MEIs são o próximo alvo das ‘bondades’ de Lula
Por O Globo
Alívio a microempreendedor com dívidas se
soma ao custo já intolerável do afã eleitoreiro do Planalto
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não encontra limites na distribuição de “bondades” de olho nos dividendos eleitorais. A próxima na lista promete ser o afago aos microempreendedores individuais (MEIs). O ministro do Empreendedorismo, Paulo Pereira, disse em entrevista ao GLOBO que o Planalto prepara um desdobramento do programa Desenrola para regularizar a situação dos MEIs endividados.
As condições são para lá de camaradas:
desconto de até 70% e parcelamento de débitos em até 12 anos. Segundo Pereira,
as transações serão limitadas a R$ 20 mil em dívidas e à prestação mínima de R$
25 — hoje o prazo é de até dois anos, com parcela mínima de R$ 50. Pelos
cálculos do governo, a iniciativa beneficiará até 4 milhões de MEIs — ou 4
milhões de eleitores. O próprio Pereira reconhece que o impacto será de R$ 4
bilhões até 2028. Sem medida de compensação. Trata-se de mais um item na lista
de “bondades” sem fim: isenção do Imposto de Renda, ampliação do Minha Casa,
Minha Vida para a classe média, fim da “taxa das blusinhas”, financiamento para
carros de taxistas e motoristas de aplicativo, subsídios a combustíveis… e
sabe-se lá mais o quê.
Como acontece com o endividamento das
famílias, não há garantia de que o socorro resolverá o problema dos MEIs. Em
2023, cumprindo promessa de campanha, Lula lançou o Desenrola
Brasil. Foi importante para tirar famílias do sufoco, mas o alívio
durou pouco. O endividamento voltou a crescer e, menos de três anos depois, o
governo criou uma nova edição do programa.
Não surpreende. Tais programas atacam as
consequências, não as causas do problema. Enquanto o governo gastar sem freios
e precisar tomar dinheiro emprestado pagando juros cada vez mais altos, não
haverá solução. O desequilíbrio fiscal é o principal motivo para as taxas altíssimas
cobradas nos empréstimos, com consequente inadimplência e demanda por
sucessivos Desenrolas. Pior: ao aliviar os juros para um grupo específico, o
governo cria uma distorção que obriga o Banco Central a aumentá-los ainda mais
para manter a inflação sob controle. A sucessão de Desenrolas agrava as causas
do problema, em vez de resolvê-las.
Como se não bastasse, o governo pretende
enviar ao Congresso um projeto para elevar o teto de faturamento dos MEIs para
R$ 110 mil em 2027 e R$ 140 mil em 2028. Um equívoco. O programa, criado para
estimular a formalização de empreendedores de baixa renda, se afastou de seus
objetivos. Um estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio
Vargas (FGV Ibre) mostrou que ele beneficia não cidadãos da base da pirâmide
social, mas profissionais com formação e renda incompatíveis com o alvo
inicial. A despeito dos benefícios, o MEI é um programa caro para a sociedade.
Por isso, antes de qualquer ampliação, seria fundamental uma avaliação
criteriosa, de modo a calibrá-lo para atender a quem realmente precisa.
Toda bondade do governo tem custo. Como mostrou
reportagem do GLOBO, os programas generosos lançados por Lula
em ano eleitoral já somam R$ 215 bilhões, ou 1,6% do PIB. Lamentavelmente, só
R$ 9 bilhões, ou 4%, entram nas regras do arcabouço fiscal. Sem falar nas
medidas que tramitam no Legislativo, com impacto previsto de R$ 217 bilhões,
caso aprovadas. As “bondades” cairão como uma bomba no colo do próximo
presidente.
Impacto do fim da escala 6x1 no setor público
não pode ser ignorado
Por O Globo
Conta para prefeituras, que estão mais perto
da população e concentram serviços terceirizados, será bilionária
É inexorável que a Proposta de Emenda à
Constituição (PEC) da Escala 6x1, que reduz a jornada de trabalho de 44 para 40
horas semanais, trará prejuízos à economia — em carta aberta, 3 mil entidades
empresariais manifestaram apoio a uma proposta bem mais sensata para modernizar
o regime de trabalho, a PEC do Trabalho Flexível. Um aspecto menos criticado,
mas não menos nocivo, é seu impacto no setor público. Embora apenas 0,6% dos
servidores federais e 1% dos estaduais hoje trabalhem mais de 40 horas por
semana, a situação nos governos municipais é distinta — e as prefeituras
deverão sofrer impacto significativo.
O país conta com 12,5 milhões de servidores,
entre os quais 500 mil policiais, 1,7 milhão de professores e 3,4 milhões de
profissionais de saúde. Como as prefeituras estão na ponta da prestação de serviços,
seis em dez são funcionários municipais. Nos municípios, 4,4% dos efetivos
seguem a escala 6x1 e deixarão uma lacuna que precisará ser preenchida. Além
disso, as prefeituras contratam maior contingente de serviços terceirizados em
educação, saúde ou segurança, cujo custo aumentará pela necessidade de mais
funcionários para cumprir as escalas, como mostrou
reportagem do GLOBO.
De acordo com a Controladoria-Geral da União
(CGU), os terceirizados somam 69 mil na esfera federal, boa parte já em regime
de 40 horas. Para estados e municípios, não há dados atualizados, mas as
prefeituras concentram a maioria. São os responsáveis pela merenda e pela
segurança nas escolas, pela limpeza e pela manutenção nos postos de saúde e
hospitais.
A Confederação Nacional de Municípios (CNM)
estima que, com o fim da escala
6x1, será necessário contratar 25,8 mil novos servidores, efetivos e
temporários, com impacto de R$ 1,5 bilhão nos orçamentos municipais. Outro
estudo, contratado pela Frente Nacional de Prefeitos (FNP) à Finance
Consultoria, avalia o aumento de custo em R$ 34,5 bilhões, R$ 20,2 bilhões dos
quais em contratos de terceirização e R$ 5,4 bilhões em funcionários
temporários. É verdade que esses números devem ser vistos com reserva, pois
foram encomendados por entidades com interesses claros em reivindicar mais
recursos para municípios. Mesmo assim, a realidade que traduzem não pode ser
ignorada.
Na versão atual, o texto da PEC determina que a jornada poderá ser ampliada, atendendo à demanda de serviços públicos essenciais, como saúde, segurança ou transporte, mas isso também terá custo com pagamento de horas extras. Há ainda previsão de um período de transição. O artigo nono da PEC estipula que o fim da escala 6x1 valerá para os terceirizados “após aditamento contratual para manutenção do equilíbrio econômico-financeiro, conforme o regime jurídico aplicável, a ser formalizado no prazo máximo de um ano”. O prazo de 12 meses, porém, apenas adiará o problema. Ao fim desse período, não haverá alternativa: ou os prefeitos terão de gastar mais, pressionando o orçamento, ou então reduzirão ainda mais a qualidade dos serviços, já tão criticada pela população.
Acordo com o Irã vai revelando capitulação de
Trump
Por Folha de S. Paulo
Negociação sobre programa nuclear de Teerã
segue em curso, até aqui sem maiores benefícios para os EUA
A cobrança de pedágio no estreito de Hormuz
foi proibida por apenas 60 dias; apoio dos aiatolás ao Hezbollah e ao Hamas
ficou intocado
Desde que o regime iraniano não caiu depois
de EUA e Israel terem
lançado as primeiras bombas contra Teerã, em fevereiro, era previsível que o
presidente americano entraria em modo TACO —o acrônimo em inglês para
"Trump sempre amarela". A guerra, afinal, é impopular entre os
apoiadores do mandatário e provocou um
surto inflacionário global.
Uma base apoiadora desmotivada para ir às
urnas e eleitores independentes revoltados com a alta de preços são a receita
para um fracasso dos republicanos no pleito legislativo de novembro.
Mesmo Donald Trump,
com sua miopia estratégica, conseguiu ver isso. Ainda assim, surpreende a
escala de concessões feitas aos iranianos pela Casa Branca. É verdade que a
reabertura do estreito de
Hormuz à navegação, já parcialmente retomada, era o objetivo
principal do mandatário neste momento, mas o custo de fazê-lo não foi pequeno.
Em relação ao programa nuclear do regime
teocrático, as negociações estão em curso. O americano, contudo, não parece ter
obtido nenhum grande benefício.
Os iranianos dizem não ter objetivos
militares com o programa, mas essa antiga alegação não os impediu de enriquecer
urânio a 60% —não há aplicação civil conhecida que exija enriquecimento
superior a 20%.
No que provavelmente é o maior trunfo obtido
por Washington, Teerã se comprometeu a diluir no próprio país os cerca de 400
kg de urânio altamente enriquecido que possuem. Mas ainda não
há clareza sobre como se dará o processo nem qual será o grau
de fiscalização que os inspetores internacionais serão capazes de exercer daqui
em diante.
Em contrapartida, os iranianos podem desde já
voltar a exportar petróleo e
terão, gradualmente, acesso a fundos que estavam congelados pelas sanções.
Fica
proibida, por apenas dois meses, a cobrança de pedágio dos
navios que passam por Hormuz. Após esse prazo, é possível que haja uma cobrança
que inexistia antes da guerra. Está prevista, ainda, a criação de um fundo
internacional de US$ 300 bilhões para a reconstrução do Irã.
