segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Luiz Carlos Azedo: Nasce o mito

• Não está dado a priori que Marina Silva será herdeira de toda a comoção gerada pela morte de Eduardo Campos, embora se beneficie por ser a sua companheira de chapa

Correio Braziliense - 17/08/2014

É imprevisível o impacto da morte trágica de Eduardo Campos (PSB) na política nacional. Seu corpo será enterrado hoje à tarde, no Recife, em cerimônia para a qual estão sendo esperadas as principais lideranças políticas do país, entre elas a presidente Dilma Rousseff (PT), candidata à reeleição, e o senador Aécio Neves (PSDB), principal candidato de oposição, contra quem o ex-governador pernambucano concorria. Marina Silva assumirá o lugar de Campos como candidata do PSB em circunstância de grande comoção nacional.

O ex-governador de Pernambuco será sepultado com o caixão fechado, pois seus restos mortais foram carbonizados. O povo não verá o seu corpo. As últimas imagens do líder político pernambucano para a opinião pública serão aquelas gravadas durante a entrevista ao Jornal Nacional, da TV Globo. Campos era desconhecido para 42% dos eleitores; depois de morto, tornou-se símbolo da necessidade de renovação política do país.

Sebastianismo
Se depender da nossa tradição ibérica, por causa do velho “sebastianismo”, sua herança política não pode ser desprezada. D. Sebastião nasceu em Lisboa a 20 de janeiro de 1554 e era filho do príncipe D. João e de D. Joana de Áustria. Faleceu a 4 de agosto de 1578 na batalha de Alcácer Quibir, no norte de África. Mas seu corpo nunca foi encontrado.

Com sua morte, Portugal foi anexado pela Espanha entre 1580 e 1640, juntamente com o Brasil, passando por período muito difícil. Nasceu então uma versão particular de messianismo, de influência judaica: toda opressão, todo sofrimento, toda miséria, toda crise será vencida com o reaparecimento de D. Sebastião.

A concepção religiosa do messianismo acredita na vinda ou no retorno de um enviado divino, o messias; um redentor, com capacidade para mudar a ordem das coisas e trazer paz, justiça e felicidade. É um movimento que traduz inconformidade com a situação política vigente e uma expectativa de salvação, ainda que miraculosa, através da ressurreição de um morto ilustre.

O mito no Brasil surgiu na narrativa da batalha que expulsou os franceses na fundação do Rio de Janeiro, em 20 de janeiro de 1567, e reapareceu na Guerra de Canudos (1896-1897), no sertão da Bahia, entre os fanáticos de Antônio Conselheiro.

Dois movimentos sebastianistas trágicos ocorreram também em Pernambuco: o da Serra do Rodeador, no município de Bonito, em 1819-1820, e o da Serra Formosa, em São José do Belmonte, no período de 1836 a 1838. Foram violentos, com líderes fanáticos. No folclore nordestino, ainda hoje, D. Sebastião reaparece como touro encantado nas festas de bumba-meu-boi, nos meses de junho, julho e agosto.

Os votos
Mitos e lendas à parte, não está dado a priori que Marina Silva será herdeira de toda a comoção gerada pela morte de Eduardo Campos, embora se beneficie por ter sido a sua companheira de chapa. O mais provável é que recupere os próprios votos, que até agora não havia conseguido transferir para Eduardo Campos. Em fevereiro passado, Marina tinha cerca de 20% dos votos, mas vinha numa trajetória descendente.

Já a última pesquisa Datafolha, de 15 e 16 de julho, mostrou que, entre os 8% de eleitores com intenção de voto em Eduardo Campos (PSB) no primeiro turno, 55% votariam em Aécio Neves (PSDB) e 26% em Dilma Rousseff (PT), num eventual segundo turno entre o tucano e a petista.

Outros 15% votariam em branco, nulo ou em nenhum dos dois e 4% não souberam responder à pergunta. Ontem, a cúpula do PSB vazou informações de que uma pesquisa feita por telefone, após a morte de Campos, teria registrado crescimento espetacular de Marina. A conferir nas próximas pesquisas.

A única certeza é de que há um quadro eleitoral novo, no qual se consolida a realização de segundo turno para decidir quem será o próximo presidente da República. Por hora, há dois projetos de poder claramente delineados: a continuidade do governo Dilma, de um lado; e a volta dos tucanos ao Palácio do Planalto, com Aécio Neves, do outro.

A chamada “terceira via”, com a morte de Eduardo Campos (PSB), ainda é uma incógnita como projeto de poder, não importam as pesquisas. Somente deixará de ser quando Marina Silva, que cultiva certo messianismo, disser o que pretende fazer para desenvolver o país e melhorar a vida do povo, caso seja eleita presidente da República.

Renato Janine Ribeiro: Uma substituição sem transparência

• Políticos tendem a tratar os eleitores como crianças

Valor Econômico

A morte de Eduardo Campos foi um choque tremendo. Ele se une, em nossa história, àqueles poucos políticos que morreram no poder ou perto dele. Temos também Getúlio Vargas, em 1954, e Tancredo Neves, em 1985. Nos três casos, o estupor foi generalizado. A morte de Getúlio mudou a conjuntura política, transformando-o de canalha em mártir e retardando o golpe militar por dez anos. A morte de Tancredo iniciou a Nova República com uma decepção e um deságio em relação ao que se esperava.

Eduardo Campos não era presidente e dificilmente ganharia esta eleição, mas parecia quase inevitável que vencesse uma das próximas. Talvez pudesse desatar um nó grave de nossa política, associando a preocupação política à eficiência na gestão. Ninguém ocupará seu lugar, sua liderança. Esse papel, que seria decisivo para o que chamo a "quarta agenda democrática" - a da qualidade na educação, saúde, segurança e transporte públicos - ficou vago, talvez por longos anos.

Desta vez, porém, o Brasil não ficou órfão. O estupor talvez tenha sido maior que o próprio pranto. Sua morte chocou pelo absurdo, tão jovem, tão promissor que era. O Brasil se uniu em ampla solidariedade à viúva e à família, mas não houve as cenas de desespero que, sessenta anos atrás, marcaram o funeral de Getúlio Vargas. Um filme como "O mundo em que Getúlio viveu" (1963, estreou em 1976), de Jorge Ileli, mostra a tristeza, o desamparo, de milhares de pobres que nele investiam suas esperanças. Já a morte de Tancredo Neves, trinta anos depois de Getúlio, trinta anos antes de Eduardo, causou uma comoção nacional, simbolizou a dificuldade de passar da ditadura à democracia, mas nem por isso nos converteu em órfãos. Fomos, sim, interpelados pela necessidade de construir a democracia - a melhor que já tivemos - sem um pai, sem uma figura de autoridade que nos dispensasse de efetuar nossas escolhas. A trágica morte de Campos, num mês despovoado pela partida de grandes e admirados nomes, teve efeito mais político que simbólico. É possível que não nos sintamos mais órfãos, porque não nos portamos mais como filhos dos políticos. O que não reduz, em nada, o sofrimento dos entes queridos, nem nossa perda de um político de perfil único e que, como afirmei acima, na tarefa que poderia cumprir não tem sucessor.
***
Mas Eduardo terá uma sucessora na disputa pela presidência. Muito ainda terá de ser dito a respeito. O óbvio é: o PSB não tem ninguém como Marina para substituir Eduardo e, se escolher outro nome, em vez de disputar com Aécio e talvez com Dilma, medirá forças só com o pastor do PSC; mas Marina pouco ou nada tem a ver com o PSB, o que torna esquisito esse partido ungi-la. Enquanto escrevo, ainda não há anúncio oficial. Contudo, por isso mesmo, quero comentar a falta de transparência no processo de escolha.

