Do bônus ao ônus demográfico
Por Folha de S. Paulo
Segundo estimativa do IBGE, população de
dependentes cresceu 0,9% em 2025, ante 0,1% da faixa etária ativa
Tendência impõe reformar a Previdência
Social, fortalecer o SUS e elevar a produtividade; debate, porém, está atrasado
no Brasil
Realizado com atraso de dois anos devido à
pandemia de Covid-19, o Censo 2022 mostrou
que a população brasileira envelhece mais rapidamente do que se imaginava.
Desde então, novas projeções reforçam essa percepção —ainda não devidamente
captada, infelizmente, pelas políticas públicas.
Estimativas recém-divulgadas pelo IBGE apontam que o estrato de 60 anos de idade ou mais teve expansão de 58,7%, de 2012 até 2025, saltando de 22,2 milhões para 35,2 milhões. No mesmo período, o número de jovens abaixo de 30 anos encolheu 10,4%, de 98,2 milhões para 88 milhões.
O fenômeno resulta de progressos da
sociedade: maior expectativa de vida, graças a avanços na saúde,
e queda da taxa de fecundidade, por acesso a métodos contraceptivos,
participação da mulher no mercado de
trabalho e maior investimento na educação de
cada filho. Mas também impõem-se desafios, especialmente para os países que não
conseguiram tornar-se ricos.
O Brasil perdeu a oportunidade de fazê-lo nos
anos do chamado bônus demográfico —vale dizer, de maior expansão e proporção da
população em idade produtiva, entre 15 e 59 anos. A depender do critério
adotado, essa vantagem econômica já se esgotou ou está em franco declínio.
De acordo com os cálculos do IBGE, crianças e
adolescentes até 14 anos e idosos acima dos 60 —o que se convenciona chamar de
população dependente— somaram 36% da população total no ano passado. Esse grupo
cresceu 0,9% em relação a 2024, ante apenas 0,1% do contingente em idade ativa.
Na década de 2040, dependentes serão mais de 50%.
O ônus mais
óbvio desse processo se dá na Previdência
Social e há muito está em curso. O sistema passou a ser
deficitário nos anos 1990, mas só em 2019 foi aprovada uma reforma ampla, com
fixação de idades mínimas para as aposentadorias. Pior, boa parte da economia
esperada foi comprometida com a volta da política de reajustes de benefícios
acima da inflação.
Também a saúde pública tende a ficar
sobrecarregada e terá de se aparelhar para o avanço de doenças e condições
associadas à velhice; em contrapartida, a educação básica já lida com um número
declinante de alunos. No entanto, as normas de financiamento das duas áreas
ainda não levam em conta tais diferenças.
Em artigo publicado na Folha, o
demógrafo José Eustáquio Diniz Alves rejeita
visões catastrofistas para a transformação populacional. Para ele,
as dificuldades podem ser compensadas por ganhos de produtividade, por meio de
investimentos em educação, saúde, ciência e infraestrutura;
os idosos, ademais, poderão viver com mais bem-estar e integração ao mercado de
trabalho.
Seja como for, fato é que o debate de tais
questões está atrasado no Brasil. Em particular, incentivos à produtividade
como abertura da economia e privatizações parecem longe do radar de governantes
e legisladores em Brasília.
O eterno retorno das greves de servidores de
universidades
Por Folha de S. Paulo
Em reação a bônus dado a professores,
funcionários e parte dos alunos da USP fazem paralisação
Servidores de 53 universidades e institutos
federais estão em greve; é preciso rever o modelo de financiamento do ensino
superior público
Funcionários da Universidade de São Paulo estão
em greve —de
novo. Nos últimos 20 anos, ocorreram 9 paralisações de servidores ou
professores da USP,
de acordo com levantamento do site Poder360. A última, em 2023, durou 42 dias.
O fenômeno é comum nas universidades públicas
e indica que o modelo de financiamento é insustentável. No momento, servidores de
53 universidades e institutos federais estão em greve.
Os funcionários da USP entraram em greve em
14 de abril, em reação a um acréscimo de R$ 4.500 no salário mensal de docentes
que assumirem projetos considerados estratégicos, como a oferta de disciplinas
em inglês e ações de extensão.
Trata-se da Gratificação por Atividades
Complementares Estratégicas (Grace), proposta pela reitoria e aprovada pelo
Conselho Universitário no final de março.
Em comunicado, o Sindicato dos Trabalhadores
da Universidade de São Paulo (Sintusp) diz: "Não
podemos aceitar R$ 4.500 para eles e nada para nós". Estudantes
também não aceitaram. Até terça (20), discentes de 15 faculdades haviam aderido
à greve.