O memorando não trata de limitações ao
programa de mísseis, que vêm sendo usados contra Israel e países do golfo
Pérsico, nem da interrupção do apoio que Teerã dá ao Hamas,
ao Hezbollah e
aos houthis.
Ao contrário, os aiatolás obtiveram vitória
estratégica importante ao unificar os fronts e fazer com que o fim das
operações de Israel contra o Hezbollah, no Líbano, fosse considerado condição
para o acordo com os EUA. Em Tel Aviv, o sentimento é de que o país foi
abandonado, ou mesmo traído, por Trump.
A "rendição incondicional" que o
republicano exigira de Teerã no início da guerra parece, hoje, mais bem descrita
como uma capitulação de Washington. Trump tenta vender o memorando de
entendimento entre as duas nações como uma vitória, mas fazê-lo requer brigar
com a realidade.
Dívidas se alastram perigosamente pela
Federação
Por Folha de S. Paulo
Enquanto governo Lula autoriza volumes
crescentes de crédito, estudo põe em xeque metodologia do Tesouro
Nos estados, passou-se de um superávit de R$
39 bi para déficit de R$ 3,4 bi neste ano de eleições; não havia saldo negativo
desde 2015
Estados e grandes municípios brasileiros têm,
na grande maioria, um histórico de dívidas não pagas ou orçamentos engessados
por despesas elevadas com pessoal, dados os compromissos em educação, saúde e
segurança pública. Tais deficiências dificultam seu acesso ao crédito para
investir.
Para conseguirem empréstimos e
financiamentos, governadores e prefeitos dependem de autorização e, no mais das
vezes, de garantia do Tesouro Nacional —que, também devido à condição de
principal credor, acaba assumindo o papel de supervisor das finanças regionais.
Quando o ocupante do Planalto é propenso ao
aumento do gasto público, como é o caso de Luiz Inácio Lula da
Silva (PT),
o expansionismo fiscal se espalha com facilidade pela Federação.
Desde 2023, o volume de crédito autorizado
pelo Tesouro a estados e municípios vem em escalada. De R$ 55,9 bilhões no
primeiro ano do terceiro mandato de Lula, o montante foi a R$ 85,8 bilhões no
ano passado, e o total
beira os R$ 207 bilhões.
Por definição, o acesso a financiamentos
permite que esses entes federativos gastem acima de suas arrecadações. As
consequências se veem nos balanços.
Nas prefeituras, o superávit primário
(receitas menos despesas, excluindo encargos com juros) acumulado em 12 meses
caiu de R$ 25,9 bilhões no final de 2022 para R$ 5,8 bilhões em abril último.
Nos estados, passou-se de superávit de R$ 39 bilhões para déficit de R$ 3,4
bilhões neste ano de eleições —não
havia saldo negativo desde 2015, durante o governo Dilma
Rousseff (PT).
Uma escalada de endividamento como essa pode
ser menos preocupante se a capacidade de pagamento dos tomadores for bem
avaliada. Essa condição, porém, é questionada em estudo
publicado pelo Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio
Vargas, como noticiou a Folha.
Segundo o trabalho, a metodologia adotada pelo
Tesouro não leva em conta indicadores considerados mais relevantes para
antecipar possíveis dificuldades financeiras, casos do resultado primário, da
evolução da receita corrente, da proporção de despesas com pessoal e do
envelhecimento da população.
Trata-se de questão técnica complexa e
decerto sujeita a debate mais aprofundado. É fato, no entanto, que a última
onda de endividamento estadual e municipal, sob o patrocínio de Dilma, teve
consequências funestas.
Quando acaba o dinheiro nas administrações locais, afinal, o impacto se dá de forma direta nos serviços públicos mais básicos.
Um desserviço ao Supremo
Por O Estado de S. Paulo
Ao criticar seus colegas publicamente, Gilmar
violou a Loman, expôs o STF a constrangimentos desnecessários e, de quebra,
reforçou a necessidade do código de conduta que tanto rejeita
Durante quase 90 minutos de entrevista ao
programa Roda Viva,
da TV Cultura, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes
criticou o colega André Mendonça pela relatoria do chamado caso Master,
questionou a condução do STF por seu presidente, Edson Fachin, e, de quebra,
afirmou que a decisão liminar de Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior
Eleitoral (TSE), de suspender a divulgação de uma pesquisa de intenção de voto
feita pelo instituto AtlasIntel não deveria ser mantida. Como se vê, o sr.
Gilmar Mendes mirou em muitos alvos, mas alvejada foi a dignidade do próprio
Supremo.