O momento inicial foi de choque. No primeiro dia, só pensei no caráter vão das ambições humanas. Não me saía da cabeça que, não fosse ele candidato, sua família ainda o teria. (Mas é claro que sua vocação era o poder, de modo que esta questão não se punha). Pensei também na necessidade de baixar o clima de ódio que toma conta do país: quem somos nós, diante da parca cruel, que ceifa vidas como quem corta barbante? A morte, destino inevitável, deve conter um pouco a paixão da disputa. Não é à toa que se celebram funerais. Não é à toa que no Brasil é feio falar mal de mortos. São sinais de respeito, que prezo.

Porém, enquanto os políticos próximos a Eduardo falavam em só discutir sua sucessão após o enterro ou o luto, o que eles mais faziam era debatê-la e acertá-la, a portas fechadas. Um dia depois, os cinco partidos aliados ao PSB já propunham Marina - que, só ela, parece ter respeitado o luto. Um pouco mais, e a própria família endossava seu nome. Já o PSB discutia, entre sua ala mais à esquerda e a mais à direita, e certamente negociava com a Rede, esse hóspede promovido a possível dono de uma casa que deveria depois abandonar. Foi a imprensa que nos permitiu saber disso. Se déssemos crédito ao que os políticos ligados ao PSB e à Rede nos diziam, estaríamos mal servidos de informação.

Não é esse um mau início? Os analistas políticos debateram o assunto, na mídia assim como nas redes sociais. Quase sempre ouviam uma advertência: que coisa feia, discutir a herança com a morte ainda no ar. Mas está aqui um dos maiores vícios brasileiros no que tange à política: o interdito da fala pública. No caso, o debate franco foi suspenso em nome de argumentos supostamente morais. Em nome de um luto que os principais interessados não respeitaram, os atores da decisão não deram satisfação aos eleitores. Não expuseram à sociedade os dilemas, as possíveis opções, que seriam uma candidatura Marina, a substituição de seu nome por outro do PSB ou mesmo de um partido coligado, a desistência de concorrer, a coligação com Aécio ou Dilma... Tenho certeza de que exigiria muita coragem fazer essas considerações, esses cálculos em público. Quem o fez, em nome do conhecimento, foi criticado; quem o fizesse, podendo decidir, seria crucificado. Mas não é hora de acabar com essa detestável hipocrisia que nos atrasa? A Bolsa reage, o mercado se socorre discretamente de analistas especializados, os políticos negociam - por que somente a sociedade deveria se calar, por que só ela deveria respeitar o luto, quando justamente é o seu destino que os atores resolvem?

Então, crescemos porque não precisamos mais de pai, mas somos tratados como crianças pelos atores políticos. Não dá.

Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo.

Paulo Brossard: A incerteza dos fatos políticos

- Zero Hora (RS)

Os últimos dias não poderiam ser mais tristes para o país. Basta dizer que se finou um candidato à Presidência da República. Sem alarde, o governador Eduardo Campos renunciou ao governo de Pernambuco para concorrer à Presidência e só agora, nas vésperas de sua morte, duas aparições na TV, em entrevistas demoradas, suas qualidades se tornaram patentes; a precisão dos conceitos, objetividade e pertinência, simplicidade e espontaneidade na expressão de seus pensamentos, mostraram que o finado possuía qualidades para disputar o alto encargo; ora, seu súbito desaparecimento danificou o quadro esboçado visando à renovação presidencial, e considerando-se sua iminência a mudança ocorrida pode vir a ser decisiva no tocante à eleição do futuro presidente da República.

Outrossim, o país tem dúzias de partidos, o que importa em reconhecer que em verdade não os tem, quando a vida política de uma nação carece deles, não muitos, mas verdadeiros. Querendo ou não, esta a situação que, bem ou mal, terá de ser enfrentada em dias senão em horas.

O quadro existente é de uma candidata a vice-presidente da República cujo companheiro de chapa à Presidência deixou de existir pela lei da morte. Esta situação poderá ou deverá ser alterada.

O caso me faz lembrar o que foi ponderado aos parlamentares que desejavam aumentar o número de cadeiras na câmara dos comuns, que eram insuficientes, ao que Churchill observou que, se a maioria comparecesse, alguns ficariam de pé e o aperto criaria ambiente eletrizado que facilita as decisões. E o recinto dos comuns, que fora bombardeado, foi refeito como ele era.

Ao que parece, no entanto, cresce a possibilidade de a candidata a vice-presidente passar a candidata a presidente e, nas condições atuais, a hipótese poderia ser benfazeja.

Mais uma vez, o sistema presidencial, dos prazos fixos e predeterminados, revela seus inconvenientes, pois os fatos sociais, os políticos em particular, não são como os siderais, secularmente previsíveis. O país tem dúzias de partidos, o que importa em reconhecer que em verdade não os tem

Jurista, ministro aposentado do STF

Luiz Carlos Mendonça de Barros: As provas de uma teoria

• O cidadão que ingressa na economia formal passa a ter um futuro relativamente previsível pela frente

Valor Econômico

Aos 72 anos de idade minha visão da economia brasileira parte sempre de uma leitura estrutural dos fatores principais que comandam sua dinâmica. Neste sentido procuro construir um futuro ainda hipotético a partir de movimentos que entendo devam influir progressivamente no comportamento dos mercados. Este é um exercício quase solitário, pois o número de analistas com esta visão da economia é muito menor do que o dos palpiteiros do dia a dia.

Por isto, quando uma pesquisa de campo, como a realizada pelo diretor do Instituto Data Popular - e publicada pelo Valor na sua edição do último dia 13 -, confirma minha leitura do futuro, sinto um conforto muito grande. No final são dados reais caminhando na direção do cenário idealizado por mim há alguns anos. A entrevista de Renato Meirelles trata dos efeitos da formalização do emprego, ocorrida principalmente a partir de 2005 entre os brasileiros das classes D e E.

Este movimento de formalização do trabalho das classes de renda mais baixa no Brasil ocorreu em dois momentos distintos: o primeiro, nos anos seguintes ao Plano Real, quando o número de brasileiros que viviam no espaço do emprego formal passou de 33% do total para 44%. O segundo momento ocorre a partir de 2005, quando a formalização volta a ganhar força e chega a 67% da população agora no final do mandato da presidente Dilma (veja gráfico). Estudo recente realizado pela equipe do Banco Itaú mostra que este processo deve se estabilizar quando atingir 70% da população brasileira, por volta de 2016.

Minha conversão à tese de que vivíamos realmente uma mudança estrutural importante na sociedade brasileira ocorreu em fins de 2008. Afinal o gráfico nesta página, construído pela equipe da Quest Investimentos em 2005, já falava por si mesmo. A partir de 2008 minha preocupação foi procurar entender os efeitos que este novo desenho da sociedade teria sobre as dinâmicas política e econômica em nosso país. Venho fazendo este exercício de forma continuada desde então e, por isto, a matéria do Valor teve um impacto muito grande para mim. Afinal, uma pesquisa de campo, com credibilidade, mostrava que meu exercício de abstração estava correto e que poderia dar um passo adiante - mais ambicioso - nas minhas previsões.

Antes de fazê-lo vou mostrar ao leitor quais as mudanças importantes que a passagem de um brasileiro comum da informalidade para a formalidade econômica traz no seu comportamento como cidadão. Creio ter encontrado uma ideia que resume de forma sintética estas mudanças: o cidadão na economia formal passa a ter um futuro relativamente previsível pela frente. Entendo como um futuro relativamente previsível o fato de ter um contrato formal de trabalho que lhe permite ter acesso, entre outros, a programas sociais como FGTS e PIS/Pasep, ao credito bancário e, principalmente, ao direito de ter seu salário corrigido anualmente com base na inflação passada e, em certos períodos, com um ganho real no valor de seu salário. Apenas o fantasma do desemprego pode mudar este quadro.

A formalização do trabalho, em uma sociedade em que o nível de consumo tem um valor muito forte, responde por grande parte do boom de consumo do segundo mandato do presidente Lula. A sincronia destas mudanças com o aumento da confiança do sistema bancário na economia acelerou ainda mais seu crescimento. Entre 2006 e 2008, as vendas ao varejo nas regiões Norte e Nordeste chegaram a crescer a taxa anuais superiores a 15%. Na esteira deste aumento do consumo seguiu-se um aumento significativo do investimento na medida em que as empresas mais conservadoras passaram a perder fatias de mercado. E a economia brasileira - e o governo do PT - viveram anos de ouro.


