quanto o
episódio original. Ele já havia manipulado uma imagem de si como pontífice.
Agora, publicou outra como um Cristo kitsch meio
vingador, meio curandeiro. Ante a indignação popular, apagou o post – era para
ser um “médico”, disse. À blasfêmia seguiu-se a desonestidade. A linguagem
vulgar e a sagrada se mesclam para causar “sensação”, promover idolatria
política, justificar a brutalidade. Numa estética que mistura poder, sectarismo
e espetáculo, a guerra vira palco; a política, encenação; o mundo inteiro,
plateia.
Há quem veja nisso só provocação, um cálculo
para dominar o debate, testar limites, impor ritmo. Pode ser. Também pode ser
que seus delírios de onipotência já não conheçam limites. Ambas as hipóteses
são perturbadoras. Quem foi ferida de morte com a ameaça de aniquilação de uma
civilização foi a civilização americana. Quem é desmoralizado com as tentativas
de desmoralizar o papa é o governo americano. Os traços psíquicos de Trump –
impulsividade, narcisismo, inconsistência – estão sendo institucionalizados. A
consequência é a deterioração não só moral, mas cognitiva do Estado – a
incapacidade sistêmica de operar com coerência, racionalidade e lucidez.
Sempre que a política se investe de uma
missão messiânica, se desumaniza. Leão XIV buscou restaurá-la, não como ator
político, mas como voz moral que insiste em lembrar que há coisas que não se
dizem – e, sobretudo, não se fazem.
É uma longa história. No Getsêmani, Pedro, o
primeiro papa, retaliou com a espada uma ameaça real a um bem real, e foi
repreendido pelo mestre que buscava defender – mesmo quando a causa é justa,
nem todo meio é permitido. Em Canossa, o poder imperial foi obrigado a se
curvar ao poder espiritual. Stalin ironizou: “Quantas divisões tem o papa?”.
Décadas depois, João Paulo II pisaria na Polônia com uma mensagem singela: “Não
tenham medo”. Não havia divisões ali, só uma força invisível que não se mede em
tanques, mas poderosa o bastante para desintegrar impérios, como o soviético.
Quem despreza limites morais costuma
subestimar esse tipo de força. Toda a potência da nação americana veio de sua
submissão a ela, desde a visão dos pais peregrinos da “Cidade na Colina” como
farol moral para o mundo, não por sua superioridade, mas por sua
responsabilidade, passando pela consagração da dignidade individual e do
império da lei pelos pais fundadores na Declaração de Independência e na
Constituição, até o protagonismo na forja da Declaração dos Direitos Humanos e
da ordem baseada em regras após as guerras mundiais. Nunca foi uma trajetória
imaculada. Houve contradições, abusos, hipocrisia. Ainda assim, havia um
projeto moral reconhecível: o poder precisava se justificar.
Foi essa tradição que o papa americano
invocou. É essa tradição que o presidente americano está estrangulando.
O fetiche de Lula com o pobre
Por O Estado de S. Paulo
Preso ao passado sindical e ao envelhecido
repertório da luta de classes, Lula ignora a complexidade social do País,
desconsidera as classes médias e cristaliza a pobreza que tenta combater
Há no imaginário político do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva uma figura central que organiza o discurso, orienta a ação
e condiciona a própria visão de país: o pobre. Longe de ser apenas uma
prioridade social legítima e necessária, como deve ser para qualquer governo
responsável, trata-se de um eixo quase exclusivo – um fetiche político forjado
na tradição sindical e no já empoeirado repertório da luta de classes que molda
o pensamento lulopetista. Ao longo de décadas, esse enfoque tornou-se não
apenas uma marca identitária, mas também uma limitação analítica e estratégica.
O primeiro problema desse enquadramento é sua
incapacidade de enxergar o Brasil em sua complexidade. Ao reduzir o País a uma
dicotomia simplista entre pobres e ricos, o lulopetismo negligencia segmentos
decisivos da sociedade, em especial as classes médias. Esse é justamente o
grupo que sustenta boa parte da arrecadação, do dinamismo econômico e da
estabilidade institucional, mas que permanece praticamente à margem das
preocupações de seu governo e, o mais grave, é frequentemente ignorado no rol
de atenções retóricas e práticas das gestões do PT.
O fato de Lula e seus companheiros, que
ocuparam o poder em 17 anos dos últimos 23 anos, não adotarem lentes mais amplas
para enxergar o País constitui um equívoco político que cobra seu preço em
forma de desalinhamento e frustração. Essa limitação ajuda a explicar parte das
dificuldades do presidente em arregimentar apoio popular mais amplo à sua,
digamos, obra política neste mandato.