O sindicato pede reajuste fixo de R$ 1.200
nos salários, além de recomposição integral das perdas calculadas pela inflação
desde 2012 (14,5%). Por sua vez, os alunos reivindicam melhores condições de
permanência estudantil, com aumento no valor de bolsas, e reclamam da má
qualidade dos restaurantes universitários.
A USP fez uma proposta: o mesmo montante
anual destinado à Grace (R$ 238,4 milhões) seria dividido pelos servidores, o
que daria cerca de R$ 1.600 mensais. O Sintusp avaliará nesta quarta (21).
O orçamento da USP oriundo do Tesouro
Estadual em 2026 é de R$ 9,4 bilhões, sendo que 84,2% (R$ 7,9 bilhões) vão para
pagamento de pessoal, alta de 5,6% ante 2025. No ano passado, a fatia dessa
rubrica foi de 82%.
Já a verba para bolsas e auxílios da Política
de Permanência e Formação Estudantil subiu 6% entre 2024 e 2025 e 4% em 2026,
chegando a R$ 215 milhões.
Não à toa, ao aprovar a Grace, o Conselho
Universitário também alterou normas internas relacionadas ao controle de
despesas com pessoal, flexibilizando critérios que limitam pagamentos.
Tal pressão orçamentária se espraia pelas
universidades públicas. Mesmo assim, por corporativismo e ideologia, a
comunidade acadêmica reluta em revisar o modelo de financiamento, contemplando
a contribuição privada, inclusive de alunos.
Sem mudar essa chave, gastos continuarão a subir, investimentos, a cair, e mais greves virão.
Derrotar juro alto é desafio comparável ao do
Plano Real
Por O Globo
Causas do problema são conhecidas, e nenhuma
delas intratável — da baixa poupança ao desequilíbrio fiscal
Quatro em cinco famílias brasileiras relatam
ter dívidas a vencer. A proporção é inédita. O endividamento tem crescido em
todas as faixas de renda. Pelas projeções da Confederação Nacional do Comércio
de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o problema deverá continuar avançando,
apesar de o Banco Central (BC) ter reduzido juros na última reunião do Comitê
de Política Monetária. Com a taxa básica em 14,75% ao ano, o país continua com
um dos maiores juros reais do mundo — quase 10%, descontada a inflação. O
Brasil é uma anomalia quando se trata do preço do dinheiro.
É difícil para as famílias pagar suas
dívidas. Empresas também vivem reclamando do juro alto, e são frequentes os
programas de refinanciamento do crédito. Tal situação deveria provocar no
Executivo e no Legislativo reflexão profunda. É preciso encarar a questão com a
mesma seriedade com que a inflação foi combatida na época do Plano Real. No
início dos anos 90, o índice mensal ultrapassava 80%. Em 30 dias, o poder de
compra dos salários era reduzido quase à metade. Para quem tinha passado a vida
com reajustes diários, parecia normal. Não era. Tratava-se de aberração. O
mesmo pode ser dito sobre o patamar atual dos juros.
O problema tem várias causas, nenhuma delas
intratável. A primeira — e mais importante — é o desequilíbrio das contas
públicas. Ainda que o risco de calote seja baixo, quanto maior o endividamento
público, mais alto é o retorno exigido pelos investidores para comprar títulos
emitidos pelo governo. Nesse quesito, o histórico do governo Luiz Inácio Lula
da Silva é vergonhoso. Quando Lula assumiu, a dívida bruta equivalia a 73,5% do
Produto Interno Bruto (PIB). Hoje está em 79%, e a previsão é de 86% já no ano
que vem. Há ainda um segundo efeito nefasto do desequilíbrio das contas públicas.
Ao elevar o gasto, o governo aquece a demanda, pressiona a inflação e força o
BC a aumentar ainda mais a taxa básica, a Selic.
A segunda causa é o excesso de crédito
dirigido. Linhas especiais para determinados setores, via programas do governo,
fazem com que 43% do mercado de crédito fique imune, de forma parcial ou
completa, às variações da Selic. Em razão disso, quando o BC é forçado a
aumentá-la, o nível precisa ser bem mais alto para ter o impacto desejado na
oferta de crédito.
A terceira causa é a insegurança jurídica.
Contratos firmados dentro da lei nem sempre são garantidos pelos tribunais.
Muitos juízes tendem a favorecer uma das partes em detrimento do pactuado. Não
faltam exemplos. Na década passada, contratos de financiamento de veículos foram
desconsiderados para beneficiar inadimplentes. Onde faltam garantias para
recuperar ativos, a saída para quem empresta é aumentar os juros de todos.
