sábado, 20 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Suspeitas contra Wagner devem ser investigadas a fundo

Por O Globo

Desde já, senador deveria se afastar da liderança do governo para trabalho ser conduzido com serenidade

São graves as suspeitas de corrupção envolvendo o senador Jaques Wagner (BA) e o empresário Augusto Lima, ex-sócio do notório Daniel Vorcaro, do Banco Master. É obrigação das autoridades aprofundar as investigações — e, desde já, Wagner deveria se afastar da liderança do governo no Senado para que elas possam transcorrer de forma serena.

Em nova fase da Operação Compliance Zero, a Polícia Federal (PF) cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços ligados a Wagner, a Lima e a Eduardo Sodré Martins, enteado de Wagner e secretário no governo da Bahia. Segundo a investigação, Lima comprou um apartamento de R$ 2,4 milhões em Salvador (onde moraria a filha de Wagner), e uma companhia vinculada a ele transferiu R$ 3,5 milhões a uma empresa do núcleo familiar de Wagner. A PF ainda encontrou US$ 55 mil e € 33,5 mil em espécie.

Amor, festa e devoção, por Flávia Oliveira

O Globo

Ela é intérprete de um Brasil que nos faz 'compreender a marcha e ir tocando em frente', como nos versos de Almir Sater que eternizou em disco de 1990, quando festejou um quarto de século de estrada

Parem os relógios, silenciem os telefones, suspendam a internet. Tomo emprestada a inspiração de W.H. Auden no poema “Funeral blues”, não para prantear uma morte, mas celebrar uma vida. Maria Bethânia fez 80 anos. Suspendamos o tempo para festejar a voz que há seis décadas canta como ninguém as brasilidades. Por um momento, não existem fraude Master nem dinheiro-vivo-mal-explicado; delação premiada nem tarifaço; Neymar machucado nem Endrick no banco; golpismo bolsonarista nem Lei da Dosimetria. Nada de mulheres violadas, crianças maltratadas, motociclistas desembestados, comunidades aterrorizadas.

A filha biológica de Dona Canô (1907-2012) e espiritual de Mãe Menininha do Gantois (1894-1986), irmã de Caetano Veloso, cria do Recôncavo Baiano, cujo nome foi tirado de uma canção de Capiba na voz de Nélson Gonçalves, é mais um talento artístico-musical que os anos 1940 legaram ao Brasil. São da mesma década os octogenários Erasmo Carlos e Roberto Carlos, de 1941; Nara Leão, Nei Lopes, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Clara Nunes, Tim Maia, Milton Nascimento, Paulinho da Viola, todos de 1942; Chico Buarque, de 1944; Elis Regina, Geraldo Azevedo, Ivan Lins e Raul Seixas, de 1945. Benza Deus!

Com gás ou sem gás? Por Eduardo Affonso

O Globo

Quando a moça do caixa quer saber se você vai pagar no débito ou no crédito, ela provavelmente não está praticando racismo creditício

Nietzsche decretou, em 1882, que Deus estava morto. Não tivesse morrido também, diria que quem morreu agora foi Copérnico: de uns tempos pra cá, parece que o Universo inteiro deu de girar em torno de nós, do nosso umbigo.

Não, leitor, nem tudo é sobre você, a cor da sua pele, seu índice de gordura, sua orientação sexual. Essa falta de noção e de proporção tem nome: efeito holofote. É o que faz com que você se sinta o centro das atenções, o vórtice dos acontecimentos. Menos, leitor. Menos.

Para não esquecer Alexandre de Moraes, por Thaís Oyama

O Globo

O ministro sabe que nenhum poder se sustenta apenas pelo mandato e que todo sistema de autoridade depende da crença em sua legitimidade

Diz uma máxima da política no Brasil que o escândalo de hoje faz esquecer o de ontem e espera o de amanhã para ser esquecido. Na ciranda do caso Master, Jaques Wagner ajuda a esquecer Ciro Nogueira, que ajuda a esquecer Flávio Bolsonaro, que ajuda a esquecer Alexandre de Moraes. No fim da fila, o ministro do Supremo é hoje, entre esses personagens, o mais esquecido.