Deixo de lado a questão econômica e volto agora a especular sobre os efeitos defasados no tempo que esta formalização do emprego terá sobre a sociedade brasileira. Mais uma vez recorro a entrevista do presidente do Data Popular ao Valor para reforçar minha tese de que a formalização do emprego trará mudanças no comportamento político destes brasileiros e na sua forma de avaliar o Estado. Renato Meirelles cita, por exemplo, o fato de que pela primeira vez estes brasileiros estão encarando de frente os impostos cobrados em seus salários.

"A favela cresceu junto com a economia e esse cara passou a pagar imposto na fonte. Ele não tem noção de imposto indireto. Então, ele não sabia o que era pagar imposto. Agora sabe. Com isso, passa a cobrar mais dos serviços públicos. Deixa de entender serviço público como um favor do governo e passa a entender como uma contrapartida pelo que ele paga. Isso é ótimo. Ele não quer mais cesta básica. Quer plano nacional de banda larga. Não quer dentadura. Quer ProUni".

Esta é uma diferença fundamental para que possamos entender o Brasil dos próximos anos. Quando o cidadão não tem futuro somente o governo pode garantir a ele alguma segurança em relação ao futuro; quando ele passa a ter o emprego formal e começa a pagar impostos ao governo esta lógica se inverte, principalmente na situação em que os serviços públicos prestados pelo governo são de péssima qualidade. Dentro desta ótica fica mais fácil entender a Constituição brasileira de 1988, quando o emprego formal atingia menos de 30% da população. E certamente poderemos esperar que, talvez no fim dessa década, haja condições políticas para sua revisão.

Luiz Carlos Mendonça de Barros, engenheiro e economista, é diretor-estrategista da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações.

Diário do Poder – Cláudio Humberto

- Jornal do Commercio (PE)

• Dilma esconde Temer na campanha e irrita PMDB
Não é à toa que o PMDB se preocupou em organizar estrutura para o vice-presidente Michel Temer nos Estados onde a sigla não apoia o PT. Apesar de cobrar fidelidade, a presidenta Dilma tem escondido Michel Temer em peças publicitárias da reeleição, nas quais ganha destaque apenas o antecessor Lula. O peemedebista não figura em adesivos e materiais distribuídos e mal aparece nos sites de campanha de Dilma.

• Sub do sub
No site, as referências a Temer estão em local obrigatório, onde os partidos costumam colocar suplentes de senadores, CNPJ, tiragem.

• Só na inauguração
O vice Michel Temer só ganhou destaque, com direito à biografia na primeira página, na inauguração dos sites de Dilma. Depois, nada.

• Já é um começo
Apesar da pouca exposição nos sites, aliados se dizem satisfeitos que, ao contrário de 2010, o vice aparecerá no programa de TV no 1º turno.

• Questão de estratégia
A assessoria do vice diz que o material com Dilma e Temer é “pensado de forma conjunta e estratégica com o PT”. Ah, bom.

• Itaú condenado por levar investidora a Madoff
O Itaú Unibanco foi condenado a indenizar uma investidora que, por indicação do banco, aplicou economias na empresa de Bernard Madoff, mega-picareta norte-americano que aplicou um golpe bilionário, num esquema de pirâmide financeira. O Itaú foi condenado pela 22ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo, em sentença que separou o risco, inerente a aplicações financeiras, da fraude.

• Negligência
O desembargador Roberto Mac Cracken apontou “clara e objetiva desídia e negligência de quem deve orientar a aplicação financeira”.

• Golpe bilionário
“Bernie” Mardoff foi condenado a 150 anos de cadeia por haver lesado milhares de pessoas, no golpe estimado em mais de R$ 200 bilhões.

• Danos materiais
Condenado em segunda instância, o Itaú Unibanco terá de indenizar em R$ 355.349,78 a investidora lesada, por danos materiais.

• Pânico a bordo
Encalhou o barco de Lindbergh Farias (PT), com sua candidatura patinando nas pesquisas para o governo do Rio: o PCdoB já cogita apoiar o rival Garotinho ainda no primeiro turno.

• Reforma necessária
A Confederação Nacional da Indústria pressiona para diminuir gastos do Brasil com previdência, que chegam a 12% do PIB. Chegam a 13% nos EUA e Canadá, com população idosa quase três vezes maior.

• Causa e efeito
O mensaleiro José Genoino, que obteve regime aberto antes do previsto, foi beneficiado por lei do senador Cristovam Buarque (PDT-DF), garantindo redução de pena por estudos feitos na prisão.

• CPMI virtual
O relator da CPMI da Petrobras, Marco Maia (PT-RS), diz que já reuniu 25,4 giga de documentos colhidos e até analisados tecnicamente por órgãos de investigação e controle como Polícia Federal, CGU e TCU.

• Sublocação
Políticos garantem que o deputado Luiz Argôlo não só teria usado por um ano o helicóptero de Alberto Youssef, como também seria responsável por sublocar o helicóptero a políticos e artistas baianos.

• Juntos na causa
Apesar da rejeição a Marina Silva no Mato Grosso do Sul, Fábio Trad (PMDB) acha que a tendência é manter apoio ao PSB, caso seja ela a candidata: “Marina sinalizou que os ideais de Eduardo serão mantidos”.

• Vai com Deus
A cúpula do PP comemorou a desfiliação no ano passado do deputado Luiz Argôlo (SD-BA) e de Mário Negromonte, que tomou posse no TCM-BA. Ambos são citados no esquema do doleiro Alberto Youssef.

• Sem sabatina
Com a agenda de vários presidenciáveis cancelada, a Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comércio (CNTC) se viu obrigada a desistir de realizar sabatina programada para estas terça e quarta.

• Clorofilocracia
O genial roqueiro e escritor Lobão advertiu para eventual a eleição de Marina Silva presidente: “Teremos uma clorofilocracia evangélica!”

Painel :: Bernardo Mello Franco

- Folha de S. Paulo

Correndo atrás
A campanha de Aécio Neves (PSDB) à Presidência já traça estratégia para duelar com Marina Silva (PSB) por uma vaga no segundo turno. Em reunião na base aérea do Recife, após a missa de Eduardo Campos, os tucanos davam como certo que ela largaria na frente na disputa. A ordem é focar o debate na experiência administrativa, considerada o ponto fraco de Marina, e apresentar Aécio como o mais preparado para fazer um governo de "mudança com segurança".

Na conta Os tucanos tentam tratar a vantagem numérica de Marina com naturalidade. "O clima é de comoção e ela é conhecida por 100% dos brasileiros", justifica um dirigente da campanha.

Na torcida Aliados do tucano dizem que a ex-senadora terá dificuldades, no médio prazo, para manter o patamar inicial de intenção de votos.

Cuidado Aécio foi aconselhado a ser "muito respeitoso" em qualquer crítica a Marina nos debates de TV. Há temor de que os eleitores tomem as dores da candidata de luto e reajam mal a ataques.

Só pensam naquilo Durante a missa, as pesquisas internas dos partidos eram o principal assunto nas rodas de conversa. Políticos do Rio diziam que Marina já estaria em empate técnico com Dilma Rousseff (PT) no Estado.

Eles também O PSB distribuiu camisas e bandeiras com a imagem de Campos e a pomba que simboliza o partido sobre fundo preto.

Hoje pode Driblando a lei que proíbe partidos de espalhar galhardetes nas ruas, o PSB pendurou dezenas de cartazes com a imagem do ex-governador e a logomarca do partido nos postes do Recife.

Não vou ficar A legenda chegou a sondar Marina sobre a possibilidade de ela não se desfiliar caso seja eleita presidente. Na sexta-feira, a candidata avisou que não adiará a criação da Rede.

Pule de dez A equipe de Marina dava como certo, durante o velório, que Beto Albuquerque (PSB-RS) será o vice.