Por fim, a poupança é baixa, reduzindo a
oferta de dinheiro e aumentando seu custo. Falta também mais competição no
mercado bancário, apesar de a expansão recente das fintechs e de o
compartilhamento de dados de clientes via Open Finance terem contribuído para
reduzir as taxas em alguns segmentos. Ainda há muito a avançar. Alguns
problemas têm solução mais rápida, outros no longo prazo. Porém todos devem ser
tratados com a mesma urgência para que o país deixe de conviver com uma
aberração que inibe o crescimento da economia e corrói os recursos de todos os
brasileiros.
Queixas não podem pôr em risco avanço trazido
pelo pedágio ‘free flow’
Por O Globo
Sistema garante maior fluidez e segurança nas
rodovias. Críticas de usuários devem resultar em melhorias
Têm crescido as críticas e reclamações de
usuários sobre o sistema eletrônico de cobrança de pedágio conhecido como free flow. O funcionamento do
sistema é simples. Em vez das ultrapassadas cabines de pedágio, pórticos
eletrônicos nas estradas leem os dados do adesivo com chip colado no parabrisa
do veículo ou sua placa — e a cobrança vai para o portal da concessionária que
administra a estrada. O pedágio é tarifado de forma proporcional aos
quilômetros rodados na rodovia. Caso não haja etiqueta de cobrança automática e
as tarifas não sejam pagas, o sistema cobra multa dos motoristas.
As queixas se concentram no número elevado de
evasões registradas. Apenas no trecho fluminense da rodovia Rio-Santos, onde
o free flow começou
a ser usado em 2023, houve 1,26 milhão de autuações sob a alegação de que os
motoristas não pagaram o pedágio devido, segundo reportagem do GLOBO.
Motoristas têm relatado dificuldades de acesso às plataformas de pagamento das
concessionárias, atraso nos registros de passagem pelos pórticos, cobranças
indevidas e comunicação ineficiente com os motoristas. Reclamam, também, da
falta de integração nacional. Motoristas que percorrem diversas rodovias
pedagiadas precisam acessar vários portais ou aplicativos para fazer seu acerto
de contas.
Todos esses problemas poderiam ser resolvidos
com facilidade. O número elevado de multas não serve de argumento para reprovar
um método de cobrança de pedágio comum no mundo todo. O simples fato de serem
eliminadas filas e engarrafamentos diante das cabines justifica que os usuários
esperem pelos ajustes, normais em sistemas desse tipo. O tema já alimenta
discussões no Congresso, e seria um erro se os parlamentares transformassem em
problema uma solução que facilita a vida de todos, motoristas e concessionárias.
É possível que haja rigor excessivo na multa
de R$ 195,23 e 5 pontos na carteira de habilitação para quem não pagar o
pedágio eletrônico em até 30 dias. Os críticos também entendem que não se pode
converter uma dívida civil em multa de trânsito. O deputado federal Hugo Leal
(PSD-RJ) apresentou Projeto de Lei para ampliar os prazos de pagamento de
multas e até suspendê-las, com base no argumento de que o sistema pune o
usuário devido a falhas estruturais. Mas, se os sites e aplicativos forem
melhorados, as dificuldades desaparecerão, e o projeto se tornará inócuo. É
nisso que as concessionárias deveriam se concentrar.
O uso de free flow em estradas ainda é pequeno. Estima-se que responda por algo entre 5% e 10% do tráfego em rodovias com pedágio. Mas o método de cobrança se expande com rapidez. Pelas estimativas, a proporção continuará a aumentar, podendo atingir de 30% a 50% em 2030. À medida que o free flow avança, melhora a fluidez do tráfego e aumenta a segurança nas rodovias. Por tudo isso, seria um erro rejeitar a nova tecnologia, que torna as viagens mais rápidas, mais seguras e mais confortáveis.
Campanha medíocre
Por O Estado de S. Paulo
Pelo que se viu até aqui, disputa
presidencial se perderá entre denúncias de corrupção, identidades tribais e
assistencialismo rasteiro, enquanto temas cruciais seguem negligenciados
A campanha eleitoral oficial ainda não
começou. Mas já está claro que, no que depender dos dois principais
pré-candidatos à Presidência da República, os eleitores terão de cruzar um
deserto de ideias até as urnas. Tanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva
como o senador Flávio Bolsonaro têm se mostrado fiéis à tradição de indigência
que marca os pleitos nacionais mais recentes. Nem um nem outro se mostram
dispostos a travar um debate ancorado em fatos, orientado por prioridades
nacionais e organizado por propostas condizentes com as necessidades mais
prementes do País. Em vez disso, grassam mentiras, ataques pessoais e estímulos
a uma guerra tribal de soma zero que nada têm a ver com o interesse público.
