sábado, 25 de abril de 2026

Juventude, redes e extremismo, por Juliana Diniz

O Povo (CE)

Empresas privadas poderosas, com imensa capacidade de lucro e influência, têm moldado sistemas políticos, impactado eleições e transformado o trânsito dos valores na sociedade, redimensionando a juventude e a tolerância com a violência

Durante a semana, uma entrevista com o jovem influenciador norte-americano Nick Fuentes viralizou nas redes sociais, alcançando milhões de visualizações não só nos Estados Unidos, mas em países do arco de influência da democracia americana, como o Brasil. Na entrevista, Fuentes é indagado: que direito retiraria das mulheres se tivesse a chance? Sem titubear, ele afirma que começaria pelo direito ao voto.

Trago esse fato porque ele é útil para uma reflexão importante na conjuntura presente: a ascensão de valores e ideias extremistas e conservadoras entre os jovens, especialmente entre os meninos e rapazes. Trata-se de um fenômeno complexo, com variáveis múltiplas, que desafia nossa interpretação e nossa capacidade de reação. Por que os meninos têm se mostrado permeáveis a acolher uma visão de mundo tão tradicionalista, de um exclusivismo patriarcal que, sem pudor, se mostra disposto a negociar com conquistas históricas aparentemente já consolidadas, como a cidadania política das mulheres?

O fenômeno não teria sido possível sem as mudanças no domínio da comunicação de massa, e nesse sentido o lugar e o formato das redes sociais deve chamar nossa atenção. As redes são ambientes não regulados, a salvo de maiores controles estatais, e que se regem pela lógica do lucro. Para fazerem sentido como produto, as redes precisam captar a atenção e o tempo dos usuários, criando um ciclo de dependência difícil de romper.

Esse vínculo alimentado por algo que, na juventude, é fundamental: o senso de pertencimento a um grupo. Criadas para produzir câmaras de eco, em que apenas pessoas parecidas e com interesses afins se encontram e se comunicam, as redes favorecem a reprodução de ambientes onde os limites se tornam cada vez mais tênues, onde a divergência, a diversidade e o confronto perdem espaço. Estando a salvo da crítica, nomes como os de Nick Fuentes se consolidam como referências de aconselhamento e opinião, multiplicando o alcance e a disseminação de ideias indefensáveis.

A adolescência, assim como a infância, é uma produção histórica, é moldada pela cultura, pelo ambiente, pelas estruturam do mundo. Nada pode ser mais vital do que o modo como nos comunicamos e temos acesso às informações sobre o entorno. Essa percepção deveria colocar no centro do debate público uma discussão prioritária: a regulação das redes sociais e o controle social das big techs.

Empresas privadas poderosas, com imensa capacidade de lucro e influência, têm moldado sistemas políticos, impactado eleições e transformado o trânsito dos valores na sociedade, redimensionando a juventude e a tolerância com a violência. Nada pode ser mais urgente do que recuperar o controle social sobre esse domínio.

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