CartaCapital
O conflito social, sempre latente, foi
revigorado no Brasil pelo avanço do atraso das classes dominantes e de seus
seguidores
Em sua viagem à
Europa – Espanha, Alemanha e Portugal –, nosso presidente Lula reafirmou, de
modo enfático, seu compromisso com a democracia, o multilateralismo e o combate
às desigualdades.
A Agência Brasil nos informa que as reuniões
com os chefes de Estado da Espanha, da Alemanha e de Portugal abordaram
questões relacionadas ao multilateralismo, incluindo a sucessão da
Secretaria-Geral da ONU; desigualdades, com o Brasil defendendo a inclusão de
aspectos relacionados à violência política e digital de gênero; e o combate à
desinformação.
Os caminhos do debate político em curso, no Brasil, sugerem que a mediação democrática entre os dois polos que se digladiam está em risco. Diante dessa polarização e da forma como está evoluindo, é conveniente imaginar que a eleição de outubro possa acomodar as tensões. Essas tensões são a expressão política de um conflito social, sempre latente nas sociedades modernas urbano-industriais.
O conflito tornou-se universalmente mais
agudo na era da globalização. No Brasil, foi revigorado pelo avanço do atraso das
classes dominantes e de seus seguidores.
É isso mesmo, o avanço do atraso. Basta ler
as pesquisas e observar, com certo distanciamento, o que está ocorrendo. A
centro-direita está sendo esmagada pela radicalização furiosa da
extrema-direita.
Essa polarização sempre exprime a disputa
entre os ricos, bem-nascidos, e os pobres que avançam. No Brasil de nossos
tempos, os ricos e bem-nascidos sustentam as recomendações de moderação das
políticas de combate à desigualdade e à pobreza.
Vou repetir o que disse o bilionário
americano Warren Buffett, ainda nos anos 90: “Nós (os ricos) promovemos a luta
de classes e estamos ganhando”. No mundo desenvolvido do pós-Guerra, foi
possível mediar esse conflito com o avanço da democracia e a ampliação dos
direitos sociais e econômicos. Mas, nas últimas décadas, o discurso do mérito
tem se tornado cada vez mais uma justificativa para a desigualdade. A
celebração do mérito sempre reaparece, mas, desta vez, de maneira muito aguda.
Nesse jogo, Lula está longe de ser um
radical. Lula é um mediador com capacidade de compreender as exigências
políticas inscritas nas sociedades democráticas e capitalistas, eivadas de
conflitos e divergências.
Logo após as eleições que o conduziram ao
primeiro mandato, Lula concebeu a Carta aos Brasileiros. A transição, para
surpresa de muitos e decepção de outros, foi feita com habilidade e prudência.
Isso, sem dúvida, foi possível graças a uma conjuntura internacional
excepcionalmente favorável.
A ascensão econômica da China e dos asiáticos
em geral, com dotações de recursos naturais diferentes das nossas, mudou a
configuração do comércio internacional. Nesse ambiente benéfico, o governo
Lula, no segundo mandato, manteve a estabilidade e alentou o crescimento. As
reservas cambiais saltaram para cerca de 360 bilhões de dólares, turbinadas
pelo preço das commodities e pela entrada de capitais dispostos a apostar no
futuro do sul-americano emergente.
A política econômica do segundo governo Lula
atingiu seu ponto máximo ao adotar tempestivamente um conjunto de medidas
destinadas a combater a crise do subprime (2007–2008), restaurando a confiança
de empresários e consumidores. Em parceria com o professor Júlio Gomes de
Almeida, escrevi nestas páginas um artigo que buscava descrever a ação
contracíclica do governo e suas consequências.
Depois da quebra do Lehman Brothers em
setembro de 2008, um choque adverso de expectativas afetou o Brasil: o
financiamento externo simplesmente desapareceu, bloqueando o acesso dos
exportadores brasileiros às linhas de ACC e, quase imediatamente, deflagrando a
contração do crédito doméstico.
Quando leio e ouço, na “mídia nativa” – assim
a designava o amigo Mino Carta –, a palavra “populismo”, tenho arrepios.
Populismo é uma palavra sem conceito. Ela pretende dizer que os “esclarecidos”
– entre aspas – votam de forma racional, mas não por interesse próprio,
enquanto os menos favorecidos sucumbem à demagogia.
Não bastasse esse arremedo de discriminação,
os desvalidos e os mais pobres são acusados de atacar o orçamento, na defesa de
seus interesses. Já os bacanas, encarnam a racionalidade. Eliminam a
contraposição de interesses e vão jogar Lego com o produto potencial e com o
corte de gastos.
Quando ouço e leio as banalidades
esparramadas pelos Senhores da Terra Brasilis, sinto um calafrio. Em 2015, sob
aplausos dos ditos especialistas de mercado, foi produzido o desastre da
política econômica do liberal Joaquim Levy.
Publicado na edição n° 1410 de CartaCapital, em 29 de abril de 2026.

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