O Globo
Campanha de Lula deveria adotar cautela na
tentativa de explorar politicamente a prisão de Ramagem
Há uma série de pontas soltas na versão
oficial do governo sobre a prisão do ex-deputado Alexandre Ramagem nos Estados
Unidos, e a campanha do presidente Lula, à caça de briga com Donald Trump para
reeditar o momento de boa popularidade com o tarifaço, deveria adotar cautela
na tentativa de explorar politicamente o episódio.
Ontem o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, em entrevista à GloboNews, reafirmou que a prisão de Ramagem se deu em razão de uma cooperação policial internacional entre Brasil e Estados Unidos no combate ao crime organizado. Rodrigues disse também que a abordagem a Ramagem ocorreu pela polícia local por causa de uma infração de trânsito convencional em Orlando. Uma vez verificado que Ramagem estava sem documentos regulares de imigração, o encaminharam ao ICE.
Se a história é essa, não se trata exatamente
de cooperação, mas de falta de sorte de Ramagem, que, condenado a 16 anos de
prisão pela Justiça por tentativa de golpe, em tese, se esqueceu de ligar o
pisca-pisca ao fazer uma conversão e, assim, foi parar nas mãos do temido ICE.
O fato de ele ter sido solto dois dias depois sem pagar fiança também contradiz
a tese da cooperação. Ramagem tinha um pedido de asilo junto ao departamento a
que o ICE está ligado. Se o órgão cooperou formalmente pela prisão, como afirma
o governo brasileiro, se esqueceu de checar a situação legal do ex-deputado — o
pedido formal de asilo, pela lei americana, impede a prisão. Onde o Brasil vê
colaboração, os americanos veem um jeitinho para dar uma volta no pedido de
extradição feito no ano passado, que não andava. O caminho encontrado foi,
segundo argumentam, forçar a deportação por simples documentação irregular.
O jornalista Bruno Tavares, da TV Globo,
conseguiu colocar luz no episódio. De acordo com a apuração dele, o delegado
Marcelo Ivo de Carvalho, que trabalhava no ICE como oficial de ligação desde
2023, acionou diferentes autoridades policiais, não só a agência de imigração,
para que Ramagem fosse preso. Na empreitada, conseguiu uma parceria com a
polícia local do condado de Orange, onde fica Orlando. Esses policiais chegaram
à tentativa de compra de um carro por Ramagem usando o passaporte diplomático
cancelado. Como os policiais locais não obtiveram mandado da Justiça para
prendê-lo em casa, viram como saída a abordagem na rua com base nos documentos
vencidos. Depois, acionaram o ICE.
Carvalho atuava de maneira legal nos Estados
Unidos, amparado por um memorando de entendimento firmado com os americanos em
abril do ano passado que reforçava a parceria com a PF, por meio do Homeland
Security Investigations (HSI), braço de investigações do ICE voltado ao tráfico
de drogas, pessoas e armas, além de crime organizado. Ao que tudo indica, os
americanos entenderam que a articulação para além dos escritórios do HSI em
Miami, onde ele ficava, “manipulou” o sistema de imigração para “contornar
pedidos formais de extradição”, segundo a nota emitida pelo Departamento de
Estado americano, depois do acionamento do órgão pela turma de Bolsonaro nos
Estados Unidos.
Ontem o Brasil, em resposta aos americanos,
cancelou o crachá de um agente americano que atuava na PF como oficial de
ligação. A história pode ficar por aí, e é o desejo do Itamaraty. Ou escalar se
a turma da política resolver lucrar com o episódio. Mas aí terão de achar uma
versão mais robusta para o que aconteceu no trânsito de Orlando.

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