Folha de S. Paulo
Candidato chamou de fake news reportagem da
Folha que tratou de seu plano econômico
Quebras de promessas de campanha costumavam
arruinar o prestígio de presidentes
Dias antes de Fernando Collor se sentar na
cadeira de presidente, eu estava em uma fila de banco, como quase todo o mundo
preocupado com mais um pacote econômico por vir. Uma poupança mirrada seria
juntada na conta-corrente ao salário e ao 13º antecipados. Sairia de férias
e temia
confisco.
Perto de mim estava uma senhora miúda, que parecia de poucas posses, de lenço na cabeça como tantas mulheres então chamadas de "crentes". "O senhor acha que o homem [Collor] vai pegar o dinheiro que a gente tem na conta?" —perguntou algo assim. Respondi que temia o sequestro da poupança, mas achava difícil que mexessem "na conta".
Collor tomou posse em 15 de março de 1990. Na
sexta, 16, seu governo confiscou quase todos os dinheiros, da conta-corrente
inclusive, o que viria a ser também um calote parcial na dívida pública. Até
hoje me lembro do vestido estampado de flores e do rosto enrugado da
senhorinha, mais atilada do que eu, de um tempo em que redes sociais eram
relações de pessoas e mais de um
quarto das casas nem TV tinha.
No debate do segundo turno, em 14 de dezembro
de 1989, Collor dissera que seu adversário, Luiz Inácio Lula da Silva, daria
calote na dívida do governo e também na poupança —Lula pregara a
"renegociação" da dívida.
O "caçador
de marajás" queria a "esquerda perplexa" e a
"direita indignada". Em parte, cumpriu o que prometeu, como a
liberalização caótica da economia. Metido em um bando de corruptos, demagogo
delirante e inepto como os presidentes da direita pura, caiu por não ter apoio
de ninguém, pobres ou ricos (afetados pela liberalização, que pregavam da boca
para fora). Caiu também porque a hiperinflação logo voltou e se vivia a década
de maior empobrecimento da República.
Essa crônica de um tempo em que quase metade
da população nem havia nascido serve para lembrar nossa história de truques e
estelionatos eleitorais.
Flávio
Bolsonaro chamou de "fake news" reportagem
da Folha que
relatou o plano fiscal em estudo por assessores do candidato, que
prega redução da despesa pública e nenhum aumento direto de imposto. Não é
possível fazer ajuste sem conter a alta de despesa, na maior parte benefícios
sociais, menos ainda sem aumentar imposto. Bolsonaro filho mente agora ou teria
de mentir depois de eleito. Dúvida: neste mundo ideologicamente revolto,
estelionatos ou planos econômicos amargos fazem qual diferença?
Quebras mais ou menos escandalosas de
promessas arruinavam o prestígio de presidentes. O maior de todos os
estelionatos foi o do governo de José Sarney, em 1986. Assim que passou a
eleição para o Congresso, cancelou o Plano Cruzado, que congelava preços. O MDB
elegeu a maioria da Câmara, o que só aconteceu então e na eleição de 1945, em
período democrático. Fraude e hiperinflação levaram à breca o prestígio de
Sarney.
Dilma Rousseff 2 chegou com plano surpresa de
ajuste fiscal e reajuste de
energia. Em três meses, sua nota "ruim/péssimo" foi de 24%
para 62%. A desvalorização do real no início de FHC 2 derrubou o prestígio do
tucano para sempre e ajudou a abrir a estrada para Lula 1.
Jair Bolsonaro, golpista, bárbaro e repulsivo
de vários modos, que causou morticínio e a maior miséria do século, em 2021,
quase se reelegeu. Javier Milei esfolou a maioria dos argentinos por dois anos
antes de ganhar uma eleição legislativa. Goste-se ou não do método, sob Lula 3
houve melhorias sociais e materiais. Lula 4 está por um fio.
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