Obra resenhada: A VOZ DE HIND RAJAB. Direção: Kaouther Ben Hania. Tunísia; França, 2025.
Em 29 de janeiro de 2024, o Exército Israelense ordenou a evacuação do bairro Tel Al-Hawa, na Faixa de Gaza. Naquele dia, seis membros da família Hamada, junto com sua sobrinha de seis anos, Hind Rajab, ficaram presos em seu carro após o próprio Exército Israelense abrir fogo contra eles, matando imediatamente cinco ocupantes do veículo. Milagrosamente, uma garota de quinze anos chamada Layan conseguiu ligar para a Sociedade do Crescente Vermelho Palestino e pedir ajuda antes de também sucumbir aos ferimentos. Isso deixou Hind, de seis anos, sozinha no carro, cercada pelos corpos de seus familiares mortos, possuindo um celular com sinal ruim e ainda com bateria como sua única esperança.
A Voz de Hind Rajab, o mais recente
filme da tunisiana Kaouther Ben Hania, cujos filmes anteriores O Homem que Vendeu sua Pele (2020)
e As 4 filhas de Olfa (2023)
foram ambos indicados ao Oscar de Melhor Filme Internacional, é um drama
comovente baseado nas ligações telefônicas de Hind com a Sociedade do Crescente
Vermelho Palestino enquanto eles trabalhavam para tentar o resgate dela. O
filme estreou no 82º Festival Internacional de Cinema de Veneza, onde ganhou o
Grande Prêmio do Júri.
O filme, como o nosso O Agente Secreto (2025),
deriva fortemente de arquivos, seja aqueles que vivem em histórias orais, seja
aqueles que foram registrados, seja em canções, por fotografias fixas e câmeras
de cinema, cinejornais e jornais, ou por meio das histórias orais passadas de
um membro da sociedade para outro. É nesses arquivos pessoais e oficiais que a
resiliência duradoura dessas histórias se mantém firme. É no lugar onde o
arquivo se torna uma forma de arte por si só, que reside o coração do filme de
Kaouther Ben Hania.
Enquadrado em uma proporção ultra-widescreen, Ben Hania usa um
espectrograma para visualizar os arquivos de áudio, permitindo que a voz
autêntica, pequena e frágil de Hind, às vezes, envolva toda a tela. A
proporção widescreen permite
que cada um dos trabalhadores humanitários do Crescente Vermelho – a gentil
Rana (Saja Kilani), o animado Omar (Motaz Malhees), o prudente Mahdi (Amer
Hlehel) e a calma Nisreen (Clara Khoury) – ocupem o enquadramento ao mesmo
tempo, enquanto trabalham em conjunto para tentar o resgate de Hind. Exceto por
uma sequência em que Ben Hania mistura perfeitamente seu drama com imagens
reais do escritório filmadas para redes sociais, sua produção cinematográfica
permanece principalmente no estilo clássico, apoiando-se em closes dos rostos dos atores
enquanto eles passam por toda a gama de emoções ao conversar com Hind sobre o
pior momento da vida dela, ou enquanto tentam manter a calma enquanto lidam com
o pesadelo da dificílima negociação diplomática diante da guerra que tal
operação exige em face a uma tentativa de resgate em uma zona restrita. Assim,
o filme parece um drama de câmara, focando nos trabalhadores do Crescente
Vermelho trabalhando incansavelmente para salvar sua vida, com a voz de Hind
conectada por uma linha telefônica fraca, que o Exército Israelense frequentemente
bloqueia.
A escolha de focar apenas no escritório é
poderosa por vários motivos. Para começar, isso não transforma o sofrimento
eventual de Hind em um espetáculo sangrento. A escolha de Ben Hania de manter a
violência da guerra fora do quadro, ouvida apenas através de tiros na linha
telefônica, força o espectador a focar no assunto em questão: a vida de Hind.
Não há nenhuma imagem sangrenta para se afastar do que importa. Só há a voz
dela, e os rostos daqueles que estão desesperadamente fazendo tudo o que podem
para salvá-la. O espectador, como esses trabalhadores do Crescente Vermelho,
deve sentar-se com Hind e testemunhar seu sofrimento, seus apelos singulares
por ajuda, por sua vida.
Essa estrutura também expõe as dificuldades
que esses trabalhadores humanitários precisam vencer para fazer seu trabalho. O
carro em que Hind ficou presa com seus seis familiares falecidos ficava a
apenas oito minutos da ambulância do Crescente Vermelho mais próxima, mas sem
seguir o “protocolo à risca”, como Mahdi diz, eles levam três horas para tentar
coordenar com o Exército Israelense uma rota segura para a ambulância, e depois
um sinal verde para realmente usar a rota para buscar resgatá-la. Isso é
violência administrativa, um conceito que pode ser difícil de compreender
quando permanece teórico. Ainda assim, enquanto assistimos ao evento quase em
tempo real, a violência se torna tão difícil de assistir quanto seria se Ben
Hania tivesse colocado a câmera no carro com Hind enquanto as balas do tanque
próximo caíam sobre sua família.
Por fim, a estrutura dissipa a ideia de que
existe algum caminho para navegar pelas complexidades kafkianas de um regime
opressor, como fica claro pelo triste destino de Hind e dos dois socorristas
ambulâncias, Youssef Zeino e Ahmed Madhoun.
No início do filme, ainda preso no lamaçal
dessa violenta burocracia, o escritório do Crescente Vermelho recorre às redes
sociais, liberando áudios das ligações e fotografias de Hind como forma de
provocar indignação internacional, na esperança de que a pressão externa
levasse àquela evasiva luz verde.
Quem assiste A Voz de Hind Rajab não passa um dia sem que se
pense em Hind e na vida que lhe foi negada. O filme de Ben Hania pede que você
faça o mesmo: que lembre do sorriso dela, da voz, do amor dela pelo mar.
Com esse ato de lembrança em mente, também me
lembro do menino Fernando, de O
Agente Secreto, que será afastado definitivamente do pai. Os
arquivos de áudio dos apelos de Hind aos trabalhadores humanitários do
Crescente Vermelho funcionam como um arquivo não apenas da existência de Hind
(como os de Armando, pai de Fernando), mas também dos sistemas cruéis que
facilitaram seus assassinatos prematuros.
A Voz de Hind Rajab existe não
apenas como um chamado claro para dizer “nunca mais”, mas também pede que não
consintamos com essas violências. Não com o derramamento de sangue, não com a
abstração de um número em uma matéria de notícias. Mas com essas violências. As
violências física, mental e administrativa que foi infligida a essa jovem
menina, que, como tantos de seus pares, ainda deveria estar aqui.
*Ricardo Marinho é Presidente do Conselho Deliberativo da CEDAE Saúde e professor da Faculdade Unyleya, da UniverCEDAE e da Teia de Saberes.

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