Vote em mim Após o enterro de Campos, o deputado procurou dirigentes do PSB e aliados do ex-governador para conversas individuais.

Troca de guarda Aliados da ex-senadora devem reivindicar mais espaço na campanha presidencial. O comitê financeiro, que estava a cargo apenas do PSB, terá presença maior da Rede.

A postos Coordenador da campanha de Marina em 2010, João Paulo Capobianco deve ganhar cargo de peso. Ele foi secretário-executivo do Meio Ambiente quando ela comandava o ministério.

Apressado Horas antes do fim do funeral, o novo presidente do PSB, Roberto Amaral, soltou uma nota com o seguinte texto: "Sepultado nosso líder, o PSB abre o processo de consultas visando a construção de alternativa política consensual".

Conspiração No enterro, populares entoaram um coro que tratava como um atentado o acidente que matou Campos na última quarta. Ao redor do túmulo, houve gritos de "Justiça".

Tributo As coroas de flores no cemitério de Santo Amaro retratavam o luto da elite e da classe trabalhadora de Pernambuco. As homenagens iam da associação dos usineiros ao sindicato dos estivadores.

Longe das câmeras Assim que a família, as autoridades e a imprensa se afastaram, o povo cercou o túmulo de Campos. Dois chapéus de palha, símbolos do governo Miguel Arraes, foram depositados sobre a lápide. Muita gente chorava.
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Tiroteio
"O voto tem algo de emoção e algo de reflexão. Agora a emoção é forte, mas o eleitor vai escolher Aécio quando for chamado a refletir."
DO SENADOR JOSÉ AGRIPINO (DEM-RN), coordenador da campanha tucana, sobre a manutenção do patamar de intenção de votos em Marina Silva (PSB).
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Contraponto
Atendimento preferencial
A petista Dilma Rousseff e seus aliados pararam em uma barraquinha de cachorro-quente durante caminhada de campanha em Osasco, na Grande São Paulo, no último dia 9. O vendedor se apressou para atender a presidente e as autoridades mais conhecidas da comitiva.
Tesoureiro da campanha, o deputado estadual Edinho Silva (PT-SP) ficou rondando a barraquinha, mas não conseguiu ser servido no meio da confusão.
Vendo a cena, o fotógrafo de Dilma aconselhou:
--Atende esse aí, porque é ele quem paga todas as contas. Inclusive do cachorro-quente!

Paulinho da Viola - Para um amor no Recife

As mágoas da vida:: Graziela Melo

As mágoas
da vida

ficaram
pelo caminho,

como
águas
corredias,

ocupam
o leito
vazio

e
se dispersam
na foz
do rio...


as dores,

sim!!!

Essas
ficaram,

se agasalharam,

fizeram
ninho!!!

E
no albergue
da alma,

plantaram
flores

e
já nem mais

parecem dores!

Apenas,
suaves
saudades...

resquícios...
amores!!!

E,
no fim do dia

a nostalgia,

vizinha
da alma,

lhe afaga,
lhe adoça,
lhe acalma...

lhe faz
companhia!!!

domingo, 17 de agosto de 2014

Opinião do dia: Eduardo Campos

"Agora, ao lado da Marina Silva, eu quero representar a sua indignação, o seu sonho, o seu desejo de ter um Brasil melhor. Não vamos desistir do Brasil. É aqui onde nós vamos criar nossos filhos, é aqui onde nós temos que criar uma sociedade mais justa. Para isso, é preciso ter a coragem de mudar, de fazer diferente, de reunir uma agenda. É essa agenda que nos reúne, a agenda da escola em tempo integral para todos os brasileiros, a agenda do passe livre, a agenda de mais recursos para a Saúde, a agenda do enfrentamento do crack, da violência. O Brasil tem jeito. Vamos juntos. Eu peço teu voto."

Eduardo Campos. Últimas palavras no “Jornal Nacional”, TV Globo, 12 de agosto de 2014.

Escolhida candidata, Marina diz ter 'senso de compromisso' após a perda de Campos

Isadora Peron - O Estado de S. Paulo

RECIFE - À espera apenas de um anúncio formal para que seja oficializada como candidata do PSB à Presidência da República, a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva desembarcou ontem no Recife para a cerimônia de sepultamento do ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos dizendo que a perda do aliado impõe a ela uma "responsabilidade" e um "compromisso". Sem entrar em detalhes, afirmou ainda que o fato de ela, candidata a vice, não estar no mesmo jatinho de Campos, o cabeça de chapa, "foi uma providência divina".

O PSB ainda precisa bater o martelo sobre quem será o vice de Marina. O anúncio dos novos nomes deve ocorrer entre hoje, após o enterro dos restos mortais de Campos, e quarta-feira, quando o partido terá uma reunião de dirigentes em Brasília.

Marina chegou à capital pernambucana às 14h30, antes mesmo de o avião da Força Aérea Brasileira (FAB) que transportaria os restos mortais de Campos decolar de São Paulo. Ela foi uma das primeiras passageiras a entrar no voo 6324, da Avianca. Sentou-se na poltrona 22B, ao lado do marido, Fábio Lima.

A ex-ministra passou a maior parte do tempo calada. Com fones de ouvido ligados ao seu celular, ouvia a pregação de um pastor - ela é evangélica - e lia trechos da Bíblia, entre eles o Salmo 23, que diz "O Senhor é meu Pastor e nada me faltará".

Quando deixava a Bíblia, lia e fazia anotações sobre o livro Em Busca da Política, do sociólogo polonês Zygmunt Bauman.

Resignação. Marina tinha um semblante mais resignado do que na quarta-feira passada, quando, no dia do desastre, foi a público lamentar a morte de Campos e outras seis pessoas - quatro assessores e dois pilotos.

Assim que o avião pousou no Recife, aceitou falar rapidamente com o Estado, desde que não fosse questionada sobre o seu futuro político. Foi quando falou em "providência divina" e repetiu o que havia dito no dia anterior em reunião reservada com aliados. "Sinto o senso de responsabilidade e compromisso que a perda de Eduardo impõe", afirmou a ex-ministra.

Além do marido, as três filhas acompanhavam a ex-ministra. O filho Danilo, que estava com ela em São Paulo, não pode viajar. Um grupo de mais de dez pessoas da Rede Sustentabilidade também estava no mesmo voo para Recife. Fazia parte da comitiva os aliados que escolheu para compor a equipe de coordenação da campanha como Bazileu Margarido, Pedro Ivo, Neca Setúbal e Nilson Oliveira.

Apreensão. Na fila para o embarque, foi impossível não falar da apreensão em ter de pegar um avião depois da tragédia de quarta-feira. Uma das filhas de Marina comentou que a irmã, Mayara, sempre ficava muito ansiosa quando tinha que pegar um voo. Pediu para sentar ao lado das irmãs para ficar mais tranquila.

Marina também não gosta de voar. Disse que sempre traz diversos livros para ler, para passar o tempo. Só consegue dormir quando não há turbulência. Ontem, não pregou os olhos.
Para evitar assédio, a ex-ministra não circulou pela área de embarque do aeroporto de Guarulhos, antes da partida. Ficou em uma sala reservada para autoridades, acompanhada do marido e do deputado licenciado Walter Feldman, porta-voz da Rede.

Poucos passageiros se aproximaram de Marina durante o voo. Um deles foi o senador Eduardo Suplicy (PT), que a cumprimentou antes da decolagem. No fim, ela bateu fotos com um casal e foi abraçada por uma senhora emocionada que disse conhecer Campos "desde criancinha".
Após chegar ao Recife, Marina para a casa da família de Campos. O encontro com a viúva Renata foi "intenso e emocionante", segundo relato dos presentes. / Colaborou Daiene Cardoso

Com medo de Marina, PT prefere Aécio no 2º turno

• Equipe de Dilma define eventual disputa com ex-senadora como "zona nebulosa"

• Petistas acreditam que candidata do PSB pode superar tucano já nas primeiras pesquisas; PSDB revê estratégias

Andréia Sadi, Daniela Lima – Folha de S. Paulo

BRASÍLIA, SÃO PAULO - Com a entrada de Marina Silva no lugar de Eduardo Campos na chapa liderada pelo PSB, interlocutores do comitê da candidatura petista e do Palácio do Planalto preveem dificuldades no tom do discurso que a campanha da presidente Dilma Rousseff (PT) à reeleição adotará contra a ex-senadora.

