Folha de S. Paulo
Sem carro fornecido pelo Estado, como os
juízes podem ir de casa para o trabalho e vice-versa?
Se for por segurança, não poderão julgar nem
briga de vizinho, casal em litígio ou atropelamento de cachorro
Outro dia, assisti na TV ao depoimento de uma juíza de primeira instância sobre as agruras dos profissionais do seu status, o mais inferior da categoria. Aflito, ouvi seu protesto contra o fato de que, ao contrário dos colegas de instâncias superiores, ela não dispunha de carro fornecido pelo Estado. Pela ênfase que dava ao tópico, não se sabe como conseguia dar conta de suas atribuições, sem um veículo que a levasse de casa para o trabalho e, ao fim do expediente, a devolvesse ao sacrossanto recesso.
Sem um carro à custa do erário, o que lhe
restava? Ir a pé para o tribunal? Pegar uma carona com um vizinho? Chamar um
táxi? Ir de bicicleta? Ou comprar um carro com seu salário e pagar pela
gasolina assim como nós, os mortais, temos de fazer? E com a vantagem de seu
salário gozar de
penduricalhos a que os reles praticantes de outras profissões
não fazem jus.
Sua Excelência dirá que os juízes precisam de
carro por questão de segurança. De fato, se o sujeito de sua alçada for um
arquivo vivo de algum big escândalo corrente, o juiz não deve ficar flanando pela
cidade. Aliás, nesse caso, um simples carro oficial não será suficiente
—precisará ser blindado, à prova de metralhadoras, e com escolta. Mas não acho
que um juiz de primeira instância esteja exposto o tempo todo a tal perigo.
Quero crer que a maioria das causas em suas mãos se refira a brigas de
vizinhos, casais em litígio, ações contra planos de saúde e atropelamento de
cachorro. Exigirão tanta proteção?
Fui informado de que os carros destinados aos
juízes devem se limitar às funções do trabalho —é proibido usá-los para ir ao
supermercado, buscar as crianças na escola ou ir vistoriar
suas propriedades na roça. Parece, inclusive, que, nos fins de
semana e feriados, os carros devem se conservar nas garagens oficiais. Mas você
sabe como é o Brasil, não?
Exemplarmente, a ministra Cármen Lúcia,
do STF,
não vai de carro oficial para o trabalho. Vai de táxi e aproveita para bater
papo com o taxista a respeito da vida real.

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