Mas o problema vai além de uma divisão que
deixaria apenas as classes médias à margem. Essa visão também é desabonada pela
própria desconfiança daqueles que recebem a atenção preferencial do governo.
Esse é o segundo aspecto, mais sutil e igualmente problemático: a concepção de
pobreza implícita nesse discurso. Ao tratar o pobre como sujeito passivo de
políticas públicas – alguém a ser protegido, assistido e permanentemente
identificado por sua condição –, o governo desconsidera uma dimensão elementar
da experiência humana: ninguém deseja ser pobre. O pobre brasileiro não quer
ser definido por sua carência nem reduzido a estatísticas ou categorias
administrativas. Quer ascender, prosperar, melhorar de vida. Enquanto isso, o
lulopetismo cristaliza uma condição que, por definição, deveria ser
transitória.
Há ainda um terceiro ponto, que expõe a
defasagem desse modelo. O Brasil mudou – e, em parte, mudou também graças a
políticas públicas que contribuíram para a redução da pobreza ao longo dos anos,
mérito que não se pode negar a Lula. O País deixou o Mapa da Fome da FAO, a
agência da ONU dedicada ao combate à fome. Houve avanços na renda e uma
mobilidade social que, ainda que irregular, ampliou o contingente de
brasileiros inseridos em padrões de consumo e aspirações típicos das classes
médias. Dados recentes indicam que, em um ano, 8,6 milhões deixaram a linha da
pobreza, e outros 1,9 milhão saíram da condição da pobreza extrema. Ainda
assim, persistem desafios expressivos. Afinal, cerca de 23% da população ainda
vive com até R$ 694 por mês, a linha de pobreza definida pelo Banco Mundial.
Esses números revelam uma realidade
ambivalente: houve progresso, mas o problema está longe de ser resolvido. O
erro do lulopetismo está em interpretar esse quadro como justificativa para
insistir no seu pensamento rupestre, e não como um convite à atualização de
suas premissas. Ao fazê-lo, ignora que parte significativa da população já não
se reconhece nessa categoria. E, o mais importante, não deseja ser reconhecida
por ela.
O Brasil de hoje é mais urbano, mais
conectado, mais heterogêneo e mais aspiracional do que aquele que deu origem ao
imaginário político de Lula. A insistência em um vocabulário e em práticas
ancoradas no passado revela, mais do que apego ideológico, uma dificuldade
crônica de compreender as transformações sociais em curso.
Assim, Lula não só limita o alcance de seu
governo como perde a oportunidade de liderar um projeto nacional mais amplo,
que incorpore as múltiplas camadas da sociedade brasileira. O resultado é um
país que se move, ainda que lentamente, enquanto um de seus principais líderes
políticos permanece preso a uma visão que já não dá conta de explicá-lo –
tampouco de conduzi-lo.
Arbritariedade
Por O Estado de S. Paulo
Lista de trabalho escravo, em si mesmo problemática,
é desmoralizada pelo ministro do Trabalho
A recente divulgação da lista de empresas que
respondem a processo administrativo sob suspeita de submeter trabalhadores a
condições análogas à escravidão no Brasil deflagrou uma guerra entre o ministro
do Trabalho, Luiz Marinho, e representantes dos auditores fiscais do Trabalho.
Sindicalistas acusam publicamente o integrante do governo de Luiz Inácio Lula
da Silva de perseguir servidores públicos e de favorecer empresas amigas. Seja
lá qual for a real motivação do entrevero, a chamada “lista suja” atravessa uma
crise de credibilidade sem precedentes.
Não é de hoje que a lista é alvo de polêmica.
Há anos, empresas questionam a interpretação expansiva dada por auditores
fiscais do trabalho a alegadas violações de direitos humanos, que,
infelizmente, ainda ocorrem no Brasil, tanto em regiões remotas como em centros
urbanos. Sem dúvida, é dever do Estado combater toda e qualquer forma de
trabalho degradante, mas é também dever do Estado assegurar às empresas a
presunção de inocência, o devido processo legal, o contraditório e a ampla
defesa.
A recente disputa entre Marinho e os
auditores fiscais mostra que há algo de errado na elaboração e na divulgação da
lista. O atual imbróglio envolve uma suposta atuação do ministro em favor dos
interesses da montadora chinesa BYD. A empresa foi alvo de uma operação no
canteiro de obras da fábrica de Camaçari (BA) – um reduto eleitoral do PT.
Fiscais disseram ter encontrado mais de 150 trabalhadores chineses em condições
análogas à escravidão. A BYD foi incluída na lista divulgada no dia 6 de abril
e, dois dias depois, a Justiça mandou excluí-la.