Ao olhar para um lado, os eleitores se
deparam com Lula, um governante envelhecido em suas ideias, desconectado do
Brasil e do mundo do século 21 e, ademais, protagonista de dois dos maiores
esquemas de corrupção de que o Brasil já teve notícia na história recente: o
“mensalão” e o “petrolão”. Ao se virar para o outro lado, lá está Flávio
Bolsonaro, um senador que só existe politicamente por ter o sobrenome do pai e
que é notório – para além de seu evidente despreparo para administrar até uma
loja de chocolates – pela suspeita de ter liderado um esquema de “rachadinhas”
em seu gabinete na Alerj, termo singelo para abarcar crimes graves como
peculato, corrupção e lavagem de dinheiro.
A percepção social de que a política nacional
está indelevelmente maculada por práticas pouco republicanas desde o topo
contribui para uma descrença generalizada. Quando “todos são corruptos” aos
olhos dos eleitores, a decisão de voto tende a se deslocar do campo
programático – racional – para o terreno identitário – emocional. Noutras
palavras: o bem comum se torna uma consideração menos relevante para a tomada
de decisão do que a reafirmação de convicções e o fortalecimento dos vínculos
de grupo.
Isso ajuda a explicar por que temas laterais
ocupam o centro do debate eleitoral no País. A chamada “guerra cultural”,
envolvendo primordialmente questões de costumes, passa a organizar as
discussões na esfera pública, enquanto desafios estruturais muitíssimo mais
importantes para o Brasil seguem à margem – quando não olimpicamente ignorados.
Essa inversão de prioridades empobrece a democracia e compromete a capacidade
do eleitor de fazer escolhas bem fundamentadas.
Nesse ambiente hiperintoxicado pela
ideologia, questões cruciais para o País, como o ajuste fiscal, as reformas
administrativa, previdenciária e do Judiciário, as deficiências de
infraestrutura, os gargalos da saúde pública e da educação básica, entre tantos
outros, perdem espaço para a ladainha assistencialista de curto prazo. A
conquista do eleitor passa a girar não em torno de projetos nacionais em
disputa, e sim de quem promete distribuir mais dinheiro – longe, é claro, de
uma estratégia sustentável de desenvolvimento. O resultado é a substituição de
políticas públicas estruturantes por medidas populistas tão apelativas quanto
irresponsáveis.
Este jornal espera que isso não seja um
destino inscrito em pedra. A campanha eleitoral tem de servir à discussão de
uma agenda virtuosa para o Brasil. Áreas nas quais o País está atrasado não
faltam. Da incorporação de novas tecnologias, como a inteligência artificial, à
modernização do Estado. Do equilíbrio das contas públicas ao desenvolvimento da
educação básica. Da reorganização do Sistema Único de Saúde à reforma do
Judiciário. Os desafios são sobejamente conhecidos e há muito diagnosticados.
Faltam coragem e disposição política para enfrentá-los com seriedade e espírito
público numa disputa eleitoral que promete ser acirrada.
Aqui reside a responsabilidade das forças
políticas liberais e democráticas. Longe dos extremos que hoje intoxicam o
debate público, quando não o interditam, o centro tem o dever de apresentar ao
País um projeto de governo consistente, com visão de Estado, que combine
responsabilidade fiscal, sensibilidade social e resgate institucional. Ainda
que não seja a opção favorita dos eleitores, a julgar por pesquisas de momento,
seu papel é fundamental para a qualificação do debate público e,
consequentemente, para o aprimoramento da democracia. Com todas as suas
carências e potencialidades, o Brasil exige e merece mais do que essa miséria
intelectual que está posta.
O bate e assopra do governo Lula
Por O Estado de S. Paulo
Dividido entre a negociação e o diálogo
prometido por José Guimarães e a retórica de confronto de Guilherme Boulos,
Lula expõe incoerência, fragiliza a articulação e tensiona o Congresso
Qual é, afinal, o governo que vale quando se
trata da relação com o Congresso Nacional? O que se apresenta pela via
institucional, negociadora e pragmática – agora encarnado no recém-empossado
ministro da Secretaria de Relações Institucionais, José Guimarães, tratado como
“amigo-irmão” pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e
interlocutor preferencial do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União
Brasil-AP)? Ou o que aposta na confrontação, na retórica de mobilização e na
pressão pública – representado pelo ministro da Secretaria-Geral da
Presidência, Guilherme Boulos, que falou, entre outras estultices, em “a onça
vai beber água” ao tratar da tramitação de projetos no Parlamento?
