Folha de S. Paulo
Algoritmos são mais consistentes do que
pessoas em todo tipo de julgamento
Menores custos e maior resistência à
corrupção seriam vantagens adicionais
E se trocássemos os juízes por um algoritmo de IA (inteligência artificial)? Admito que há algo de capcioso na pergunta. Não tanto pelo conteúdo, mas pelo "timing". O Judiciário brasileiro vive um mau momento, com ministros do STF enrolados no escândalo do Master, o problema dos penduricalhos sob os holofotes da imprensa e o caso da venda de sentenças no STJ, entre outras histórias pouco edificantes.
Essa conjunção de crises tende a inflar as
preferências pela IA. A mesma pergunta feita alguns meses atrás, quando se
louvava a firmeza do Supremo na defesa da democracia, talvez gerasse outras
respostas.
O mundo é de fato complicado. As mesmas
pessoas e instituições que acertam num caso podem errar em outros. No mais, o
menor custo das IAs quando comparado ao de salários magistocráticos e a
invulnerabilidade dos computadores à corrupção e a paixões como ganância,
relações de amizade e até ao amor são itens que devem mesmo ser incluídos na
coluna de vantagens do algoritmo.
Em nome da universalidade, porém, podemos
tentar responder à pergunta ignorando disfuncionalidades muito características
do Brasil. Em países em que os custos do Judiciário são mais contidos e nos
quais magistrados não frequentam com tanta assiduidade o noticiário político ou
policial também valeria substituir juízes de carne e osso por programas de computador?
Já comentei aqui o
livro "Ruído", em que Daniel Kahneman, Olivier Sibony e Cass Sunstein
fazem uma defesa enfática da superioridade das IAs. Não porque os algoritmos
sejam particularmente bons na tarefa, mas porque humanos somos péssimos nela.
Na visão dos autores, a mente humana é arquiteturalmente incapaz de fazer
julgamentos que sejam ao mesmo tempo objetivos e consistentes. Qualquer
algoritmo, mesmo os mais simples, se saem melhor do que pessoas.
Não consigo discordar. Se me fosse dada a
escolha entre ser julgado por um juiz de verdade e uma IA, não pestanejaria:
sendo inocente, correria para o algoritmo; se culpado, tentaria a sorte com um
humano.
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