A investida mais incisiva do decano, não há
dúvida, foi contra Mendonça. Gilmar afirmou que o colega cometeu uma
“impropriedade” ao receber do advogado de um dos implicados no caso Master uma
“proposta de delação seletiva”. O ministro disse ainda que Mendonça teria
cometido um “erro crasso” por estar “participando de conversas” na condução de
um acordo de colaboração premiada – prerrogativa que a lei reserva ao
Ministério Público e à Polícia Federal. “Se está participando de conversas ou
se está expulsando advogados do processo”, disse Gilmar à banca de
entrevistadores, “isso tem algo de errado”.
O artigo 36, inciso III, da Lei Orgânica da
Magistratura Nacional (Loman) é cristalino ao proibir todos os magistrados de
“manifestar, por qualquer meio de comunicação, opinião sobre processo pendente
de julgamento, seu ou de outrem, ou juízo depreciativo sobre despachos, votos
ou sentenças, de órgãos judiciais, ressalvada a crítica nos autos e em obras
técnicas ou no exercício do magistério”. Pois foi exatamente isso o que o
ministro decano do STF fez, ignorando olimpicamente um interdito legal que vale
tanto para o juiz de primeiro grau da mais remota comarca brasileira quanto
para os ministros da mais alta corte de Justiça do País.
A experiência no cargo não coloca Gilmar em
posição de superioridade moral ou funcional sobre os demais ministros do STF.
Como bem disse ao Estadão o
jurista Wálter Maierovitch, o decano “não é o juiz dos juízes”. A rigor, o
decanato impõe uma sobriedade e um recato ainda maiores do que aos demais, pois
espera-se que quem ocupe essa nobilíssima posição na República seja a
personificação da discrição, da prudência e do comedimento que devem nortear a
judicatura.
Para piorar, a atitude de Gilmar Mendes ainda
suscita questões inquietantes. Afinal, por quais motivos o ministro se lançou
nessa campanha de admoestações públicas contra colegas, em particular André Mendonça
e Edson Fachin? Por que Gilmar Mendes é tão recalcitrante à proposta de um
código de conduta para ministros do STF? Em que medida a exposição pública de
divergências internas serve ao Supremo justamente na quadra histórica em que a
Corte passa por sua maior crise de credibilidade?
Mendonça é o ministro responsável por
presidir as investigações do maior crime financeiro de que o País já teve
notícia, um escândalo com ramificações nos Três Poderes e com suspeitas que,
pela primeira vez, recaem sobre ministros do próprio Supremo. É nesse contexto
que aumentam as aflições dos brasileiros preocupados com a construção de um
acordo em Brasília que leve à impunidade de todos os eventuais culpados pelos
crimes de Daniel Vorcaro et
caterva. Portanto, não se pode condenar quem interprete as palavras
e as atitudes de Gilmar Mendes como parte de um arranjo voltado à nulidade das
investigações do caso Master.
Por fim, há uma contradição incontornável
exposta pelo decano na entrevista. A presença e, sobretudo, o comportamento do
ministro no centro do Roda
Viva só reforçaram a premência da edição do código de conduta
que ele tanto rejeita. Decerto sem a intenção de fazê-lo, o ministro expôs quão
republicana é a iniciativa de seu colega Edson Fachin. As atitudes de Gilmar
Mendes diante das câmeras, nas redes sociais e nas páginas dos jornais são o
exato oposto do que se espera de um ministro do STF no que concerne à sua
persona pública.
Essa e outras distorções ajudam a explicar o
processo de erosão da imagem do Supremo, que ora atravessa o momento mais
desafiador em toda sua história republicana. Gilmar Mendes deveria ser o agente
de uma inflexão virtuosa, não seu obstáculo.
A tentação de controlar a PF
Por O Estado de S. Paulo
Remoção de delegados que assessoram ministros
de tribunais superiores ordenada por Lula reaviva suspeita de uso da PF como
instrumento de pressão sobre adversários e proteção de aliados
O Estadão apurou
que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se envolveu pessoalmente em uma
articulação para reintegrar à Polícia Federal (PF) delegados que ora prestam
assessoria a órgãos da administração pública e, principalmente, do Poder
Judiciário. Não se pode condenar quem interprete a ordem de Lula como uma
intervenção no trabalho da PF, sobretudo na equipe que assessora o ministro do
Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, relator das duas mais sensíveis
investigações para o governo federal e o Congresso: as fraudes contra
aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e o
famigerado caso Master.
