Valor Econômico
Antes do encontro com o senador, Lula tinha em suas mãos pesquisas que demonstravam a cobrança do eleitor independente pelo afastamento entre governo e Master
“Eu acho que não faz diferença ser tão
próximo de Lula desde que não haja um abafamento do PT. A partir do momento em
que o Lula colaborar com as investigações, tudo bem, mas se Lula tiver algum
tipo de posicionamento de tentar diminuir, abafar, só por ser próximo dele, aí
sim, ficaria feio”. Egressa de um grupo de pesquisa qualitativa, na sexta
rodada de uma série do Instituto Democracia em Xeque, a eleitora foi ouvida no
domingo passado.
O relatório com o resultado da rodada desta série de qualitativas com eleitores independentes entre 30 e 50 anos, ensino médio, renda de três a sete salários mínimos e recrutados nas regiões metropolitanas de São Paulo, Rio, BH e Salvador, chegou ao gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no início da tarde desta quarta-feira, antes de seu encontro com o líder do governo no Senado.
Neste relatório ficava claro que o impacto do
envolvimento do senador Jaques Wagner (PT-BA) com o Master ainda não havia
revertido o ganho de Lula sobre o senador Flávio Bolsonaro desde a eclosão do
financiamento do filme ‘Dark Horse’ pelo Master. No médio prazo, porém, poderia
vir a comprometer as chances de a aprovação do seu governo, hoje em ascensão,
não ultrapassar a desaprovação, uma vez que havia alertado o eleitor
independente sobre o qual Lula avança.
Antes mesmo do encontro com o senador, Lula
já estava decidido a fazer uma declaração enfática de “intolerância” com atos
de corrupção numa tentativa de, num primeiro momento, estancar o desânimo de
uma militância que estava disposta a entrar na campanha com fogo na venta
contra o Master e, num segundo, de convencer o conjunto do eleitorado de que a
solução para Wagner demonstraria a determinação do governo em não tergiversar
no tema.
A decisão pelo afastamento da liderança,
comunicada pelo senador uma hora depois do fim de sua reunião com o presidente
pôs fim a uma apreensão que tomou conta do partido desde que Wagner, depois de
comunicar, no fim de semana, a alguns de seus correligionários, que deixaria a
liderança, mudou a rota. Na segunda, apresentou, ao Supremo Tribunal Federal,
um recurso para anular a decisão que autorizou a busca e apreensão. Na peça,
diz que jamais trabalhou em defesa do Master no Congresso e que os valores em
espécie encontrados têm origem lícita e comprovada. Não citou o apartamento,
que, em entrevista à BandNews, disse ter pedido para Augusto Lima, ex-sócio de
Daniel Vorcaro, adquirir para posterior recompra.
No primeiro argumento Wagner ganhou a defesa
de Fernando Haddad, ex-ministro insuspeito por nunca ter aceitado encontrar o
banqueiro em questão. No segundo, caberá à PF conferir o número de série com a
origem (diárias do Senado e aquisição regular de bancos) declarada. Restará o
apartamento sobre o qual, até aqui, se não há comprovação de sua posse, o
senador tampouco mostrou versão convincente.
Nas conversas que teve no PT, prévias ao seu
encontro Lula, o senador ainda se valeu do seu papel como principal nome do
partido na Bahia para recuar da saída iminente da liderança no Senado, uma
decisão com consequências não apenas para a continuidade do projeto petista no
Palácio Ondina como para a própria votação do presidente no maior Estado de seu
principal reduto. Não colou.
Na pesquisa do Instituto Democracia em Xeque,
mais do que a corrupção, o que pesa contra Flávio Bolsonaro entre eleitores
independentes é a contradição, a falta de transparência e a tibieza do senador
do PL no caso. É esta percepção que, se estendida a um Wagner amarrado na
liderança, poderia contaminar Lula de maneira comprometedora. Um dos
participantes da qualitativa do Democracia em Xeque diz que a situação de
Flávio Bolsonaro é mais complicada porque o envolve diretamente - “Jaques
Wagner não é o Lula, né?”.
No mesmo dia em que o senador apresentou o
pedido para anular a decisão que autorizou a busca e apreensão em sua
residência, o decano do STF, ministro Gilmar Mendes, reproduziu, no Roda Viva,
as sinalizações que já havia dado durante o julgamento das prisões preventivas
do pai e do primo de Vorcaro, de que ele pode vir a ser a âncora das nulidades
a serem avocadas no inquérito do Master. Se esta nau das nulidades vier a
zarpar, com o apoio do PT, antes das eleições, o dano eleitoral é certo.
Inclua-se, ainda, no quadro que antecedeu o
encontro entre o presidente e seu líder no Senado, a perspectiva de dois outros
colaboradores, Rui Costa, ex-Casa Civil, e Alexandre Silveira, atual ministro
das Minas e Energia, virem a ser investigados. Nenhum deles tem, com Lula, a
proximidade cultivada por Wagner ao longo de cinco décadas, mas a perspectiva
de virem a ser citados alertou contra favorecimentos.
Ainda paira, no Planalto, o espectro das suas
próprias qualitativas em SP, RJ e BH, também com eleitores independentes, a
mostrar um caldo de mal-estar, desânimo, pessimismo e desgosto provocado pelo
fracasso em alcançar o éden exibido nas redes com apostas que só aumentam o
endividamento. A depender da evolução do Brasil na Copa das ‘bets’ esta
sensação pode crescer.
O treme-terra provocado pela rompimento com o
enteado de uma ex-primeira dama sem contágio de Master até aqui, mostra que o
PL ainda pode estar a buscar uma alternativa para a crise em que vive a
campanha de Flávio Bolsonaro. Anunciado uma hora antes, o desfecho da saída de
Wagner não poderia ter sido outro.

Nenhum comentário:
Postar um comentário