A pergunta é pertinente diante de duas marcas
do atual mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva: a fragilidade das
propostas apresentadas ao Legislativo e ao País – quando não sua simples
ausência – e a dificuldade de coordenação política diante de uma base de apoio
frágil e um Congresso que ampliou seu poder, sobretudo no controle do
Orçamento. A resposta, no entanto, é clara: os dois governos coexistem. E não
por acaso. O governo Lula reflete seu demiurgo. Quem acompanha a trajetória de
Lula com um mínimo senso crítico sabe do seu absoluto descompromisso com a
coerência. Ele fala o que quer, quando quer e como quer, tão somente movido por
sua antes aparentemente infalível intuição político-eleitoral e seu comprovado
senso de oportunidade.
Ao longo dos anos, Lula consolidou a
habilidade de falar a públicos distintos com linguagens distintas. No governo,
isso se traduz na oscilação entre o conciliador que afaga o Congresso e o líder
que tolera – quando não estimula – a retórica de confronto de seus auxiliares.
O que poderia ser interpretado como flexibilidade política, na prática, revela
ausência de eixo. O resultado é um governo errático, cuja identidade se
dissolve entre a negociação institucional e a mobilização ideológica. A
ambiguidade não amplia apoios, e sim corrói a confiança, desorienta aliados e
reforça a percepção de oportunismo, como se a condução do governo fosse menos
fruto de estratégia e mais de ajustes táticos ditados pela conveniência.
Entre o afago e a ameaça, o governo insiste
em ser duas coisas ao mesmo tempo. Essa condição permite ao governo estar
simultaneamente em registros distintos, sem compromisso com coerência mais
robusta. A posse de Guimarães, prestigiada por lideranças do Legislativo,
sinalizou uma tentativa de recompor uma relação funcional com o Congresso. “Não
tem governo que dê certo se não tiver diálogo com o Congresso Nacional. Quero
ser instrumento dessa construção política com o Congresso”, disse ele,
reafirmando o óbvio por vezes esquecido e reconhecendo que a governabilidade
depende de articulação política estável e previsível. Foi saudado com
entusiasmo por Davi Alcolumbre. Trata-se da face que compreende as exigências
do presidencialismo de coalizão, no qual o Executivo depende de maioria
parlamentar e o Congresso é ator legítimo e indispensável.
A outra face se revela no discurso de
Guilherme Boulos. Ao tratar do projeto que prevê o fim da escala 6x1, o
ministro afirmou que “cada parlamentar terá de decidir se votará com os
trabalhadores brasileiros ou com os privilegiados” e fez arremates ameaçadores.
Isso é mais do que estilo retórico. Ao enquadrar o Congresso como adversário
dos trabalhadores, Boulos reedita um expediente conhecido: mobilizar a opinião
pública contra o Legislativo, simplificar o debate e reduzir sua complexidade a
uma disputa moral entre “povo” e “elite”.
A duplicidade cobra seu preço. A política não
tolera indefinições prolongadas. Não há articulação eficaz quando o mesmo
governo que negocia nos bastidores estimula, em público, a deslegitimação de
seus interlocutores. Não há confiança quando o Parlamento é simultaneamente
parceiro e alvo. Mais grave ainda é o efeito institucional dessa ambiguidade,
que reintroduz uma lógica já comprovadamente corrosiva para a democracia
brasileira.
Seria desejável que o governo Lula definisse
qual de suas faces prevalecerá. Mas, à luz de sua trajetória, convém esperar
sentado.
A armadilha dos royalties
Por O Estado de S. Paulo
Sem boa gestão, receita adicional com
produção de petróleo não resulta em qualidade de vida
Municípios que recebem compensações
financeiras de empresas que exploram petróleo e gás natural, os chamados
royalties, não necessariamente oferecem uma melhor qualidade de vida à sua população,
ou seja, não basta receita extra, é preciso boa gestão dos recursos.
Estudo da organização da sociedade civil
Agenda Pública mostrou que, dos 50 municípios que mais receberam royalties de
petróleo em 2024, nenhum apresentou um elevado nível de qualidade de vida.
A entidade baseia-se no marcador Índice de
Condições de Vida (ICV) dos municípios produtores de petróleo. O ICV mede o
desempenho de tais municípios em oito dimensões, entre as quais saúde,
educação, infraestrutura, meio ambiente, desenvolvimento econômico e gestão
pública. Quanto mais próximo de 1 é o índice, mais desenvolvida é a cidade.