Segundo consta, o alvo principal da medida
seria o delegado federal Thiago Marcantonio Ferreira, que há cerca de um ano
está lotado no gabinete de Mendonça e o auxilia diretamente na relatoria
daqueles inquéritos. Como não ficaria bem para o Palácio do Planalto determinar
apenas a saída de Marcantonio sem expor ostensivamente a motivação política da
decisão, os próceres petistas optaram por dar uma aparência de política de segurança
pública mais ampla, supostamente com o objetivo de reforçar, ora vejam, o
combate ao crime organizado. Essa justificativa não para em pé.
Há poucos meses, Lula afirmou em discurso
público que mandou chamar de volta os delegados da PF que, segundo ele,
estariam “fingindo trabalhar” em outros órgãos. A Associação Nacional dos
Delegados de Polícia Federal respondeu com números: apenas 53 delegados estavam
cedidos à época do discurso de Lula, ou seja, menos de 3% do efetivo da
corporação.
É possível que alguns desses delegados, de
fato, possam voltar às suas atribuições originais. Mas há outro argumento ainda
mais revelador da fragilidade da justificativa do presidente da República.
Assumindo que o objetivo de Lula seja mesmo fortalecer o combate ao crime
organizado, cabe perguntar: o desvio de recursos de aposentados e pensionistas
do INSS durante anos também não é obra de uma organização criminosa? E o que
dizer das fraudes das quais é acusado o sr. Daniel Vorcaro, dono do Banco
Master, e outros a ele associados, descritas como o maior crime financeiro da
história do País? Não seriam a materialização de práticas do crime organizado
contemporâneo?
O crime organizado no Brasil não se limita às
armas do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) e seus
crimes de sangue. Ele se infiltra em instituições do Estado, contratos
públicos, institutos de previdência, instituições financeiras e, como as
investigações da PF em curso demonstram, nos mais altos escalões da República,
incluindo o STF. Retirar o apoio investigativo justamente do ministro que
conduz inquéritos aptos a desvelar essa teia de interesses poderosos, neste
momento, passa uma mensagem inequívoca de impunidade para o País, Lula queira
ou não admiti-la.
Não estamos afirmando que o presidente da
República esteja envolvido com o acobertamento de fatos potencialmente
criminosos. Mas é incontornável reconhecer que a sinalização emitida por Lula
não é boa. Objetivamente, ao influenciar a dinâmica das investigações, sua
decisão produz o efeito prático de beneficiar suspeitos por alterar a estrutura
de apoio à disposição de quem os investiga. Em ano eleitoral, sendo o
incumbente pré-candidato à reeleição, é lícita a percepção de que o Palácio do
Planalto pode ter movimentado o aparato de segurança do Estado sob seu controle
com os olhos voltados para as urnas.
É sempre bom lembrar que uma democracia digna
do nome não se sustenta apenas na legalidade formal dos atos públicos.
Sustenta-se também na confiança de que as instituições funcionam com genuína
autonomia e espírito republicano. O presidente da República é o fiador maior
das instituições democráticas e do interesse público. E quando o chefe de
Estado e de governo se movimenta de modo a enfraquecer, ainda que
indiretamente, a estrutura de apoio a investigações fundamentais para o País, e
que ademais tocam seus aliados, essa confiança se esvai – e com ela a fé no
Estado de Direito.
Muitas palavras, pouca explicação
Por O Estado de S. Paulo
BC até tentou, mas não conseguiu explicar por
que cortou os juros num cenário tão incerto e adverso
O Banco Central (BC) gastou tinta para tentar
explicar por que reduziu a taxa básica de juros na semana passada em 0,25 ponto
porcentual, para 14,25% ao ano. Contudo, o palavrório da ata do Comitê de
Política Monetária (Copom) não trouxe as informações necessárias para entender
a lógica que guiou a controversa decisão do colegiado. A ata ficou menos
confusa do que o comunicado, mas soou igualmente contraditória.
O BC elevou a projeção de inflação para o fim
de 2027 – de 3,5%, em abril, para 3,7%, em junho –, admitiu que a atividade
econômica continua acelerada e reconheceu que o mercado de trabalho se mantém
forte. Ademais, assumiu, textualmente, que seu balanço de riscos para a
inflação tem “assimetria altista” – ou seja, há mais chances de aumento do que
de redução. Mas, ainda assim, o BC optou por cortar os juros.
No balanço, além dos efeitos do choque de
petróleo causados pela guerra no Oriente Médio, a força da inflação de serviços
e o câmbio depreciado, o Banco Central mencionou os impactos do super El Niño
na produtividade do agronegócio e nos preços de energia e “estímulos à demanda
agregada, em particular ao componente consumo”, que podem fazer a economia
crescer acima de sua capacidade e enfraquecer os “canais usuais de transmissão
da política monetária”.
