sábado, 7 de março de 2026

É só o começo, por Flávia Oliveira

O Globo

Uma eventual colaboração premiada de um ou mais envolvidos pode desnudar um esquema que o Brasil precisa expor. E superar

O escândalo do Banco Master, que o ministro Fernando Haddad, da Fazenda, já classificou como (possível) maior fraude do setor financeiro na História, é mais que isso. Cada novo capítulo destampa uma vertente da organização criminosa. Não é por acaso que a Polícia Federal (PF) pediu — e o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), concedeu — a prisão de Daniel Vorcaro em unidade federal de segurança máxima. O banqueiro é poderoso a ponto de interferir nas investigações, ameaçar testemunhas ou movimentar bilhões, mas também vulnerável à brutalidade de um sistema carcerário dominado por facções, caso do PCC, em São Paulo, e do Comando Vermelho, no Rio de Janeiro.

Uma fonte do meio judicial não duvida que, numa análise de risco, a PF tenha identificado possibilidade de retaliação. Ao determinar a transferência de Vorcaro para Brasília, Mendonça cita riscos tanto à segurança pública quanto à integridade física do investigado. Diferentemente de outros episódios de liquidação extrajudicial de instituições financeiras no Brasil, o caso Master rompeu a barreira dos paradigmas técnicos observados pelo Banco Central, como falta de liquidez, alavancagem excessiva ou ativos sobrevalorizados.

A bancarrota abriu um portal de artigos do Código Penal: crimes contra o sistema financeiro, corrupção ativa e passiva, organização criminosa, lavagem de dinheiro, violação de sigilo funcional, fraude processual, obstrução de Justiça e até intimidação e monitoramento ilegal de adversários, autoridades e jornalistas. Tudo isso consta da decisão de Mendonça, que levou à prisão, além de Vorcaro, o cunhado dele, Fabiano Zettel, o policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva e o sicário Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, que atentou contra a própria vida sob custódia da PF.

O Banco Master não apenas impôs ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) um desembolso de, ao menos, R$ 52 bilhões, equivalente a quase metade do patrimônio da entidade instituída para dar segurança ao depositantes e investidores. Por si só, já era suficientemente grave o modelo de negócio, em que o seguro para pequenos poupadores era usado para atrair clientes seduzidos pela rentabilidade muito superior à média do mercado. Mas o banco de Vorcaro, segundo as investigações, fez mais: fraudou títulos, inundou fundações públicas de previdência com ativos sem garantia e operou com, ao menos, uma gestora de recursos, a Reag, alvo da Operação Carbono Oculto, que encontrou conexões do PCC com o setor de combustíveis e fintechs da Faria Lima.

— É preciso deixar claro que esse não é um caso de liquidação bancária, mas de máfia. São fraudes envolvendo crime, daí a coordenação entre BC, PF e Ministério Público — diz uma fonte.

A rede controlada por Vorcaro — apontado, até aqui, como chefe da organização criminosa — alcançou a estrutura do Estado. Servidores da área de Fiscalização do BC compartilhavam informações, revisavam minutas e documentos, orientavam o banqueiro, desde a gestão de Roberto Campos Neto. Na política, ele influenciou a pauta do Congresso Nacional, com a tramitação de um par de projetos de interesse próprio — felizmente fracassados. O senador Ciro Nogueira, chefe da Casa Civil do governo Jair Bolsonaro, apresentou emenda para elevar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o valor coberto pelo FGC, o que multiplicaria a capacidade de captação do Master. O Legislativo também propôs a destituição de diretores do BC, como estratégia para forçar a aquisição pelo BRB.

Há suspeitas plausíveis de corrupção na relação com fundos de pensão de estados e municípios e com o banco público de Brasília. O Rioprevidência (RJ) aplicou quase R$ 1 bilhão em letras financeiras do banco; a Amprev (AP), R$ 400 milhões; o Maceió Previdência (AL), R$ 97 milhões. Ao BRB, uma carteira de crédito avaliada em R$ 6 bilhões — que talvez nem exista — foi vendida pelo dobro.

Na intensa troca de mensagens com a namorada, Vorcaro sugere relação próxima com nomes da política e do Judiciário, incluindo ministros do STF. Há referências a reuniões, encontros e viagens — com nomes, locais, dia e hora — com autoridades, à medida que a situação financeira e operacional do banco se inviabilizava. O banqueiro subornava, acessava informações da polícia e do MP, encomendava monitoramento e agressões a desafetos. De quebra, pode estar envolvido com tráfico de mulheres estrangeiras para exploração sexual, à moda Jeffrey Epstein. É esse o eixo de investigação que não deslanchou.

Se investigados a sério, o conteúdo de telefones, computadores e mídia apreendidos com Vorcaro e sua rede; o cruzamento de informações e dados; uma eventual colaboração premiada de um ou mais envolvidos podem desnudar um esquema que o Brasil precisa expor. E superar.

 

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