Veja
O STF, o Congresso, o governo e a sociedade
estão paralisados
Em coluna recente no Estadão, Fernando Schüler
diagnosticou que nos tornamos uma sociedade do medo. O diagnóstico é preciso,
mas pede ampliação: o medo que hoje nos define não é apenas aquele que a
sociedade sente diante do crime. É o medo que atravessa o próprio aparelho do
Estado, que habita gabinetes, plenários e antessalas das cortes superiores — e
que, por isso mesmo, paralisa. É o medo que se instalou nas ruas por conta do
crime organizado. Sociedade e estado paralisados pelo medo.
O Supremo temeu as CPIs e os vazamentos relacionados aos escândalos recentes. Ainda que protegido por fragilidades estruturais de fiscalização, teme que revelações possam vulnerar ainda mais a instituição. Por isso se defende com ataques, ações neutralizadoras e atua em tricô silencioso entre ministros, relatores e líderes partidários. Politizado ao extremo, o guardião da Constituição aprendeu a jogar xadrez preventivo com os outros Poderes, antecipando-se a ameaças reais ou imaginadas.
Os parlamentares, por sua vez, temem o
Supremo. Aprenderam que uma postagem, uma frase em plenário ou um inquérito de
autoria e relatoria concentradas na própria corte pode custar mandato,
liberdade ou patrimônio. Calibram o que dizem, propõem e investigam por cálculo
de sobrevivência. Temem ainda a investigação sobre as emendas parlamentares ao
Orçamento, que pode inviabilizá-los eleitoralmente. O Congresso se sente em
regime de liberdade vigiada, no qual qualquer palavra mal posta pode ser objeto
de investigação nos inquéritos em curso no STF.
“Cada ator institucional teme o outro, a
sociedade teme a todos e ninguém teme o suficiente as consequências da própria
inação”
Entre os dois polos, o Executivo, que poderia
arbitrar ou liderar, prefere a arte prudencial dos príncipes fracos. Diante dos
escândalos — do sistema financeiro à infiltração do crime organizado no Estado
—, limita-se a manifestações protocolares. Usa o Judiciário na guerra por
procuração com o Legislativo e agora tenta manter distância das estripulias que
ocorreram no outro lado da praça. Sabe que, se abandonar o Judiciário, perde
proteção. Se protegê-lo, perde votos.
Enquanto isso, o cabo de guerra prossegue ao
sabor das revelações, dos vazamentos, das ações e reações de uma crise
institucional que está se transformando em guerra institucional, sob o olhar
bovino e complacente de muitos. O governo das leis de Bobbio converteu-se em
governo das conveniências, aguardando o impacto das delações relacionadas ao
Banco Master e ao escândalo do INSS. Ambos os
escândalos vão durar muitos meses e vão atravessar o ano.
As pesquisas Datafolha, Quaest, Atlas e Ipec
convergem: o cidadão desconfia do Congresso, do Supremo, do Executivo e das
polícias. Temos desconfiança da população e dos agentes econômicos com as
instituições. Ultrapassamos a sociologia clássica do medo — de Bauman a Furedi,
de Beck a Robin —, que descreveu sociedades temendo ameaças externas difusas.
Vivemos um medo estrutural cruzado, em que cada ator institucional teme o
outro, a sociedade teme a todos e ninguém teme o suficiente as consequências da
própria inação — que é, no fim das contas, a mais cara de todas.
Publicado em VEJA de 24 de abril de 2026, edição nº 2992

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