O Estado de S. Paulo
Perguntava um fulgurante Silvio Santos, para ouvir do auditório um sonoro “EU” de maravilhada expectativa, porque o apresentador jogava notas de dinheiro em forma de aviãozinho para a plateia. O programa virava um espaço encantado pelo milagre de ver alguém distribuindo o que deveria ser entesourado, e o público testemunhava um rico capaz de transformar sovinice em generosidade.
Os tais “ricos”, como revela o dr. Michel
Alcoforado no livro Coisa de Rico, formam uma categoria particular. Pois um dos
poderes dos ricos é dar dinheiro para os outros, em vez de colocá-lo num cofre,
como manda a tradição das sociedades patrimonialistas, nas quais cada estamento
detém um tipo de riqueza. Nelas, o dinheiro enriquece, não enobrece, mas todo
mundo aspira a “ficar rico” como revela essa epidemia de sites de apostas, as
loterias e o brasileiríssimo jogo do bicho, por mim estudado com Elena Soárez,
que, só Deus sabe por que, continua proibido.
Ganhar dinheiro pela sorte sempre foi um
sonho nas sociedades aristocráticas fundadas na desigualdade, concebida como
uma realidade do mundo.
Não preciso lembrar que esse foi o nosso
caso. Formados que fomos com e pela escravidão, quando havia o indigno direito
de ter gente proprietária de gente.
Quanto mais iníquas as diferenças, mais se
desvaloriza o trabalho a ser realizado por escravizados e por “gente sem eira
nem beira”. Em tal sistema, o dinheiro é muito mais símbolo de luxo e
onipotência do que um instrumento de progresso e um símbolo de trabalho.
Afinal, o ideal das malandragens é enriquecer sem trabalhar!
Como apontou Max Weber, trabalhar para viver
e não viver para o trabalho, como ocorreu na América puritana, não é o nosso
caso. Daí a ambiguidade em querer ser rico e, ao mesmo tempo, negar que se é
rico. Como pensar que o trabalho enriquece, se ele era coisa de escravizados
negros e marginais? Ganhar dinheiro pelo trabalho é burrice. Aqui é mais fácil
enriquecer, como ensina o Master, entrando numa turma com o poder de manipular
regras, com o privilégio de não precisar honrá-las.
Em matéria de corrupção, a nossa modernidade
revela a sofisticação de roubar usando bancos. Se o capitalismo financeiro é
ladrão e as leis nada valem, nós atingimos o cume, usando ambos para
enriquecer. Não há dúvida de que roubar dos bancos com um banco e em sociedade
com magistrados é um avanço na velha roubalheira da sociedade pelos altos
funcionários do Estado.
No capitalismo, todos querem dinheiro, mas, como adverte Câmara Cascudo no seu Dicionário do Folclore Brasileiro, “dinheiro dado pelo diabo, pelo saci-pererê – e eu acrescento, por banqueiros – deve ser benzido, sob pena de desaparecer ou transformar-se em folhas secas”. Ou em desmoralização nacional com o absurdo suporte de supremos negacionismos.
*Antropólogo, escritor e autor de ‘Carnavais, malandros e heróis’

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