sábado, 7 de março de 2026

Direita e esquerda: uma distinção que ainda faz sentido? Por Marcus Pestana

A queda do Muro de Berlim e a dissolução da URSS trouxeram à tona a discussão sobre os conceitos de direita e esquerda, nascidos na Revolução Francesa, que haveriam se tornado obsoletos e superados como referências para o debate teórico e a ação política. O cientista político Francis Fukuyama, em seu livro “O fim da história e o último homem”, lançado em 1992, chegou a decretar, com grande repercussão, que os fatos ocorridos no final do século XX configuravam o coroamento da história humana e que o capitalismo e a democracia liberal seriam o ponto terminal e definitivo da civilização para todas as nações.    

A ascensão do capitalismo de Estado chinês, a dinastia de Putin à frente da Rússia, a consolidação das monarquias e teocracias autoritárias no Oriente Médio, a persistência de ditaduras de esquerda em Cuba, Venezuela, Coréia do Norte e Nicarágua, o surgimento do populismo iliberal, que tem em Trump sua maior expressão, parecem revogar o otimismo determinista de Fukuyama.

Neste sentido, os conceitos de direita e esquerda parecem vivos, embora embaralhados pela complexidade do mundo contemporâneo. Há uma esquerda comprometida com a democracia e outra não. Também é assim no espectro da direita. Também em relação à integração global e ao multilateralismo, há posições à direita e à esquerda, na Europa, que combatem a perspectiva europeia e o euro, na contramão do pensamento liberal e marxista. A direita patrocinou o Brexit no Reino Unido. Mélanchon e sua França Insubmissa sugerem, no limite, a saída do país da União Europeia. Donald Trump é a maior negação do liberalismo, tanto em relação à democracia política quanto à liberdade econômica de mercado.  Há liberais conservadores e conservadores liberais. Mas todos esses marcos estão situados dentro de traços constitutivos da cultura política ocidental. Na China, na Rússia, nos países árabes, nas experiências autoritárias de esquerda, as categorias referenciais são outras.

Entretanto, nos países democráticos, os conceitos de direita e esquerda, como balizas da dinâmica política e do debate público, permanecem válidos. O grande pensador italiano Norberto Bobbio já havia demarcado campo em seu livro, de 1994, “Direita e Esquerda: razões e significados de uma distinção política”. Uns, mais preocupados com a liberdade individual, com a preponderância do mercado, com a diminuição do papel do Estado. Outros, mais atentos às desigualdades sociais, propensos à uma ação estatal mais efetiva em busca de justiça social. Mas isso pressupõe uma clivagem anterior no mundo atual: quem se situa no campo da democracia e quem, à direita e à esquerda, conspira contra a democracia como valor universal e permanente. Isto provoca, inclusive, um espaço de diálogo entre a centro-direita e a centro-esquerda, que na Europa, por exemplo, se esforçam, respeitadas as identidades ideológicas, para conter os polos extremados.

Tudo indica que teremos nas eleições brasileiras de 2026 a reprodução de um quadro binário de polaridade direita-esquerda. Duas coisas seriam importantes e saudáveis: que todos os atores deixassem claríssimo seu compromisso com a democracia e as regras do jogo e que surgisse um centro político forte – hoje inexpressivo – como fiel da balança e elemento de equilíbrio de nosso sistema político.  

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