segunda-feira, 9 de março de 2026

Um país que não ama as mulheres, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Casos de feminicídio batem recorde e passam de 1.500 em 2025

Só El Salvador, Colômbia, Guatemala e Rússia matam mais que o Brasil

A fúria, a misoginia e a raiva expressas nos altos índices de feminicídio, estupro e violência contra as mulheres são sintomas de uma epidemia que acomete um número cada vez maior de homens e faz do Brasil um país que não ama as mulheres.

Os casos de feminicídio bateram recorde nos dois últimos anos. Em 2024, foram 1.459 vítimas. Em 2025, o número subiu para 1.568, ou seja, uma média diária de quatro mulheres assassinadas (Ministério da Justiça e Segurança Pública) pelo marido, companheiro, namorado, pelos "ex-", ou pelo próprio pai.

São números absolutos que nos colocam na aterrorizante e escandalosa quinta colocação no ranking global de nações que mais matam mulheres —atrás de El Salvador, Colômbia, Guatemala e Rússia (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos). Importante lembrar que nós, mulheres, somos a maioria (51,5%) do povo brasileiro (IBGE).

Quando aplicados marcadores de raça, a conexão entre o feminicídio e as desigualdades de caráter étnico-racial fica evidente, pois as pretas e as pardas são as principais vítimas. Segundo o estudo "Retrato dos Feminicídios no Brasil" (Fórum Brasileiro de Segurança Pública), 62,6% dos corpos tombados por esse crime hediondo entre 2021 e 2024 eram de mulheres negras; 36,8% de brancas; 0,3% de indígenas; e outros 0,3% de amarelas.

Além disso, a quantidade de brasileiras com "muito medo de sofrer um estupro" aumentou, passando de 78%, em 2020, para 82%, em 2025 (Instituto Patrícia Galvão). Não é para menos, já que no ano passado foram registrados 83 mil casos de estupro, ou seja, um estupro a cada seis minutos (Ministério da Justiça). E tudo indica que a situação é ainda pior e mais grave se considerarmos o fator subnotificação.

Em que pesem as várias conquistas femininas nas últimas décadas, a luta histórica das mulheres por direitos (sobretudo à vida), equidade de gênero e respeito nunca foi tão atual, necessária e urgente.

Fica a pergunta: até quando o Brasil será um país que não ama as mulheres?

 

Nenhum comentário: