quinta-feira, 23 de abril de 2026

Prisão pelo ICE tem ponta solta, por Julia Duailibi

O Globo

Campanha de Lula deveria adotar cautela na tentativa de explorar politicamente a prisão de Ramagem

Há uma série de pontas soltas na versão oficial do governo sobre a prisão do ex-deputado Alexandre Ramagem nos Estados Unidos, e a campanha do presidente Lula, à caça de briga com Donald Trump para reeditar o momento de boa popularidade com o tarifaço, deveria adotar cautela na tentativa de explorar politicamente o episódio.

Ontem o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, em entrevista à GloboNews, reafirmou que a prisão de Ramagem se deu em razão de uma cooperação policial internacional entre Brasil e Estados Unidos no combate ao crime organizado. Rodrigues disse também que a abordagem a Ramagem ocorreu pela polícia local por causa de uma infração de trânsito convencional em Orlando. Uma vez verificado que Ramagem estava sem documentos regulares de imigração, o encaminharam ao ICE.

Se a história é essa, não se trata exatamente de cooperação, mas de falta de sorte de Ramagem, que, condenado a 16 anos de prisão pela Justiça por tentativa de golpe, em tese, se esqueceu de ligar o pisca-pisca ao fazer uma conversão e, assim, foi parar nas mãos do temido ICE. O fato de ele ter sido solto dois dias depois sem pagar fiança também contradiz a tese da cooperação. Ramagem tinha um pedido de asilo junto ao departamento a que o ICE está ligado. Se o órgão cooperou formalmente pela prisão, como afirma o governo brasileiro, se esqueceu de checar a situação legal do ex-deputado — o pedido formal de asilo, pela lei americana, impede a prisão. Onde o Brasil vê colaboração, os americanos veem um jeitinho para dar uma volta no pedido de extradição feito no ano passado, que não andava. O caminho encontrado foi, segundo argumentam, forçar a deportação por simples documentação irregular.

O jornalista Bruno Tavares, da TV Globo, conseguiu colocar luz no episódio. De acordo com a apuração dele, o delegado Marcelo Ivo de Carvalho, que trabalhava no ICE como oficial de ligação desde 2023, acionou diferentes autoridades policiais, não só a agência de imigração, para que Ramagem fosse preso. Na empreitada, conseguiu uma parceria com a polícia local do condado de Orange, onde fica Orlando. Esses policiais chegaram à tentativa de compra de um carro por Ramagem usando o passaporte diplomático cancelado. Como os policiais locais não obtiveram mandado da Justiça para prendê-lo em casa, viram como saída a abordagem na rua com base nos documentos vencidos. Depois, acionaram o ICE.

Carvalho atuava de maneira legal nos Estados Unidos, amparado por um memorando de entendimento firmado com os americanos em abril do ano passado que reforçava a parceria com a PF, por meio do Homeland Security Investigations (HSI), braço de investigações do ICE voltado ao tráfico de drogas, pessoas e armas, além de crime organizado. Ao que tudo indica, os americanos entenderam que a articulação para além dos escritórios do HSI em Miami, onde ele ficava, “manipulou” o sistema de imigração para “contornar pedidos formais de extradição”, segundo a nota emitida pelo Departamento de Estado americano, depois do acionamento do órgão pela turma de Bolsonaro nos Estados Unidos.

Ontem o Brasil, em resposta aos americanos, cancelou o crachá de um agente americano que atuava na PF como oficial de ligação. A história pode ficar por aí, e é o desejo do Itamaraty. Ou escalar se a turma da política resolver lucrar com o episódio. Mas aí terão de achar uma versão mais robusta para o que aconteceu no trânsito de Orlando.

 

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