Para manter a linha do "nós contra eles"", que vem sendo usada pela petista desde o início da corrida presidencial, aliados de Dilma ouvidos pela Folha admitem preferir enfrentar Aécio Neves (PSDB) em um eventual 2º turno a encarar uma "zona nebulosa e imprevisível"", como definem o enfrentamento com Marina.

Antes do acidente aéreo que matou Campos na última quarta (13), petistas tentavam circunscrever a disputa entre "esquerda e direita", polarizando com o PSDB e isolando o PSB, terceiro lugar nas pesquisas. Aécio era o segundo colocado, atrás de Dilma.

No primeiro turno de 2010, Marina surpreendeu o PT ao conseguir quase 20 milhões de votos. Neste ano, para dilmistas, a ex-senadora se apropriará dos eleitores que se identificaram com a pauta da onda de protestos de junho do ano passado, o que pode ampliar sua votação.

Na avaliação dos aliados da presidente, Marina atrairá parte dos votos brancos e nulos, que registraram altos índices nas últimas pesquisas de intenção de voto.

Esses eleitores, segundo o comitê petista, seriam "órfãos"" da ex-senadora. Além disso, há a crença de que as primeiras pesquisas mostrarão Marina com patamar próximo ou superior ao de Aécio.

Mudança de rumo
A mesma suspeita levou os estrategistas do tucano a refletirem sobre as estratégias que tinham traçado para enfrentar Dilma e Campos.

Apesar de acreditarem que a entrada de Marina no cenário obrigatoriamente levará a uma disputa em dois turnos, aliados de Aécio sabem que o desempenho dela pode tirar o tucano da reta final.

Para minimizar esse risco, a campanha do PSDB passou a estudar qual seria a melhor maneira de combater o crescimento de Marina.

Entre os principais estrategistas do tucano, a avaliação corrente é que ele deve fortalecer o discurso de que é o único capaz de reajustar a economia e promover um "choque de gestão" no país.

Apesar do capital político de Marina, dizem, ainda existem dúvidas sobre a capacidade dela de realinhar o país no momento em que ele vive uma "crise de expectativa".

Aliados de Aécio acreditam ainda que setores importantes da economia, como o agronegócio, resistirão à candidatura da ex-senadora, o que abriria espaço para o tucano navegar sozinho no campo da oposição a Dilma.

Fragilidades
Uma das apostas dos tucanos é que Marina terá dificuldades para manter o fôlego de sua campanha até o fim, uma vez que o PSB não é um partido grande e parte dos palanques regionais foi costurado com empenho pessoal de Campos e a contragosto de sua então candidata a vice.

A expectativa é que protagonistas das alianças fechadas em alguns Estados tendam a abandonar a ex-senadora. A mesma avaliação é feita no comitê de Dilma.

Para alguns assessores da presidente, Marina enfrentará também dificuldades dentro do próprio PSB.

Petistas veem ainda como fragilidades algumas posições históricas dela, classificadas por eles como "conservadorismo comportamental".

Como exemplo, citam que Marina é contra o aborto e já disse ser favorável ao ensino religioso nas escolas, embora admitam que um embate nesse campo corre o risco de resultar em um "déjà vu".

Na eleição passada, Dilma enfrentou resistência entre religiosos após uma polêmica em torno de sua posição sobre o aborto, desgaste apontado como um dos motivos da ida da disputa ao 2º turno.

Dirigentes do PT preveem também que, caso as pesquisas mostrem Marina à frente de Aécio e superando Dilma em um segundo turno, o movimento "volta, Lula" --que pede a substituição da presidente por seu antecessor na chapa-- ficará incontrolável.

Morte de Campos impões compromisso, diz Marina

A Marina o que era de Campos

• PSB prepara "testamento político" a ser seguido por candidata

Fernanda Krakovics, Mariana Sanches e Sérgio Roxo – O Globo

BRASÍLIA e RECIFE - O PSB prepara uma carta com os compromissos de Eduardo Campos, candidato do partido à Presidência da República morto em um acidente aéreo na última quarta-feira, a serem honrados pela ex-senadora Marina Silva, que era vice na chapa e assumirá seu lugar na disputa eleitoral. A ideia é divulgar essa espécie de testamento político na próxima quarta-feira, quando o PSB anunciará oficialmente a candidatura de Marina.

A ex-senadora desembarcou por volta das 15 horas de ontem no aeroporto de Recife para acompanhar o velório e enterro de Campos. Assim que pousou na capital pernambucana, em um voo comercial, Marina declarou ter senso de responsabilidade e afirmou que vai manter os compromissos definidos com seu ex-companheiro de chapa:

- Tenho senso de responsabilidade e compromisso com o que a perda de Eduardo nos impõe - disse, sem dar espaço para tratar das discussões com os socialistas.

O objetivo da carta é legitimar o nome da ex-senadora, assegurar que ela cumprirá os compromissos políticos firmados por Campos e que vai conciliar os interesses do PSB e os da Rede Sustentabilidade, grupo ao qual pertence. Para o público externo, seria um aceno, por exemplo, para o agronegócio. E, internamente, uma promessa de honrar os acordos políticos firmados pelo socialista nos estados.

- É uma carta de desejos e intenções do Eduardo para o Brasil que ela vai honrar - afirmou o deputado Júlio Delgado (PSB-MG).

Documento foi consenso
A elaboração do documento foi acertada em uma reunião de lideranças do PSB na noite de anteontem, em São Paulo. Mais cedo, o presidente do partido, Roberto Amaral, acompanhado de outros integrantes da sigla, havia se encontrado com Marina, que aceitou assumir a cabeça de chapa. Ligado ao PT, Amaral era uma das principais resistências a Marina no partido.

Os compromissos que Marina vai assumir são de mão dupla. Dirigentes do PSB afirmam, por exemplo, que mesmo que Marina seja eleita presidente da República, ela deixará o partido assim que conseguir fundar sua própria sigla, a Rede:

- É estranho, mas não tem nada de novidade. Não tem ninguém enganando ninguém. Esse é o acordo que ela tinha com o Eduardo - afirmou um integrante da Executiva Nacional do PSB.
O mais cotado, no momento, para assumir a vice na chapa é o líder do PSB na Câmara, deputado Beto Albuquerque (RS). Mas também está na mesa o nome do deputado Júlio Delgado e há quem defenda a indicação de um quadro de Pernambuco mais próximo a Campos.

"Ela precisa assumir compromissos"
O presidente nacional do PPS, deputado Roberto Freire (SP), afirmou, ontem ao chegar a Recife para o funeral de Campos, que Marina deve respeitar os compromissos já firmados nas eleições para governador e senador e nas coligações proporcionais.

O dirigente do segundo principal partido da aliança também afirmou que na coligação não há nenhum outro nome "com a presença de Marina". O partido já havia se posicionado em favor de que a ex-senadora assumisse o a candidatura presidencial:

- A Marina tem as características dela. O que ela não pode é deixar de assumir os compromissos que estão firmados nos estados - disse Freire.

O dirigente do PPS descartou qualquer possibilidade de um outro nome para a cabeça de chapa e afirmou que o seu partido poderia até se afastar da aliança em caso de mudança:

- Ela era vice do Eduardo. Acontece uma fatalidade e você vai inventar o que? Alguém do PSB de raiz? Se inventasse alguém do PSB, o PPS não estava lá.