Nenhum município avaliado teve nota superior
a 0,7, pontuação mínima para ser considerado de alta condição de vida. Os que
mais se aproximaram foram o capixaba Linhares (0,643), o paranaense Araucária
(0,638) e o fluminense Resende (0,625). Já o amazonense Coari (0,377) e o
fluminense São Francisco de Itabapoana (0,351) ficaram na penúltima e última
colocações.
Resguardadas as diferenças de desenvolvimento
entre as Regiões Norte e Sudeste, o caso de Coari chama a atenção. A média
salarial no município, que desde os anos 1980 conta com uma base de extração de
petróleo da Petrobras, é alta: R$ R$ 9.838,69. Ainda assim, 71% das pessoas que
lá vivem estão em situação de pobreza. De acordo com a Agenda Pública, trata-se
da maior média salarial e, ao mesmo tempo, a maior taxa de pobreza dos
municípios petrolíferos.
Ao mesmo tempo, Maricá e Saquarema, ambos no
Rio de Janeiro, recebem mais de R$ 2 bilhões de royalties de petróleo por ano
e, mesmo assim, apresentam condições de vida inferiores às de municípios que
recebem menos de R$ 100 milhões.
Para que casos como o de Coari não ocorram, a
Agenda Pública sugere investimentos massivos em educação, o que é fundamental para
que a população local se qualifique e possa atuar em empresas da cadeia de
valor do petróleo.
Não faz nenhum sentido que um município
receba uma receita extra, a título de compensação pela exploração de recursos
naturais, e não consiga gerir os recursos de modo a garantir a prosperidade de
seus cidadãos.
Além de estarem atentos às necessidades
locais, gestores de municípios produtores de petróleo também precisam se
preparar para lidar com a chegada de novos residentes, muitas vezes atraídos
pela ideia da bonança petroleira. Não raro, o aumento repentino de população
leva a uma piora nos índices de criminalidade.
O preço do barril do petróleo aumentou significativamente em 2026, superando os US$ 100 mais de uma vez, na esteira do conflito no Oriente Médio. Com isso, os municípios produtores devem arrecadar ainda mais royalties neste ano do que no ano passado. Como se vê, porém, uma chuva de receitas extras não é garantia de qualidade de vida. Sem gestão adequada, problemas como violência e desigualdade podem até mesmo se agravar.
Colapso de corrente no Atlântico é ameaça
maior que a guerra
Por Valor Econômico
A Amoc é uma parte fundamental do sistema
climático global e seu possível colapso trará consequências destrutivas para a
Europa, a África e as Américas
A guerra dos EUA e de Israel contra o Irã tem
desviado a atenção de todo o mundo da emergência climática, enquanto o planeta
se aproxima de um perigoso e catastrófico ponto de não retorno, o colapso da
corrente do Atlântico, cujo nome oficial é Circulação Meridional do Atlântico
(Amoc, na sigla em inglês), com consequências destrutivas para a Europa, a
África e as Américas.
A Amoc é uma parte fundamental do sistema
climático global e encontra-se em seu ponto mais fraco em 1.600 anos como
resultado da crise climática, apontam cientistas. Em 2021, os pesquisadores
identificaram sinais de alerta de um ponto de inflexão. Por se tratar de um
sistema complexo, os modelos computacionais para a Amoc produzem resultados
bastante variados, desde aqueles que indicam nenhuma desaceleração adicional
até 2100 até aqueles que sugerem uma significativa desaceleração de cerca de
65% — mesmo se as emissões de carbono provenientes da queima de combustíveis
fósseis forem gradualmente reduzidas a zero.
Cientistas franceses da Universidade de
Bordeaux e do centro de pesquisas Inria combinaram os modelos climáticos com
dados de observações oceânicas do mundo (temperatura e salinidade da superfície
do Atlântico) para determinar qual projeção era a mais confiável, e descobriram
que as projeções mais pessimistas estão mais próximas da realidade. Eles
encontraram uma desaceleração estimada de 42% a 58% até 2100, um nível que
quase certamente levará ao colapso da corrente. Os achados dos pesquisadores
foram publicados na revista Science Advances na semana passada.
A Amoc transporta água tropical aquecida pelo
sol para a Europa e o Ártico — razão pela qual os países europeus,
particularmente no noroeste, desfrutam de um clima temperado muito mais ameno
do que regiões em latitudes semelhantes, como o Canadá ou a Sibéria —, onde ela
esfria e afunda, formando uma profunda corrente de água fria no caminho de
volta para o sul. Um colapso dessa corrente alteraria a faixa de chuvas
tropicais da qual milhões de pessoas dependem para cultivar seus alimentos,
mergulharia a Europa Ocidental em invernos extremamente frios e secas de verão,
perturbaria as monções na África e na Ásia e aumentaria o nível do mar — já em
ascensão — no Atlântico em 50 cm a 100 cm.