Seu nome, entretanto, voltou nos últimos dias ao noticiário — não por causa de novas revelações acerca de sua relação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, de resto, de extensão até agora desconhecida, dado que não investigada. Os motivos foram dois casos recentes a indicar que Moraes vem se defrontando com um problema de autoridade.

O segredo da corrupção, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Ela perdura porque é a segunda melhor forma de organização social que existe

Perde para império da lei, mas é preferível a disputas sendo resolvidas pela violência

Por que não conseguimos nos livrar da corrupção? A resposta curta é "porque ela funciona". Para cada esquema que identificamos e desbaratamos, como o caso Master ou o petrolão, é razoável supor que existam vários outros que permanecem abaixo do radar, satisfazendo as necessidades daqueles diretamente envolvidos, isto é, corruptores e corruptos. Já o dano é coletivo e extrapola os rombos bilionários que os economistas se esforçam para calcular. Há prejuízos também para a eficiência econômica, pela via da redução da competição, e para a própria coesão social, já que muitos cidadãos se sentem, com razão, vilipendiados pela roubalheira com participação de agentes públicos.

Ano eleitoral arromba e faz a limpa nos cofres públicos, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Lula 3 mira motoristas de aplicativo; Congresso, agro e templos evangélicos

Farra com dinheiro do contribuinte também contempla agregados da família Bolsonaro

Lula 3 anunciou uma linha de crédito, que no total pode chegar a R$ 4 bilhões, para financiar a compra de motos e bicicletas elétricas por entregadores com carteira assinada e motoristas de aplicativo. É mais uma das bondades do ano eleitoral, incluindo capacetes de graça para mulheres.

Tecnocratas calculam que há um público potencial entre 700 mil e 1,2 milhão de entregadores em todo o país. O número parece subestimado. Basta olhar para as ruas cheias de motos em zigue-zague e alta velocidade.

Sertanismo – mais uma autêntica nota de R$ 3, por Bolívar Lamounier

O Estado de S. Paulo

O denominado ‘sertanismo’ desestimula o progresso da música popular, área em que nos destacamos durante todo o século 20

Esse “sertanismo” que ora inunda nossos meios de comunicação é mais um blefe inventado nos grandes centros por artistas principiantes de classe média, ansiosos por se divulgar, por estúdios de rádio e TV, e por igrejas.

Devemos questioná-lo por três motivos, pelo menos. Primeiro, por um relevante motivo constitucional. Esse, digamos, gênero musical é difundido por potentes aparelhos eletroeletrônicos que penetram sem dificuldade os lares, veículos, hospitais e até – pasmem! – consultórios onde se realizam exames médicos.

Sobre a amizade no caso Master, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Na última terça, dois dias antes da operação policial contra si, Jaques Wagner, líder do governo Lula, subiu à tribuna do Senado para se solidarizar com Davi Alcolumbre, indignado o presidente do Congresso ante a notícia de que teria levado US$ 30 milhões de Daniel Vorcaro. (Há mensagens do banqueiro à noiva, de agosto de 2025, em que relata boa reunião, “até meia noite”, na residência oficial da presidência do Senado, na qual teria aparecido “sem ele saber”.)

O discurso de Alcolumbre teve dois propósitos: transformar a denúncia contra o indivíduo senador Davi em “ataque ao Senado”; e disparar a ordem unida, sob o sentimento – medo – corporativista, do “eu sou você amanhã”. Estão aí Ciro Nogueira e o cavalo manco Flávio Bolsonaro...

Qual a luva do momento e qual a mão mais propícia a ocupá-la? Por Elimar Nascimento

Revista Será? (PE)

Nada mais aconselhável, hoje, que a leitura de um livro que trata das eleições presidenciais no Brasil desde a democratização. Este é o caso de A mão e a luva: o que elege um presidente, de Carlos Alberto Almeida e Tiago Garrido, lançado em 2022 pela Editora Record. Mesmo título do livro de Machado de Assis, de 1874.

