Correio Braziliense
O Brasil não vive apenas uma polarização
entre paixões opostas. Vive também uma expansão da política como experiência
negativa. E isso tem consequências para a democracia
A política brasileira atual costuma ser
explicada por uma palavra inevitável: polarização. A expressão ajuda a
descrever parte do nosso contexto, mas também pode esconder mais do que revela.
Quando se fala em polarização afetiva, a imagem que se forma é a de uma
sociedade dividida em dois blocos equivalentes, movidos por paixões opostas e
estáveis. O Brasil, porém, parece viver algo mais complexo. Não apenas se
polarizou. Também se tornou mais negativo em sua relação com a política.
Essa diferença importa. Polarização afetiva significa gostar de um campo político e rejeitar intensamente o outro. Mas nem toda negatividade se converte em adesão. Há eleitores que rejeitam Lula sem necessariamente gostarem de Bolsonaro. Há eleitores que rejeitam Bolsonaro sem demonstrar entusiasmo por Lula. E há os que olham para os dois campos com frieza, distância ou desconfiança.
A comparação entre dois levantamentos da
Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) ajuda a
enxergar essa mudança. Em 2006, uma pesquisa com 2.400 entrevistas mediu
sentimentos em relação a Lula, então presidente, e Geraldo Alckmin, principal
nome da oposição. Em maio de 2026, outro levantamento, com 1.500 entrevistas,
repetiu a lógica, agora tendo Lula e Bolsonaro como referências dos campos
nacionais. Nos dois casos, foram considerados sentimentos positivos, como
entusiasmo, esperança e orgulho; e negativos, como raiva, medo e decepção.
O resultado confirma o avanço da polarização,
mas aponta para algo além dela. A parcela de eleitores que combina adesão
positiva a um campo com rejeição ao adversário passou de 19% para 31%. É um
crescimento expressivo. Ainda assim, significa que 69% dos eleitores não se
enquadram na polarização afetiva estrita. Isso, porém, não quer dizer que
exista uma avenida livre, da mesma dimensão, para uma terceira via. A ausência
de polarização pode significar indiferença, desalento, rejeição seletiva ou
afastamento da política.
O dado mais revelador talvez esteja em outro
lugar. O grupo dos que rejeitam um lado sem aderir positivamente ao outro
passou de 6% para 19%. A política, portanto, não se tornou apenas mais
polarizada; tornou-se mais movida por recusas. Cresceu o eleitor que se define
menos pelo entusiasmo com um projeto e mais pela rejeição a uma alternativa. A
negatividade passou a organizar a percepção política mesmo sem identificação
forte com o campo oposto.
No sentido inverso, diminuiu a adesão
positiva sem rejeição. Em 2006, 32% dos entrevistados gostavam de um campo político
sem necessariamente rejeitar o outro. Em 2026, esse grupo caiu para 16%.
Tornou-se menos comum preferir sem hostilizar. Também diminuiu a ambivalência,
isto é, a presença de sentimentos mistos ou pouco definidos, de 29% para 10%. A
política ficou menos cinzenta e menos aberta a zonas intermediárias de afeto.
A indiferença também cresceu: foi de 12% para
19%. A dupla rejeição aumentou de 2% para 5%, permanecendo minoritária, mas
simbolicamente relevante. Esses dados mostram que a sociedade brasileira não
está apenas dividida entre militantes de campos opostos. Ela também é composta
por eleitores reativos, frios, desconfiados ou pouco mobilizados.
A mudança mais importante das últimas duas
décadas talvez esteja justamente aí: tornou-se menos comum gostar de um campo
sem rejeitar o outro; e tornou-se mais comum rejeitar um campo sem aderir
plenamente ao adversário. A política brasileira ficou menos ambígua, mas não
necessariamente mais programática. Ficou mais negativa.
Essa negativização afetiva tem consequências
para a democracia. A emoção na política não é um problema em si. Democracias
precisam de esperança, pertencimento e identificação coletiva. O risco surge
quando a emoção predominante deixa de ser a adesão a um projeto comum e passa a
ser a hostilidade ao outro. Quando isso acontece, a política se aproxima de uma
dinâmica permanente de veto, medo e ressentimento.
Por isso, compreender o Brasil atual exige ir
além da imagem de dois blocos simétricos em confronto. A política brasileira é
estruturada por campos dominantes, mas ao redor deles há segmentos afetivos
distintos: engajados, reativos, indiferentes, ambivalentes e os que rejeitam
todos os lados. O país não vive apenas uma polarização entre paixões opostas.
Vive também uma expansão da política como experiência negativa.
O Brasil não apenas se polarizou. Ele se
negativizou afetivamente. E talvez seja esse o traço mais importante para
entender os impasses democráticos dos próximos anos.
*Jairo Pimentel Jr. — doutor em
ciência política pela USP e professor do Laboratório de Opinião Pública e
Mídias Digitais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo
(Labop/FESPSP)

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