Para bom entendedor, meia palavra basta. O
que o BC tentou dizer, sem citar o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, é que
a gastança eleitoral que o presidente tem patrocinado nos últimos meses pode
fazer a economia crescer de maneira artificial e insustentável, a ponto de
gerar mais inflação mesmo sob juros elevadíssimos. Mas, repita-se, ainda assim
o BC decidiu cortar os juros.
Ficou claro que o Banco Central não pretende
adotar um choque brutal nos juros para atingir a meta de inflação. Mas o que a
autoridade monetária poderia ter feito – e não fez – era expor detalhadamente
esses cenários alternativos e de que maneira eles fariam com que a inflação no
início de 2028 ficasse abaixo da meta, algo que, atualmente, nenhum economista
prevê. Sem esses dados, a opção pelo gradualismo continuou mal explicada,
abrindo margem para todo tipo de interpretação.
Houve, por exemplo, quem tenha visto que a
instituição escolheu a previsibilidade, já que a maioria dos investidores ainda
apostava na redução da Selic, mas deixou pouco ou nenhum espaço para novos
cortes. Mas não se pode condenar quem tenha interpretado que o ciclo de redução
da Selic continuará em marcha por certa benevolência do BC com Lula neste ano
eleitoral.
Basta acompanhar o noticiário para encontrar
um sem-número de medidas de acesso a crédito subsidiado – tanto para a
renegociação de dívidas de consumidores adimplentes e inadimplentes como para a
aquisição de carros, motos, caminhões e moradias –, uma óbvia tentativa do
Executivo de contornar a Selic oferecendo dinheiro barato a potenciais
eleitores. E algumas dessas linhas mal começaram a rodar.
Reduzir a taxa básica de juros em meio a cenário tão incerto e adverso, como o próprio BC descreveu, não sinalizou “serenidade e cautela”, como a instituição gosta de dizer, mas sim incoerência, para dizer o mínimo.
Mapa da renúncia fiscal indica concentração e
desigualdade
Por Valor Econômico
O raio-X das desonerações apresentadas pelo
Ministério da Fazenda justificaria uma revisão ampla e periódica das concessões
dos benefícios
O governo, para permitir que os gastos
cresçam, aumenta impostos, e, por outro lado, vai favorecer setores econômicos
com renúncias de receitas que, em muitos casos, não têm nenhuma justificativa,
afora o peso da influência política e dos lobbies que as sustentam. Os efeitos
dos gastos tributários podem ser positivos, desde que periodicamente avaliados
para ver se cumpriram os objetivos para os quais foram criados. Nada está mais
longe da realidade no Brasil: em geral, eles não só se perenizam como crescem.
Há dados que sugerem que eles não favorecem nem o crescimento sustentável nem a
inclusão social, como indica iniciativa recente do Ministério da Fazenda, o
Painel de Caracterização das Desonerações Tributárias.
O raio-X das desonerações apresentadas no
Painel justificaria uma revisão ampla e periódica das concessões dos
benefícios. “O modelo atual tende a reforçar polos de desenvolvimento já
estabelecidos, apresentando eficácia limitada na promoção de uma transformação
estrutural em direção à maior complexidade tecnológica e à equidade social”,
aponta o relatório. O levantamento tomou por base a declaração de incentivos
exigido das empresas, e mais um enorme conjunto de variáveis econômicas.
Há muito dinheiro envolvido. Apenas a
renúncia fiscal da União, pela previsão do orçamento de 2026, soma R$ 612,8
bilhões, ou 4,43% do PIB, com aumento de 12,5% em relação ao ano anterior, e
representa um quinto de toda a arrecadação administrada pela Receita Federal.
Se um décimo desse valor não abandonasse os cofres públicos, a União teria
superávit primário, mesmo considerando as várias exceções que estão
desfigurando o novo regime fiscal.
O painel traz informações de 2024 mais
detalhadas do que as que foram apresentadas até hoje. Os dados não consideram o
Simples, no qual a União abdica de R$ 120 bilhões este ano. O maior programa de
desoneração listado é o da Zona Franca de Manaus (ZFM), com R$ 54,7 bilhões,
seguidos pelos que beneficiam carnes (R$ 27,2 bilhões), adubos e fertilizantes
(R$ 26,2 bilhões) e Sudam-Sudene (R$ 25,6 bilhões).
A concentração espacial é um indício de que
há algo errado com as desonerações. As regiões Sul e Sudeste, as mais ricas do
país, ficaram com 49,25% e 19,16%, respectivamente, do total. São Paulo, o
Estado mais rico da nação, abocanhou sozinho 34,7% delas. Na distribuição por
municípios, prevalecem as metrópoles e grandes cidades. Quinze delas recebem
pouco mais da metade de todas as renúncias fiscais.