Freire considera natural que, com a mudança de candidato, algumas características da chapa sejam alteradas, mas destaca que a única condição imprescindível é que seja mantida a postura de oposição ao governo federal:

- Você não pode esperar que a Marina vá ter do ponto de vista econômico a mesma postura contundentemente crítica que o Eduardo tinha

Problemas em São Paulo
A carta compromisso preparada pelo PSB tem o objetivo de tentar superar divergências em estados como São Paulo, Paraná e Santa Catarina. Além disso, os conflitos de Marina com o agronegócio colocam em risco palanques costurados por Campos em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Em São Paulo, maior colégio eleitoral do país, Marina foi contra a aliança para a reeleição do governador Geraldo Alckmin (PSDB). Mesmo assim, o PSB indicou o deputado Márcio França para vice do tucano.

No Paraná e em Santa Catarina, Campos tinha apoio de candidatos a governador do PSDB - Beto Richa e Paulo Bauer, respectivamente. Marina respeitou a decisão, mas nunca aprovou.

Já no segundo maior colégio eleitoral do país, Minas Gerais, Marina deve herdar o apoio que já era dado a Campos. No processo de formação das alianças, parte do PSB queria apoiar o tucano Pimenta da Veiga para o governo do estado, mas a ex-senadora trabalhou para implodir essa possibilidade. No fim, prevaleceu a candidatura do socialista Tarcísio Delgado.

Apesar de a candidatura de Marina já ser dada como certa, a direção do PSB está consultando integrantes do partido sobre essa saída:

- Tudo indica que vai ser nesse sentido, mas as pessoas precisam ser ouvidas. Precisamos ouvir governadores, prefeitos, porque não somos os donos do partido - disse Carlos Siqueira, integrante da Executiva Nacional do PSB.

A expectativa de dirigentes socialistas é que a ex-senadora Marina Silva tenha um desempenho nas pesquisas de intenção de voto melhor do que Eduardo Campos, tanto pelo recall das eleições de 2010, quando ela teve quase 20% dos votos para presidente da República, quanto pela comoção nacional gerada pela tragédia. Ex-governador de Pernambuco por duas vezes, o principal desafio de Campos era se tornar conhecido nacionalmente.

'Teremos segundo turno', prevê Roberto Freire

Ângela Lacerda – O Estado de S. Paulo

O presidente nacional do PPS, Roberto Freire, afirmou em entrevista ocorrida nesta tarde, no Recife, que a mudança de cenário com a morte do ex-candidato Eduardo Campos PSB) aponta duas certezas: Marina Silva será a candidata à presidência da República e haverá segundo turno na eleição presidencial.

"Esta é a mudança e traz preocupações para quem imaginava que estava tudo consolidado, inclusive os dois candidatos, seja Dilma (Rousseff) ou Aécio (Neves)", afirmou depois de visitar a viúva de Campos, Renata, na sua residência, no bairro de Dois Irmãos.

Ele adiantou que o PPS nada vai reivindicar com a mudança. "O PPS luta pela unidade das oposições e a derrota do lulopetismo", resumiu.

A candidatura à vice-presidência na chapa deve caber ao PSB, defendeu ele. "Até porque não adianta fugir de um dado de realidade: Marina está no PSB por um grande acordo feito, no qual Eduardo mostrou sua dimensão", lembrou. "Ela estava não como socialista do PSB, mas como representante da Rede Sustentabilidade".

Freire observou que quando integrava o velho partido Comunista do Brasil (PCB), seus militantes eram candidatos por outros partidos porque a sigla estava na clandestinidade. "Não podíamos agora, em uma clandestinidade que Marina foi colocada pelo governo Lula, deixá-la numa Democracia sem ter legenda para se candidatar. Foi o que o PSB fez".

Quanto às divergências entre Rede e PSB, ele afirmou que elas existiram até a concretização do programa. "Concretizado, Eduardo era o responsável por dar seguimento ao que foi acordado", disse ao observar que Marina poderia ficar em posição de não participar de algum ato que ela não estivesse concordando, porque Eduardo fazia a política. "Agora ela vai ser chamada para fazer política, não como uma coadjuvante, ela agora é protagonista, vai ter de fazer o que Eduardo fazia".

Freire complementou que a situação agora será diferente, pois ela é outra pessoa, com outras características, mas o projeto terá continuidade. "Não tenho dúvida que ela tem competência e sensibilidade para exercer esse papel, como representante dos acordos políticos firmados com Eduardo".

Entrevista Luiz Werneck Vianna:Marina terá de encarnar Campos, diz sociólogo

• Professor da PUC do Rio diz que ex-senadora deve assumir compromissos de ex-governador para alavancar candidatura

• Segundo Vianna, presidenciável do PSB pode atrair votos dos indecisos e descrentes com a classe política

Italo Nogueira - Folha de S. Paulo

RIO - Escolhida pelo PSB para disputar a Presidência, Marina Silva terá de "encarnar" compromissos de Eduardo Campos, candidato da sigla morto na quarta-feira (13) num acidente aéreo.

A avaliação é do sociólogo Luiz Werneck Vianna. Para ele, Marina precisa manter os compromissos do ex-governador de Pernambuco para ter apoio dos empresários.

"[Ela pode] dizer que a candidatura original era dele, que eles conceberam a candidatura juntos e agora tem que se fiar mais às convicções dele do que particularmente às dela", afirmou na sexta (15).


Folha - Que impacto essa tragédia pode ter na eleição?

Luiz Werneck Vianna - Mudou tudo. Para onde, não se sabe.

Com o nome de Marina confirmado, que cenário o sr. vê?

Ela tem problemas no PSB, tem problemas em setores empresariais, é bem aceita nas camadas médias, como ficou provado em 2010.

Campos era bem aceito pelo empresariado. Acha que ela pode herdar essa aceitação?

Ela vai ter que encarnar o Campos. Tem inclusive uma saída honesta para essa encarnação: dizer que a candidatura original era dele, que eles conceberam a candidatura juntos e agora ela tem que se fiar mais às convicções dele do que particularmente às dela. Esse é o maior desafio.

Que outros desafios ela tem?

Mostrar à população que [a encarnação] é verdadeira.

Em 2010 o vice dela era o empresário Guilherme Leal. Não é suficiente para ter aceitação?

Era um nicho empresarial. Não há como imaginar nesta altura que o agronegócio vá escolher o nome dela.

O sr. vê possibilidade de Marina compor com o agronegócio, como fez Campos?

Se ela se convencer e convencer o grande público de que ela é o legado de Campos, aí é possível.

A comoção pelo episódio tem impacto [nas pesquisas]?

Vai ter, mas o problema é saber para que direção. O maior impacto de morte que já ocorreu foi o suicídio de Vargas: em 24h mudou o país. Para saber para qual direção haverá impacto, é melhor procurar um mago.

A candidatura de Marina tira mais votos de quem?

Ela pode provocar uma atração forte sobre os indecisos, o pessoal do "não me representa".

Do movimento das ruas?

Não digo o movimento das ruas, mas algo dessa cultura que vicejou ali pode encontrar expressividade nela, algo que Campos não conseguiu. Eduardo era muito terno e gravata, a pauta dele era responsável: economia, desenvolvimento... A pauta da Marina, como ela mesma diz, é "sonhática".

Qual é o impacto da morte de Campos sobre a política?

É ruim. Uma liderança jovem. O regime militar não favoreceu o surgimento de lideranças novas. Mas PT e PSDB também não favoreceram. Os quadros diretivos dos dois partidos são homens para além da meia idade. Eles se comportaram como uma oligarquia. Principalmente o PT.

Campos conseguiu se descolar desse problema?

De certo modo sim, mas ele tinha o aval do avô [Miguel Arraes, ex-governador de Pernambuco], que abriu a política para ele.

E a Marina?

Ela tem uma trajetória de aventura singular, história de vida particular.

Essa falta de nomes novos preocupa para 2018?

Sim, porque o nome falado para 2018 pelo PT qual é? É o Lula. Não tem quadro novo.

O PT tenta renovar com Haddad, Padilha, Lindbergh...

A emergência de quadros novos é a partir de luz própria, e não vinda de um poste. O PT tem vida orgânica? Não tem. Sem isso os quadros não são selecionados. O PSDB também não tem vida orgânica.