O livro analisa todas as eleições presidenciais desde as de 1989, da qual saiu vitorioso Collor de Mello sobrepondo-se a 21 adversários — como Luiz Inácio Lula da Silva, Leonel Brizola, Mario Covas, Paulo Maluf, Guilherme Afif Domingos e Ulysses Guimarães, entre outros —, até as últimas eleições, de 2022, quando Lula se elegeu pela terceira vez.

Os autores do livro, cientistas políticos reconhecidos, partem do princípio de que a opinião pública é a mestra do jogo das eleições presidenciais. Aquela mesma que um dia Pierre Bourdieu disse que não existia.

A opinião pública é definida como “as visões que as pessoas têm sobre temas relacionados ao governo e às questões públicas em contraste com os assuntos privados” (p. 15). Portanto, percepções, crenças e imagens que condicionam a escolha da maioria dos eleitores. Registre-se a ressalva, dos autores, de que a opinião pública é plural, porém com uma corrente majoritária. Com essa premissa epistemológica, de fundo estruturalista, corrente na qual o sujeito quase desaparece, os autores organizam seus dados e análises.

Momentos difíceis, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

As eleições deste ano serão realizadas debaixo de surpresas provocadas pelas revelações da PF, em relação ao caso Master, e provocações originárias de Washington. Nada mais

Tempos muito estranhos é o título de livro interessantíssimo de Doris Goodwin (Editora Nova Fronteira) que trata das relações especiais entre Franklin e Eleanor Roosevelt com Winston Churchill durante a Segunda Guerra Mundial. O primeiro-ministro inglês passou, naquele período, longas temporadas na Casa Branca, trabalhando na coordenação, com o presidente dos Estados Unidos, do esforço de guerra dos aliados. Eram três personalidades fortes, distintas e com objetivos claros. Mudaram os destinos do mundo, apesar de serem completamente diferentes entre si. Eles entenderam a mudança dos tempos e conseguiram conviver bem, apesar dos egos imensos e da situação pessoal distinta. Franklin, paraplégico, conduzia a política norte-americana, Eleanor, feminista, escrevia no The New York Times enquanto namorava sua secretária, e Winston, que conduzia a Inglaterra, introduziu a bebida alcoólica na Casa Branca.

A humanidade dos jogos, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

Devemos olhar para os que chegam vulneráveis, sem a estrela dos campeões. Olhemos para Curaçao ou mesmo para o Congo, que não disputava uma copa há mais de cinquenta anos. Olhemos para a Costa do Marfim e seu grande talento, o jogador Yan Diomande. Prestemos atenção em Cabo Verde e seu goleiro Vozinha

Uma semana de jogos da Copa do Mundo já nos permite reaprender uma das maiores belezas éticas do esporte: a de nos ajudar a nos tornar o que somos. É uma bela reflexão, que remonta à cultura clássica e que talvez explique por que diferentes civilizações sempre reservaram, em alguma medida, espaço para o jogo como afirmação dos laços da comunidade.

Wagner deveria renunciar à liderança do governo, por Sergio Lirio

CartaCapital

A renúncia ao posto não seria admissão de culpa, apenas uma decisão racional ante a crise

Governador por dois mandatos, senador, figura que libertou a Bahia do jugo do coronelismo, Jaques Wagner tem experiência suficiente para entender a gravidade do momento. Renunciar à liderança do governo não significa admissão de culpa, apenas a decisão racional para estancar uma crise cuja escalada só interessa a quem aposta na estratégia do Chacrinha: confundir e não explicar. O caso do Banco Master é majoritariamente um escândalo do bolsonarismo e do Centrão, mas o apego de Wagner ao posto insufla a tese, ou a “narrativa”, para repisar o senso comum do momento, de que são todos “farinha do mesmo saco”. O drama do parlamentar vira um drama do Palácio do Planalto.

Legislativo e desvio de poder, por Pedro Serrano

CartaCapital

Os fins da lei são plausíveis de verificação objetiva e, se destoantes dos fins constitucionais, é dever do Judiciário fulminar seus efeitos

Nas próximas semanas lançarei, pela Editora Contracorrente, a segunda edição da obra O Desvio de Poder na Função Legislativa. Originalmente publicado em 1997, o tema assume grande atualidade após quase 30 anos, o que suscitou a recuperação dos limites constitucionais impostos à realização da atividade legislativa do Estado, bem como à esfera de livre decisão do legislador na produção de leis.