As desonerações contemplam 42 mil empresas,
mas nesse universo a desigualdade predomina. Apenas 63 companhias recebem a
metade das renúncias, e só 15 delas usufruem de 15,62% dos recursos totais.
Nesse escalão de elite, segundo o relatório, “predominam grandes corporações
dos setores de produção de veículos automotores, eletrônicos, defensivos
agrícolas, alimentos e fertilizantes”. Além da concentração, boa parte dos
recursos pode não estar sendo bem alocada. Parcela relevante é usufruída por
setores de baixa complexidade econômica (43,9%) e baixa intensidade tecnológica
(46,1%).
Na indústria de transformação, apenas um
quinto das desonerações se dirigiu para setores de alta intensidade
tecnológica, enquanto um terço delas é distribuído a segmentos de média-baixa
intensidade e a alguns de média-alta. O setor de alimentos é de longe o que se
apropria da maior parte das desonerações (31,64%), seguido pelo químico
(15,9%), por informática e eletrônicos (13,9%) e por equipamentos de transporte
(10%).
As desonerações falham também em sua dimensão
social. Apenas 0,9% do total é destinado a municípios com alta vulnerabilidade
social, e 21,6% se forem incluídas as cidades com média vulnerabilidade. Por
outro lado, a maioria dos recursos vai para os de média ou baixa carência. “As
desonerações tributárias não contribuem de maneira significativa para a redução
das desigualdades sociais intermunicipais, uma vez que se concentram mais nas
regiões e cidades mais desenvolvidas”, conclui o relatório.
O estudo não inclui os gastos tributários
estaduais, que também são altos. Eles somarão R$ 333,7 bilhões, segundo Manoel
Pires e Giosvaldo Teixeira Jr, do FGV-Ibre. A soma das renúncias fiscais de
União e Estados aproxima-se do trilhão: R$ 954,7 bilhões. Os inconvenientes dos
gastos tributários são muitos, segundo esses economistas: há distorções de
preços relativos, há domínio de interesses políticos, os grupos de menor renda
pouco se beneficiam deles, há perda de base tributária, há maior complexidade
das normas de tributos e redução da transparência.
No fim de 2025 foi aprovada a lei complementar 224, que obriga a redução de 10% de incentivos e benefícios federais, mas ela excetuou os maiores programas de renúncia fiscal, como o da ZFM. Há evidente desperdício de recursos preciosos, que só não é estancado pela ação de lobbies políticos. Uma ação firme, baseada em dados, agora amplamente disponíveis, permite à União reduzir renúncias desnecessárias e encontrar melhor uso para esse dinheiro, desde que haja de fato interesse em fazê-lo.
A ameaça de Trump e o silêncio dos
pré-candidatos
Por Correio Braziliense
Não se pode esperar que tal sinalização seja
apenas manifestação de liberdade de expressão. Não é. É o desejo claro de impor
um alinhamento a todo um continente
O compartilhamento por Donald Trump de artigo
escrito por John Gizzi, publicado no site norte-americano de extrema-direita
Newsmax, deixa claro que as eleições presidenciais brasileiras não estão
somente sendo observadas com lupa pela Casa Branca, mas, sobretudo, estão
seriamente ameaçadas de sofrerem alguma espécie de intervenção por parte do
governo de Washington. É seríssimo, e tem de acender a luz vermelha entre as
instituições nacionais. Mais: devem receber de todos os que se colocam como
candidatos à disputa o mais veemente repúdio.
O título do artigo de Gizzi é nada sutil:
Trump conquista oito vitórias, em sete anos, na América Latina. Prossegue o
articulista, em cuja foto ostenta chapéu à moda Gambino. "As eleições na
Colômbia e no Peru representam as mais recentes vitórias de um movimento
regional crescente que abraçou muitos dos temas associados ao presidente Donald
Trump: lei e ordem, nacionalismo econômico, segurança de fronteiras,
antissocialismo e resistência aos sistemas políticos estabelecidos". Gizzi
insiste, então, no mentiroso mantra bolsonarista. "A eleição já está
gerando intenso debate sobre a integridade do sistema eleitoral brasileiro e se
a disputa será conduzida de maneira considerada livre e justa por todos os
lados".
De novo o extremismo põe em xeque as urnas
eletrônicas, que há 30 anos elege vereadores, deputados estaduais, distritais e
federais, senadores e presidentes, sem que qualquer indício de fraude tenha
sido detectado nessas três décadas.
Entende-se que as instituições de Estado se
mantenham em silêncio sobre a ameaça de Trump. Um artigo compartilhado por um
presidente com gosto pela fanfarronice, embora à frente da maior potência
militar do planeta, é um indício, não uma confirmação. É preciso deglutir o que
foi escrito para levantar as medidas preventivas. É compreensível que algumas
discussões sejam feitas reservadamente.