Líder do PSB na Câmara é favorito para ser vice na chapa

João Domingos, Daiene Cardoso - O Estado de S. Paulo

RECIFE - O nome do líder do PSB na Câmara, Beto Albuquerque (RS), é o favorito para ocupar a vaga de vice-presidente na chapa que deverá ser encabeçada pela ex-ministra Marina Silva. De acordo com dirigentes do PSB, Albuquerque só não foi anunciado ainda porque o partido quer ouvir a viúva Renata Campos, visto que a candidatura dela é defendida por uma pequena ala da legenda.

Segundo a cúpula do partido, todos os fatores levam para a escolha de Albuquerque. Ele é um militante orgânico do PSB, teve uma forte ligação com Eduardo Campos, tem diálogo fácil, é respeitado por Marina e teria a capacidade de, sempre que for preciso, fazer com que a ex-ministra se lembre de que é do PSB e não da Rede Sustentabilidade. Albuquerque já disse que Marina terá de esquecer a Rede nesse período. Os dois tiveram um encontro na quinta-feira, um dia depois do acidente aéreo que matou Campos.

Candidato ao Senado pelo Rio Grande do Sul, Albuquerque aparece em terceiro lugar nas pesquisas de intenção de votos. À frente dele estão Lasier Martins (PDT) e Olívio Dutra (PT). Ele disputa o Senado numa coligação com o PMDB. Sendo o escolhido para a vice, deverá deixar a vaga para o senador Pedro Simon (PMDB), que tinha cedido o lugar para ele.

A direção do PSB descartou a possibilidade de anunciar hoje, após o enterro de Campos, a decisão sobre a chapa. De acordo com integrantes do partido, mesmo o anúncio de Marina ainda depende de alguns ajustes e fechamento de compromissos, como o de que ela não vai interferir em alianças regionais patrocinadas por Campos, como a de São Paulo, onde o PSB lançou o deputado Márcio França a vice do tucano Geraldo Alckmin, e do Rio, onde o partido apoia a candidatura do petista Lindbergh Farias.

A intenção do PSB é anunciar a chapa Marina Silva-Beto Albuquerque na próxima quarta-feira, durante reunião da Executiva nacional da sigla, em Brasília.

Na família de Campos não há resistências ao nome de Albuquerque. Amigos de Renata, a viúva, e do irmão Antonio Campos, o primeiro a lançar o nome de Marina para a cabeça de chapa, relatam que ambos apoiam a escolha de Albuquerque. O nome de Renata foi cogitado - e ainda é - para a vice porque representaria a lembrança constante do ex-governador. Mas ela tem um filho de seis meses e teria dificuldades de se ausentar para a campanha, segundo pessoas que conversaram com ela. Além disso, há o desgaste emocional causado pela perda do marido.

Outro nome do grupo ligado a Campos cotado é o ex-deputado Maurício Rands, responsável pelo programa de governo do PSB. Ele era do PT, mas abandonou o partido quando os petistas e Campos romperam as relações.

'Marina faz política de um jeito que não é o nosso'

• Vice na chapa de Alckmin, Márcio França diz que agora é o PSB que terá crédito por aceitá-la como candidata

Júnia Gama, Eduardo Bresciani e Cristiane Jungblut – O Globo

SÃO PAULO - Protagonista de um duro embate com Marina Silva dentro do PSB, o candidato a vice-governador de São Paulo, na coligação com o PSDB, e tesoureiro da campanha de Eduardo Campos, Márcio França afirmou que o trágico acidente inverteu a relação do partido com a candidata e a Rede de Sustentabilidade. França venceu a queda de braço com Marina quando ela defendia a candidatura própria do PSB ao governo paulista, mas ele era favorável à aliança com o PSDB. Segundo França, Marina precisa dizer que quer ser candidata.

- Ela (Marina Silva) era a principal puxadora de votos. Agora ele (Eduardo Campos) é o grande puxador. O que ficou dele, as falas, a entrevista ao Jornal Nacional, serão usados como nosso mantra. Ser candidata depende mais dela. Marina precisa expressar que quer ser candidata. Ela não disse "quero ser". Marina tem um outro jeito de fazer política, que não é o nosso. É dela e do partido dela - afirmou.

França lembrou que, na condição de vice, Marina não era responsável por decisões financeiras tomadas na campanha, pois está sendo usado apenas o CNPJ do PSB (a Rede de Sustentabilidade, partido de Marina, não existe formalmente)

- É o mundo real que tem de ser colocado para que ela faça sua escolha. Seria injusto colocá-la como candidato sem que saiba. Marina não era responsável por nada na campanha. Ela não sabe nem quanto custa o aluguel do comitê - afirmou.

França lembra que Marina teria imposto aos candidatos do PSB que não usassem a imagem dela em suas campanhas sem o seu consentimento expresso, o que havia sido aceito pelo partido. Para que não ocorresse o contrário, Marina Silva apresentou ofício ao partido.

- Ela tem de nos acolher e temos de acolhê-la. Antes ela criou crédito, pois era a mais famosa. Neste instante, criou o débito. Nós é que iremos acolhê-la para ser candidata a presidente. Agora ela se torna nossa candidata para dirigir o pais - afirmou.

Nas mãos de Marina

• A morte súbita de Eduardo Campos recoloca a ex-ministra no centro da arena eleitoral e muda o rumo da eleição presidencial

Ricardo Mendonça – Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - A queda do avião de Eduardo Campos mal havia sido confirmada quando a Prefeitura de Santos começou a receber políticos e jornalistas angustiados por informações.

Na tarde da quarta-feira trágica, o local funcionou como quartel-general da crise, com gente nervosa andando para lá e para cá, falando sem parar nos celulares, quase todos tentando obter ou confirmar fragmentos de notícias.

Foi para lá que a ex-senadora Marina Silva dirigiu-se para fazer seu pronunciamento público de pesar.

A chegada de Marina, circunspecta e visivelmente abalada, silenciou o ambiente.

"A imagem que quero guardar dele é a da nossa despedida de ontem: cheio de alegria, cheio de sonhos e cheio de compromissos", disse ela.

Ao terminar, Marina levantou e caminhou em silêncio para fora do salão. Quando a porta fechou, o falatório e a movimentação nervosa voltaram a tomar conta do lugar.

A reverência solene dos presentes diante de Marina explica-se por duas razões.

Primeiro, por sua conhecida proximidade com Campos. Uma convivência política que se intensificou há dez meses quando, esgotada a chance de oficialização do partido Rede, ela surpreendeu até os mais próximos ao anunciar sua filiação ao PSB.

Segundo, pelo ensejo político que a tragédia produziu. A morte súbita de Campos colocou nas mãos de Marina a possibilidade de determinar o rumo da atual eleição.

Embora não tenha relação fluida com caciques do PSB, o entendimento político que se firmou é o de que Marina só não será candidata no lugar de Campos se não quiser.

Mas depois de passar meses tentando criar um partido para tal e ter feito a arrojada operação que a colocou como vice de Campos, como iria explicar agora que não quer?

Agraciada com 19,6 milhões de votos em 2010, Marina sempre obteve melhor desempenho que Campos nas pesquisas. Num período, isso chegou a ser visto como ameaça ao presidenciável do PSB.

Nos levantamentos do Datafolha que a incluíam no rol de possíveis candidatos, Marina Silva aparecia invariavelmente em segundo lugar.

Em abril, alcançava 27%, 11 pontos a frente do senador Aécio Neves (PSDB) e 12 pontos abaixo da presidente Dilma, que concorre à reeleição.

Na época, a hipótese de viabilização da Rede Sustentabilidade ainda não havia sido descartada. Marina era identificada como a única figura do sistema político preservada (ou até beneficiada) dos enormes protestos que tomaram conta do país em junho do ano passado.

Repetição
Com a volta de Marina para o centro da arena, a disputa de 2014 tende a ficar mais parecida com a de 2010, com o possível retorno de temas que pautaram aquela eleição. O aborto é um deles.