Novas modelagens computacionais mostram ainda
que ela emitiria até 640 bilhões de toneladas de dióxido de carbono perto da
Antártida, aquecendo o planeta em mais 0,2°C. Apesar do modesto efeito de
aquecimento global, as anomalias regionais de temperatura seriam
significativas: as temperaturas do Ártico esfriariam em cerca de 7°C, enquanto
as temperaturas da Antártica aqueceriam em cerca de 6°C.
Para o Brasil, o colapso da Amoc traria uma
mudança nos padrões de precipitação na Amazônia, com redução de chuvas no norte
e aumento de chuvas no sul do bioma. Isso terá forte impacto na Zona de
Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), que leva a umidade da floresta para o
Sudeste e o Centro-Oeste do Brasil — áreas que concentram a produção de
commodities exportadoras, como a soja.
As mudanças climáticas desencadeadas pelo
enfraquecimento da Amoc, combinadas com o impacto do desmatamento podem
provocar um colapso irreversível da cobertura vegetal da Amazônia, levando a
maior floresta tropical do mundo a um ponto de não retorno. Stefan Rahmstorf,
do Instituto Potsdam para Pesquisa do Impacto Climático, na Alemanha, alerta
que o colapso da Amoc deve ser evitado “a qualquer custo”. “As mudanças
climáticas mais dramáticas e drásticas que vimos nos últimos 100 mil anos da
história da Terra ocorreram quando a Amoc mudou de estado”, disse, referindo-se
a colapsos da corrente no passado da Terra.
Se por um lado a guerra no Oriente Médio
desvia a atenção dos governos desse risco planetário, por outro, pode ser o
empurrão que faltava para acelerar a descarbonização das economias como
resposta à escalada dos preços dos combustíveis fósseis. Com o conflito armado
se arrastando para o pior cenário, de meses de interrupção do vital Estreito de
Ormuz — por onde passavam 20% do fluxo global de petróleo e gás —, já se vê
alguma movimentação para enfrentar a limitação da oferta física dos
combustíveis fósseis reduzindo a demanda e a dependência dessa commodity
altamente vulnerável às disputas geoeconômicas. A Comissão Europeia, por
exemplo, apresentará nesta semana uma série de medidas para incentivar o
trabalho remoto, subsidiar o transporte público, melhorar a eficiência
energética e ajudar na transição para energias limpas.
O Brasil deve aproveitar a receita extra com as exportações de petróleo e gás para acelerar a eletrificação da economia — em vez de tentar manter só o consumo de combustíveis fósseis por meio de subsídios. Aumentamos a geração de energia solar e eólica, mas isso trouxe fragilidades ao sistema nacional, prejuízos às geradoras e uma conta mais alta ao consumidor por falta de planejamento. Este é o momento de garantir o futuro, enfrentar a emergência climática e reduzir a vulnerabilidade energética.
As cartas do Brasil no jogo das terras raras
Por Correio Braziliense
A exploração e o aproveitamento das terras
raras e minerais críticos devem ser tratados como um projeto de Estado, e não
de governo
O mundo vive uma corrida que vai definir o
modo de vida no futuro. Se o século 20 foi moldado pelo petróleo, a década de
2020 deu início à era dos minerais críticos e às terras raras. Lítio, nióbio,
cobalto e neodímio não são apenas nomes na tabela periódica: eles são os
alicerces da necessária transição energética, essenciais para a fabricação das
baterias de carros elétricos, turbinas eólicas e chips de última geração.
Diante da nova realidade, o cenário é de urgência para quem quer sair na
frente. Nesse contexto, a concorrência entre as grandes potências,
especialmente China e Estados Unidos, pelo controle das cadeias de suprimentos
tecnológicos já foi parar no espaço.
A missão Artemis II, que neste mês realizou
uma trajetória ao redor da Lua, é o primeiro sinal mais visível dessa disputa.
Ao focar em validar o sistema de transporte tripulado ao redor do satélite
natural, ela se transformou na base para uma economia lunar que visa, a longo
prazo, explorar esses materiais escassos na Terra. O sucesso obtido representa
um marco no programa norte-americano e é o passo final, antes do pouso humano
em solo lunar, com o Artemis III, onde a geologia do satélite vai passar a
desempenhar o papel principal.