Num momento em que o Legislativo brasileiro tem se mostrado sedento em assumir incomum protagonismo nos rumos da República, inclusive imiscuindo-se em matérias inequivocamente afetas ao exercício da função administrativa do Estado, precisamos rememorar os limites normativos a ele impostos. Mais especificamente, diante do avanço da redefinição dos limites e das confluências entre as funções estatais, urge refletirmos sobre os limites da legítima atuação da atividade legislativa.

Sinais de exaustão do bolsonarismo, por Maria Inês Nassif

CartaCapital

O clã deu vários tiros no pé e o Congresso aliado da família aprova furiosamente leis impopulares

O que mais intriga num processo de fascistização das massas é que uma multidão cega persiga um líder obtuso, construído em torno de mentiras e de ideias tão simplistas e vagas que relativizam a verdade e o bom senso. Assim foi feito o “Mito”, como se autodenominava Jair Bolsonaro. Para um observador da história, todavia, intriga também o fato de existir um ponto de exaustão, além do qual o gênio das Mil e Uma Noites da extrema-direita é recolhido à lâmpada, para lá dormir até que alguém tenha a infeliz ideia de limpá-la e, sem querer, liberar um demônio de ideias pobres que enfeitiça multidões.

A desconexão entre representantes e representados, por Marcus Pestana

Faltam 105 dias para as novas eleições gerais no Brasil. Elegeremos o presidente, governadores, senadores, deputados. A eleição presidencial rouba a cena. A maior parte das atenções e das energias são direcionadas para ela. A eleição dos governadores ainda tem alguma visibilidade. O voto para senador é o último que o eleitor define, até porque há uma baixa compreensão sobre o papel do Senado. É a casa da Federação, representa as unidades federadas. Por isso, independente de sua população, cada estado e o DF têm 3 representantes. Mas, é na Câmara dos Deputados que o povo brasileiro - na sua diversidade, pluralidade e identidade - se faz representar.

A foto ofusca o filme, por Cristovam Buarque

Revista Veja  

É preciso enxergar o país para além do retrato do momento

Vista como foto, a violência parece diminuir com a redução da maioridade penal; vista como filme, ela pode se agravar. Com base no momento, explica-se a opinião favorável à redução da maioridade penal; mas, vista como filme, sabe-se que essa redução tende a aumentar a criminalidade, porque muitos adolescentes presos cairão nas garras do crime organizado. No longo prazo, o aumento no tempo de permanência na escola tem melhor efeito na segurança pública do que a redução da maioridade penal. Há sessenta anos, Darcy Ribeiro dizia que “se não fizermos escolas hoje, vamos precisar fazer cadeias no futuro”; na época, preferimos a foto ao filme e, agora, repetimos o erro, construindo mais cadeias para novos condenados adolescentes.

O caleidoscópio do caso Vorcaro, por Murillo de Aragão

Revista Veja

Não há um enredo único, mas vários malfeitos entrelaçados

A segunda tentativa de delação de Daniel Vorcaro foi rejeitada pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República, sob o argumento de que faltariam novidades além do que os investigadores já sabem. A recusa, porém, não encerra o jogo — apenas revela qual é ele. O objetivo de Vorcaro nunca foi confessar tudo, e sim entregar o suficiente: uma delação “meio barro, meio tijolo”, sólida o bastante para ser aceita e frágil o suficiente para não comprometer quem realmente importa. Tudo na base do “vai que cola”.

Tratando-se do Brasil, a aposta tem lógica. Há muita gente importante torcendo para que tudo termine em pizza — talvez meia calabresa, queimando alguns, e meia mussarela, poupando outros. É a chamada delação seletiva, do tipo que, segundo o ministro André Mendonça, já lhe teria sido proposta.

Poesia | Pátria Minha - Vinicius de Moraes

 

Música | Canta, Canta Minha Gente - Varios Artistas (Sambabook Martinho da Vila)