Sem entrar no mérito da operação ou da
inclusão da montadora na lista, o caso parece mal conduzido por Marinho. O
ministro achou por bem não só puxar para si o processo administrativo da BYD
como decidiu exonerar, no dia 13, o seu secretário de Inspeção do Trabalho,
Luiz Felipe Brandão de Mello. Não se pode condenar os auditores por verem na
decisão do ministro uma retaliação.
Não é a primeira vez que pairam suspeitas
sobre a forma de Marinho conduzir controvérsias na sua pasta: no ano passado,
fiscais já haviam se queixado de uma suposta interferência do ministro em favor
da JBS e também de dar uma mãozinha a uma associação ligada ao PT. Tantas
suspeitas sugerem desrespeito ao princípio da impessoalidade. É de questionar
se Marinho é tão zeloso assim com todas as empresas da lista.
Uma coisa é certa: tudo isso desmoraliza um instrumento criado há duas décadas com a nobre missão de combater a degradação do trabalho no Brasil. Está mais do que evidente que o rigor técnico, se algum dia existiu, cedeu lugar à politização e à arbitrariedade. Enquanto isso, muitas empresas têm sua reputação manchada ao serem incluídas numa lista na qual ficarão por dois anos. O direito a um processo justo deveria ser assegurado a todos, e não apenas aos amigos do rei.
Guerra contra o Irã expõe isolamento de Trump
Por Valor Econômico
O presidente dos EUA tem alienado os aliados
ao levar para a política externa uma visão de soma zero, no qual, para um lado
ganhar, o outro tem de perder
Donald Trump nunca teve muitos amigos entre
os líderes globais. A sua personalidade e algumas de suas políticas despertam
ampla rejeição de governantes de vários países. Alguns deles buscaram cultivar
uma aparente proximidade com o presidente americano, movidos por distintos
interesses, políticos, econômicos ou de segurança. A guerra no Irã, porém, está
fazendo Trump perder até mesmo parte dessas poucas relações de conveniência. O
líder do país mais poderoso do mundo nunca esteve tão isolado.
Esse isolamento ficou evidente na questão do
bloqueio do estreito de Ormuz pelo Irã. Trump pediu ajuda aos principais
aliados dos EUA para tentar reabrir a principal via marítima do Oriente Médio,
por onde costumavam passar 20% do petróleo e do gás natural consumidos
diariamente no planeta. Ninguém respondeu ao apelo. Quando Trump anunciou, há
dez dias, a intenção de bloquear os portos iranianos, afirmou que outros países
participariam da operação. Novamente, ninguém apareceu.
Trump nunca respeitou aliados. Aliás, o termo
aliado mal se aplica à sua visão de mundo. Aliado significa estar junto, estar
ligado por um interesse comum maior. É uma relação ética de compromisso a
priori, fundamental, que independe de eventuais discordâncias em questões
corriqueiras. Com Trump, porém, nada é perene, tudo é transacional e imediato.
Os arranjos mudam de acordo com a conveniência do momento. Ele parece ter uma
visão da vida como um jogo de soma zero, no qual, para um lado ganhar, o outro
tem de perder. Ele levou esse padrão para a política externa americana.
Foi assim que Trump rifou a relação mais
umbilical dos EUA. Ao insistir na proposta estapafúrdia de anexar o Canadá e ao
seguidamente humilhar o ex-premiê canadense Justin Trudeau, o presidente
conseguiu alienar um dos mais aliados mais fiéis e importantes de Washington.
Questões parecidas, como a ideia de tomar a Groenlândia e a fixação em impor
tarifas comerciais, consolidaram a sua imagem de um líder irascível e não
confiável.
Ainda assim, seja por alinhamento político ou
por necessidade, os líderes de alguns países tentaram criar e manter uma
relativa proximidade com o presidente americano. Hoje, após um mês e meio de
guerra no Irã, mesmo essas poucas relações mais próximas, algumas até pessoais,
estão ameaçadas. É o caso do Reino Unido, onde o premiê Keir Starmer buscou preservar
o que os britânicos chamam de “relação especial” com os EUA. O país foi o
primeiro a fechar um acordo comercial com Washington, logo após o tarifaço,
dando uma importante vitória política a Trump. Mas a guerra no Oriente Médio
expôs uma relação nada especial. Starmer vetou o uso de uma base aérea
britânica para ações de ataque contra o Irã e recusou o pedido de ajuda para
reabrir Ormuz. Trump respondeu que a Marinha britânica tinha navios velhos e
que seus dois porta-aviões eram “brinquedos” se comparados aos americanos;
depois ameaçou romper o acordo comercial recém-assinado.