Se a briga já se estende para as esferas
espaciais, cabe ao Brasil ocupar território. O país tem a terceira maior
reserva de terras raras do mundo e precisa se posicionar diante dessa
oportunidade histórica. O que está em jogo não é apenas a balança comercial,
mas a possibilidade de saltar de mero exportador de commodities minerais para
um protagonista na industrialização verde. A participação nacional tem que
deixar de ser apenas a de cavar o solo e enviar o minério bruto para ser
processado no exterior. É primordial atrair tecnologia para que o refino e a
fabricação de componentes ocorram em solo brasileiro. O desafio, porém, é
colossal, uma vez que até mesmo a própria exploração ainda engatinha no
Brasil.
Outro ponto extremamente sensível e que exige
total atenção é encontrar o caminho para extrair essa riqueza sem comprometer a
preservação ambiental. A questão global é que, para conter o aquecimento global
por meio de energias limpas, a saída é intensificar uma atividade invasiva para
o meio ambiente. Nesse ponto, a gestão pública e o rigor técnico devem se
encontrar. O governo brasileiro precisa consolidar leis que jamais flexibilizem
a segurança. A exploração de minerais estratégicos deve ser acompanhada de
planos rigorosos de recuperação de áreas degradadas e de sistemas constantes de
monitoramento.
O Brasil tem em mãos diversas cartas para colocar na mesa, mas precisa discutir de maneira ampla a sua atuação nesse campo. A exploração e o aproveitamento das terras raras e minerais críticos devem ser tratados como um projeto de Estado, e não de governo. Transformar o subsolo brasileiro em motor de inovação sem destruir as riquezas naturais é a equação a ser resolvida. O país pode usar os cerca de 21 milhões de toneladas de terras raras que possui em favor da sustentabilidade global e da redução dos impactos das mudanças climáticas, além de garantir o seu desenvolvimento e crescimento econômico. Para isso, não pode mais demorar para definir políticas claras de incentivo, salvaguardas ambientais e investimentos tecnológicos essenciais.
Cresce o número de pessoas morando sozinhas
Por O Povo (CE)
É urgente que as autoridades governamentais e
o Congresso Nacional ponham essa pauta na ordem do dia
Os dados divulgados pelo Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística (IBGE), colhidos pela Pesquisa Nacional por Amostra
de Domicílios Contínua (Pnad), apresentam um desafio para as autoridades do
País. O estudo mostra que a população brasileira está envelhecendo, além
de crescer em ritmo menor. No ano passado, a população somava 212,7 milhões de
pessoas (51,2% mulheres), aumento de 0,39% comparado a 2024, com uma taxa de
crescimento abaixo de 0,60% desde 2021.
Outro fenômeno que deve ser observado com
atenção é o aumento do número de pessoas que moram sozinhas, cuja
população mais do que dobrou no período de 2012 a 2025, com alta de 109,8%. São
15,6 milhões de lares unipessoais, representando 19,7% do total de domicílios
brasileiros que, em 2025, somavam 79,3 milhões. Uma em cada cinco residências
no Brasil tem apenas um habitante.
Os homens são maioria entre as pessoas que
moram sozinhas, percentual de 54,9% de lares unipessoais. Segundo o
analista William Kratochwill, do IBGE, entre os homens esse tipo de arranjo é
mais associado à separação de casais, quando os filhos costumam ficar com a
mãe. Diferentemente do que poderia se pensar, que a maioria dos homens que
moram sozinhos seriam jovens em busca de uma possível independência dos pais, a
pesquisa revela que a maioria deles (56,4%) têm de 30 a 59 anos; o restante se
divide entre 15 a 29 anos e 60 anos ou mais.
Quanto às mulheres, o perfil é outro. Mais da
metade das que viviam sozinhas em 2025 (56,5%) tinham 60 anos ou mais. Para
Kratochwill esse padrão relaciona-se, principalmente, à maior longevidade
feminina, viuvez ou separação em idade mais avançada. É também preciso
considerar que muitas mulheres escolhem morar sozinhas para manter a autonomia.
Esses dados têm de ser observados pelas
autoridades brasileiras, pois tanto o envelhecimento da população quanto o
aumento de idosos morando sozinhos apontam para a necessidade de políticas
específicas para esse segmento da população brasileira, que tende a aumentar
ainda mais. Certamente, os serviços básicos de saúde precisam ser
adaptados de modo a criar uma rede de proteção a essa população.
É certo que o Sistema Único de Saúde
(SUS) já desenvolve programas de atendimento domiciliar, entre outros, mas
a população idosa tem questões específicas relacionadas à saúde, além de outras
particularidades . O fato é que o aumento das demandas vai exigir o
fortalecimento do SUS, que hoje já não consegue atender plenamente as
necessidades da população devido à falta de verbas.
Portanto, é urgente que as autoridades
governamentais, nas três esferas de poder — federal, estadual e municipal — e o
Congresso Nacional ponham essa pauta na ordem do dia.

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