quinta-feira, 23 de abril de 2026

Realidade e fantasia nas eleições de 2026, por Felipe Salto

O Estado de S. Paulo

As fantasiosas e criativas promessas que costumam aparecer nos períodos eleitorais devem – ao menos em parte, que seja – dar lugar ao necessário realismo

O editorial do Estadão de ontem (Campanha medíocre, 22/4, A3) denuncia a ausência de ideias e de projetos estruturantes neste início do embate eleitoral. Formalmente, ainda estamos na pré-campanha, mas o jogo já está armado. Falta aos principais candidatos um programa para chamar de seu. De preferência, esses projetos devem ser realistas e transparentes. Devem partir, na verdade, do diagnóstico que já está muito claro há tempos.

O principal objetivo do País é a elevação das taxas de crescimento econômico. Isso deve se materializar em ações claras, de preferência abrigadas em um plano orçamentário consistente. A principal barreira ao alcance desse objetivo são os juros reais elevados. Por sua vez, eles se explicam por fragilidades estruturais não superadas, em boa medida.

Os governos não têm sido capazes de mostrar à sociedade e aos mercados doméstico e internacional que o País não topa mais os arranjos macroeconômicos do passado. A saber, a inflação, velha camarada, “resolvia” o problema da dívida. Também não conseguem convencer os compradores dos títulos públicos de que um nível mais baixo de juros reais seria suficiente para cobrir o risco e remunerar o capital.

Trata-se, mormente, de um problema de confiança. Como os resultados das contas públicas são negativos, há tempos, boa parte dos agentes econômicos acredita que essa dinâmica se repetirá. O equilíbrio alcançado é o pior possível: todo o esforço fiscal empreendido é minimizado e, pior, o custo de endividamento permanece nas alturas.

Tomando os dados do Banco Central acumulados em 12 meses até fevereiro de 2026, o déficit público total é de 8,5% do PIB, ou R$ 1,09 trilhão. Essa conta é dividia em duas: o déficit primário (sem contar os juros da dívida), de 0,4% do PIB ou R$ 52,8 bilhões, e os gastos com juros, de 8,1% do PIB ou R$ 1,04 trilhão.

Essas informações levam a um raciocínio quase automático: o problema do déficit público estaria nos juros, não no excesso de gasto primário em relação à receita. A questão é que os compradores da dívida pública, os que financiam o governo com sua poupança, não aceitam juros mais baixos para financiar um mesmo déficit. Eles não enxergam no governo uma entidade capaz de garantir dois resultados simultâneos para períodos mais longos: inflação controlada e equilíbrio fiscal intertemporal.

É como se cogitassem a existência de uma ameaça permanente em relação à composição e à direção da política econômica. Por mais que seja implausível supor um calote nas atuais condições do Brasil – via inflação descontrolada, por exemplo –, o mercado prefere juros mais altos, porque estes são capazes de cobrir o risco vislumbrado.

Não se está aqui convalidando a visão do mercado. Mas é preciso compreender esse mecanismo para saber como agir. Desfazer esse nó é pouco trivial, porque depende de credibilidade. Um choque fiscal inicial mais firme, baseado em um plano de voo definido antes da posse, bem fundamentado e com efeitos relevantes sobre o resultado primário, teria o condão de desmanchar essa cola que gruda as expectativas pessimistas do mercado a ganhos reais astronômicos (e fáceis) e a custos impeditivos de refinanciamento da dívida pública.

Não se ignora que o peso de uma meta de inflação exageradamente baixa, de 3% ao ano, explique parte do juro alto. Por outro lado, o equilíbrio ruim ao qual estamos presos só será afetado por meio de decisões de política econômica que mexam nas válvulas corretas, nas variáveis – como dizemos no jargão – mais exógenas.

No meu artigo da quinzena passada neste espaço, mostrei que não basta o ajuste fiscal para a economia brasileira passar de uma situação apenas razoável para um quadro de desenvolvimento perene. É preciso voltar a planejar, resgatar os instrumentos previstos na Constituição, reformulá-los, quando possível, e financiar adequadamente as políticas públicas prioritárias.

Essas questões são faces de um mesmo problema. Não se defende um ajuste fiscal que elimine conquistas sociais, a exemplo da redução da pobreza e da desigualdade. Defende-se, ao contrário, que os recursos públicos sejam economizados a partir de avaliações técnicas dos diferentes programas orçamentários. Não apenas para produzir superávits primários – o que é essencial –, mas para ter o suficiente na tarefa de financiar as políticas desejadas pela população e pretendidas pelo governo, à luz das determinações constitucionais.

Os candidatos que hoje se apresentam para disputar as eleições gerais não podem fugir dessa realidade. As fantasiosas e criativas promessas que costumam aparecer nos períodos eleitorais devem – ao menos em parte, que seja – dar lugar ao necessário realismo. Juros reais de 11%, dívida de 80% do PIB, déficit de 8,5% do PIB e crescimento econômico de 2% ao ano não nos levarão a lugares novos. Serão os mesmos destinos.

Sob hipótese menos otimista, os destinos alternativos possíveis para o caso de mantermos essa política econômica esquizofrênica são mais obscuros. Claro, são também (ainda mais) vantajosos para os mesmos apaniguados de sempre.

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