A divergência com a premiê italiana, Giorgia
Meloni, foi mais inesperada, pois a afinidade ideológica os aproximou desde
cedo. A premiê italiana se apresentou inicialmente como uma ponte entre a
Europa e os EUA, como uma interlocutora privilegiada da Casa Branca. Tudo isso
ruiu neste mês. Meloni também ignorou os apelos de ajuda de Trump e defendeu o
papa Leão 14 das críticas do presidente, que chamou de “inaceitáveis”. Logo em
seguida, Trump disse estar “chocado”.
Em abril de 2025, Trump recebeu o príncipe
herdeiro saudita, Mohammad bin Salman, com pompa e circunstância na Casa
Branca. O príncipe é o governante de fato da Arábia Saudita, país para onde
Trump fez a primeira viagem oficial nos seus dois mandatos presidenciais. Nas
últimas semanas, porém, essa relação deu sinais de desgaste. A Arábia Saudita
vem sendo muito prejudicada pela guerra e tem vazado insatisfação com a
possibilidade de os EUA fecharem um acordo com o Irã que seja desfavorável para
os sauditas.
A guerra abalou ainda a Otan, a aliança
militar ocidental, liderada pelos EUA. Trump disse que a Otan cometeu um “erro
tolo” ao não apoiá-lo no Irã e que a organização é “inútil”, e ameaçou “um
futuro muito ruim” para a aliança. Ele fez críticas similares à Austrália, ao
Japão e à Coreia do Sul. Mesmo países tradicionalmente alinhados com
Washington, como a Polônia, estão criticando a liderança americana. O
presidente do Parlamento polonês chamou Trump de “líder do caos”.
A derrota eleitoral do premiê húngaro, Viktor
Orbán, um ícone da direita nacionalista, também ajudou a azedar a relação de
Trump com partidos de ultradireita na Europa. Esses partidos temem que a
proximidade com o presidente americano os prejudique eleitoralmente, como pode
ter acontecido com Orbán, e já estão se distanciando da Casa Branca, num
momento em que Trump e os EUA são muito impopulares na Europa.
Esse isolamento crescente do presidente americano é ruim para os EUA e para o mundo. A colaboração entre os países ainda é o principal mecanismo de solução de problemas globais.
A inércia diante do colapso climático
Por Correio Braziliense
Há um descompasso fatal entre o ritmo
acelerado da devastação climática e a lentidão deliberada das decisões
políticas
O ano de 2025 entrou para a história com uma
estatística alarmante: a temperatura global atingiu a marca de 1,43°C acima dos
níveis pré-industriais, consolidando a assustadora sequência dos 11 anos mais
quentes já registrados. O balanço, divulgado pela Organização Meteorológica
Mundial (WMO) e endossado pelas Nações Unidas, não deixa margem para
eufemismos: o planeta ultrapassou seus limites e encontra-se em estado de
emergência máxima. No entanto, enquanto os cientistas empilham evidências
irrefutáveis de um colapso em curso, os governos continuam a responder com uma
inércia diplomática que já ultrapassou a fronteira da irresponsabilidade.
Os dados apresentados não são projeções teóricas
para o próximo século, e, sim, a autópsia de uma tragédia presente. O
desequilíbrio energético da Terra chegou a um nível crítico. Nossos oceanos,
que absorvem 91% do excesso de calor gerado pelas emissões de carbono,
atingiram as temperaturas mais altas desde o início das medições. O impacto
dessa anomalia deixou de ser uma preocupação restrita a biólogos marinhos ou
pesquisadores para se materializar no cotidiano das sociedades: secas
implacáveis, cidades submersas por enchentes, quebras de safra e um custo
econômico na casa dos bilhões. Pior ainda, a crise já ameaça a vida e a
subsistência de mais de 1,2 bilhão de trabalhadores — um terço da força de
trabalho global -, expostos a riscos severos sob o calor extremo.
Apesar da clareza absoluta desse cenário, a
reação da comunidade internacional permanece presa a uma letargia burocrática
injustificável. Há um descompasso fatal entre o ritmo acelerado da devastação
climática e a lentidão deliberada das decisões políticas. As potências globais
continuam tratando a dependência dos combustíveis fósseis como um vício do qual
pretendem se curar aos poucos, sem pressa, enquanto organizam cúpulas anuais que
produzem discursos inflamados, mas pouquíssima ação vinculante. A transição
energética, que já deveria estar operando em regime de economia de guerra,
segue refém do lobby fóssil e da miopia dos ciclos eleitorais.