Mas aos pré-candidatos não é facultado o
silêncio. Deles não se pode esperar que tal sinalização seja apenas
manifestação de liberdade de expressão. Não é. É o desejo claro de impor um
alinhamento a todo um continente.
Trata-se aqui de definirmos barreiras sobre o
que interessa ao Brasil como nação independente. Se países vizinhos desejam
seguir, pela via eleitoral, na direção daquilo que os Estados Unidos podem lhes
oferecer, estejam à vontade — apenas a eles cabe avaliar a extensão dos ônus e
dos bônus que obterão.
Gostem ou não do presidente Luiz Inácio Lula
da Silva, fato é que foi o único pré-candidato que disse com todas as letras a
Trump para que "não se meta nas eleições brasileiras". Dos demais,
não se ouviu palavra nesse sentido. Alguns não o fizeram por sabujice, mas
outros têm forte desejo de atrelar o país à agenda de Washington, por pior que
seja para nós.
As palavras de Gizzi compartilhadas por Trump
reacenderam o radicalismo de grupos de extrema-direita, que, nas redes sociais,
passaram a pregar abertamente o não reconhecimento de uma eventual reeleição de
Lula. Se estribam numa falsa equivalência: como a esquerda ameaça não admitir a
vitória de Keiko Fujimori, no Peru, o mesmo pode ser feito aqui. Sugerem até
mesmo que, se o petista vencer em outubro, Trump considere ilegítimo o
resultado e, assim, imponha sanções que estrangulem a economia brasileira.
O que dizem os pré-candidatos? De um, Lula, sabemos o que pensa. E os demais? Estão confortáveis diante de tais ameaças?
Mais rigor com os bancos digitais
Por O Povo (CE)
O banco Digimais tinha uma forma de atuar
semelhante à do Master, aumentando a captação de recursos por meio de CDBs com
rendimentos superiores a 110%, inusuais no mercado. O risco à a saúde financeira
da instituição era evidente
Na operação Miragem, na qual a Polícia Federal (PF) investiga
crimes contra o sistema financeiro nacional, o banco Digimais foi alvo de
mandados de busca e apreensão. A decisão judicial também autorizou o sequestro
e bloqueio de bens e valores de até R$ 670 milhões da instituição.
O banco digital é de propriedade do bispo Edir
Macedo, fundador e principal dirigente da Igreja Universal do Reino de Deus
(Iurd), dono da Rede Record, mantendo vínculos históricos com o partido
Republicanos, no qual estão alojados parlamentares ligados à Iurd.
Digimais tinha uma forma de atuar semelhante
à do banco Master, aumentando a captação de recursos por meio de CDBs
com rendimentos superiores a 110%, inusuais no mercado. O ganho elevado e a
garantia do FGC atraíam aplicadores, porém com risco para a saúde financeira da
instituição.
Segundo a PF, de acordo com investigações a
partir de relatório do Banco Central, as fraudes para mascarar as dificuldades
do banco incluíam manipulação de registros regulatórios, de forma a manter
a aparência de que a instituição estava em situação regular.
As fintechs foram um importante instrumento
para a inclusão financeira, também chamada de "bancarização" de
centenas de milhares de brasileiros. Antes dos bancos digitais, era difícil
para um segmento importante da sociedade, as pessoas de menor renda, ter
acesso a uma conta nos grandes bancos, tanto pela burocracia exigida quanto
pela cobrança de taxas para qualquer operação.
No início, oferecendo apenas serviços
limitados, como cartões de crédito, as fintechs hoje têm praticamente os mesmos
serviços que um banco tradicional.
Porém, se no começo a regulamentação menos
rigorosa era compreensível, devido ao volume de suas atividades oferecerem
menor risco, atualmente as fintechs se equiparam aos bancos
tradicionais, oferecendo empréstimos e aplicação, entre outros serviços. Por
isso, têm de ter regulamentação semelhante.
Algumas medidas, como aumentar o limite
mínimo de capital para o funcionamento de fintechs, já apresentam
resultados, fazendo cair o número de pedidos de abertura de bancos digitais.
Mas o caso do Digimais em sequência ao do
Master pode ser o indício de que existem outras situações semelhantes nesse
setor do sistema financeiro, que conta com cerca de duas mil instituições desse
segmento no País, segundo estimativas não oficiais. Assim, além de uma regulamentação mais
rigorosa, torna-se necessária uma fiscalização mais intensa no funcionamento
dos bancos digitais.
É preciso evitar que criminosos do colarinho branco e bandidos de qualquer espécie, como as facções armadas, se utilizem das brechas do sistema para as suas atividades ilícitas.

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