O custo desse vício não se mede apenas pelo
aumento da temperatura, mas também com instabilidade geopolítica e violência. A
dependência crônica dos combustíveis fósseis continua sendo o motor central de
conflitos armados ao redor do mundo, como evidencia a atual e perigosa escalada
militar entre os Estados Unidos e o Irã, motivada, principalmente, pelo fluxo
de petrodólares no Estreito de Ormuz. Ao insistir em preservar essa matriz
energética a qualquer preço, o mundo não apenas acelera o próprio colapso
ambiental, mas escolhe perpetuar a guerra como ferramenta de manutenção de um
status quo insustentável.
A ciência vem fazendo sua parte. Ela entregou
os diagnósticos precisos, mapeou os danos e indicou as soluções. Mas os alertas
se empilham sem que nada de concreto seja realizado. A inação atual, portanto,
não é fruto de ignorância técnica, mas de uma covardia política
institucionalizada.
Chegamos a um limite. Assistimos, com gráficos atualizados em tempo real, à destruição das bases que sustentam a nossa própria existência, enquanto líderes globais hesitam em cortar o mal pela raiz. Diante da falência das promessas e do acúmulo de tragédias simultâneas, impõe-se a pergunta definitiva a quem detém o poder de decisão: se a perda de milhares de vidas, o caos econômico e a perspectiva de um planeta inabitável não são suficientes para provocar uma guinada radical, o que mais precisará acontecer para que a humanidade decida, de uma vez por todas, se salvar?
Sangria dos açudes é esperança para o Ceará
Por O Povo (CE)
O cearense do Interior sabe do êxtase que é
esperar "a parede molhar" como um sinal de esperança e de boas
perspectivas
Uma notícia animou os cearenses na semana que
passou. Numa terra em que a chuva é bem-vinda, comemorou-se a sangria do segundo maior reservatório do Ceará, o açude
Orós. Localizada na Bacia do Alto Jaguaribe, a barragem registrou volume de
88,93% da capacidade total na terça-feira (14/4) e alcançou o seu máximo na
manhã de quarta (15/4), conforme os dados do Portal Hidrológico do Ceará, da
Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme).
Ainda na noite de terça-feira, a Prefeitura de Orós publicou imagens mostrando a água que
vertia, aos poucos, pela parede do reservatório. O cearense do Interior sabe do
êxtase que é esperar "a parede molhar" como um sinal de esperança e
de boas perspectivas. Pelas redes sociais, a gestão municipal festejou o
momento: "O açude sangrou nesta quarta-feira 15 de abril, trazendo
alegria, esperança e renovação para o nosso povo".
Assim, ao longo de todo o primeiro dia da
sangria, moradores e demais visitantes foram conferir de perto as águas que
jorravam. Era dia de festa e, sobretudo, de lembrar que o abastecimento de
água estava garantido por alguns meses e que a agricultura e a indústria
se beneficiariam também do volume atingido de água.
O Orós tem a capacidade máxima de 1,94 bilhão
de metros cúbicos (m³) de água e atua no abastecimento de cidades do Jaguaribe
e, pontualmente, da Região Metropolitana de Fortaleza (RMF). Nomeado como Barragem
Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, foi construído em 1962 pelo Dnocs
e apresenta múltiplos usos, como a perenização do rio, a irrigação das regiões
do Médio e Baixo Jaguaribe e a piscicultura.
Até o ano de 2002, ele era o maior
reservatório do Estado. Perdeu a posição com a construção do açude Castanhão, que tem capacidade de acumular 6,7 bilhões de
m³ de água. Desde o fim de fevereiro deste ano, conforme foi definido pelos
Comitês de Bacia dos Vales do Jaguaribe e Banabuiú, a Companhia de Gestão dos
Recursos Hídricos (Cogerh) faz a transferência das águas do Orós e do Castanhão para
o sistema integrado que atende Fortaleza e municípios da Região Metropolitana.
Esta é a segunda vez consecutiva que
o Orós sangra. Em 2025, o nível máximo foi atingido em 26 de abril, após 14
anos sem extrapolar a capacidade. O momento foi considerado histórico para a
região - e para todo o Ceará. O último ano em que o açude Orós havia sangrado,
antes do ano passado, foi 2011. Desde 1975, o evento de sangria já foi
registrado em 12 anos, sendo este, de 2026, o 13º caso de sangria do
reservatório.
Além disso, mais de 20 açudes estavam sangrando no Estado até semana passada. A segurança hídrica que acompanha a sangria dos açudes, somada à irrigação agrícola e ao abastecimento das comunidades, é um sinal de renovação e abundância para o sertão.

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