No início da campanha de 2010, a evangélica Marina era a única constantemente cobrada sobre isso. Ainda que sempre tenha cultivado a imagem de progressista, ela é contrária à ampliação das situações em que a interrupção da gravidez é permitida.

O surpreendente crescimento de sua candidatura no final, combinado com uma entrevista em que Dilma não deixava explícita sua posição, contribuiu para que o tema aborto fosse alçado como principal assunto eleitoral.

Outro tópico com potencial de ganhar impulso é meio ambiente, área em que também é reconhecida pelas fortes convicções. Apesar de o governo Dilma ser severamente criticado nesse setor, é um tema que seus rivais não vinham demonstrando muito apetite para explorar.

Na economia, a aproximação de Marina com economistas de pensamento liberal, como André Lara Resende e Eduardo Giannetti, afastou dúvidas sobre como seria um governo seu nessa área.

Seringueira alfabetizada só aos 15 anos, discípula do ambientalista Chico Mendes, assassinado no Estado do Acre em 1988, senadora negra, primeira ministra nomeada pelo ex-presidente Lula em 2003, Marina sempre foi vista como uma predestinada.

A atual circunstância, fruto de nova tragédia, deve reforçar essa imagem. Se a Rede tivesse sido viabilizada, ela provavelmente seria agora a candidata de uma sigla nanica com tempo irrisório de propaganda na TV.

Merval Pereira: O novo grid

- O Globo

A corrida está apenas começando, o que mudou foi o grid de largada. Com essa imagem, um assessor do tucano Aécio Neves define o ambiente no PSDB a partir da nova realidade eleitoral que presumivelmente surgirá das próximas pesquisas, fortemente influenciadas pela comoção provocada pela morte do candidato do PSB à Presidência da República, Eduardo Campos.

Definida como a candidata substituta do PSB, Marina Silva deve aparecer no novo grid de largada à frente de onde estava Campos, talvez até à frente de Aécio Neves, que era o segundo colocado. Sondagens telefônicas nos últimos dias sugerem que Marina estaria empatada tecnicamente com o tucano, mas à frente numericamente. Se, mesmo assim, Aécio mantiver seu índice, é sinal de que tem votos cristalizados.

Todo o ambiente político está impregnado da tragédia, que hoje terá seu ápice no enterro em Recife, com a viúva Renata ao lado de Marina, protagonistas da nova cena eleitoral. Mesmo que não venha a ser a candidata a vice, o mais provável, Renata terá papel fundamental na campanha que recomeçará já amanhã.

Marina já deu o seu tom, ao afirmar que foi a “providência divina” que a tirou do avião, e que tem “compromisso com a perda que Eduardo nos impõe”. Na verdade, a razão de não estar no avião fatídico é bem mais prosaica e humana: ela não queria encontrar o deputado Márcio França (PSB), candidato a vice do governador tucano Geraldo Alckmin (coligação a que ela se opunha em SP) e que esperava o grupo em Santos.

Mas sem dúvida esse ar místico que envolve a ex-senadora dará à campanha o tom de escolhida pelo destino para presidir o país. Se se confirmarem as informações preliminares, Marina ganha força política para comandar uma campanha que será em tudo diferente da de 2010. Ela terá a apoiá-la partido mais bem estruturado do que era o PV, mas em compensação não terá unidade partidária no comando da campanha.

O presidente do PSB, Roberto Amaral, que foi obrigado a ungi-la candidata, terá o mesmo papel secundário do presidente do PV, José Luiz Penna, na campanha anterior, mas outros interesses partidários ao longo da campanha podem afastar os aliados de hoje, que engolem as diferenças devido à expectativa de poder que ela exibe nessa largada.

Se, porém, os caminhos da campanha a levarem a discordâncias programáticas com o que chama de “velha política”, ou com o agronegócio, corre o risco de ser cristianizada, ficando sem a estrutura hoje já precária. Num primeiro momento, ela representa a grande novidade, do mesmo modo que quando se uniu a Campos.

Com o tempo, o encanto do eleitorado foi se desvanecendo, e ela, que marcara 27% em uma pesquisa do Datafolha, acabou se transformando em uma possibilidade de transferência de votos para Campos que até agora não tinha se realizado.
A situação atual muda a perspectiva de Dilma, que contava ainda poder se eleger no 1º turno e agora tem pela frente um 2º turno praticamente certo. Já Aécio, que precisava de pouco para chegar ao 2º turno, terá que recomeçar a campanha dentro de uma nova dimensão.

Antes, disputava com um candidato que tinha a metade de seus votos e a metade de seu tempo de propaganda eleitoral. Agora enfrentará uma candidata que, tudo indica, começa com o mesmo tamanho eleitoral e metade da propaganda, mas que é o dobro do que teve em 2010, quando fez 20% dos votos.

Aécio tem a tradição de oposição do PSDB e uma máquina partidária que até agora tem feito a diferença. Vai disputar contra duas mulheres e na condição de ser o mais desconhecido. Mas tem a vantagem de ser diferente de Dilma e Marina e ser mais próximo da figura política de Eduardo Campos, conciliador e negociador.

Se Marina tirar mais votos de Dilma do que dele, há até mesmo a possibilidade, remota embora, de que o 2º turno seja contra Marina, e não contra Dilma.

Mas entrou na pista de corrida possibilidade que era quase inexistente antes, a de Marina ir ao 2º turno contra Dilma, deixando ao PSDB o papel de grande eleitor. Nas pesquisas anteriores, tanto Campos quanto Aécio cresciam muito num 2º turno contra Dilma, sendo que o tucano chegou a empatar tecnicamente com ela.

Se Marina surge na primeira pesquisa como capaz de vencer Dilma no 2º turno, torna-se automaticamente a candidata a ser vencida, condição que já foi de Aécio. A consistência dessa situação, só o desenrolar da campanha dirá.

Dora Kramer: Presença de Marina

- O Estado de S. Paulo

O candidato do PSDB à Presidência, Aécio Neves, aponta dois movimentos imediatos no cenário eleitoral em decorrência da substituição de Eduardo Campos por Marina Silva como titular da chapa do PSB.

O primeiro, a consolidação do segundo turno. "O que era uma tendência passa a ser um fato". O segundo diz respeito às perdas e ganhos em termos de intenções de voto.

Na opinião do tucano, na largada só Marina ganha. Ele prevê que no primeiro momento, em boa parte devido ao clima de comoção, a ex-senadora talvez apareça nas pesquisas com o dobro dos índices registrados por Campos, previsão esta coincidente com as expectativas de políticos do PSB.
O senador mineiro acha que a presidente Dilma perde um pouco, ele próprio acredita que deva ter uma pequena queda nos índices ("isso vai atrasar meu crescimento"), mas imagina que a maior fonte de votos da ex-senadora esteja no grupo dos pesquisados dispostos a anular ou deixar o voto em branco.

O fato de o quadro se alterar, na visão de Aécio não quer dizer que a mudança será radical. "Não tem essa história de que o jogo ficou zerado".

Obviamente ele continua trabalhando com o cenário de um segundo turno entre ele e a presidente Dilma Rousseff, embora reconheça que a vaga agora será mais disputada. Este pensamento é traduzido assim por um companheiro dele de partido radicado em São Paulo: "Antes haveria segundo turno sem o risco de Aécio ser ultrapassado, agora já não podemos ter tanta certeza".

Voltando ao candidato, para ele a "grande incógnita" é saber como Marina vai se posicionar uma vez assumida a candidatura: se terá um discurso franca e nitidamente de oposição ao PT, a Dilma e a Lula ou se vai se concentrar em falar de si, de suas propostas e concepções sobre grandes temas de interesse nacional deixando de lado o embate mais agressivo.

E por que isso é importante? Justamente por causa do segundo turno. Aécio não se concentra na possibilidade de ter ou não o apoio pessoal de Marina. Até porque há certo consenso no PSDB de que pelo histórico de 2010 e pela personalidade dela o mais provável é que caso fique de fora da fase final não apoie nenhum dos dois concorrentes.

A preocupação do tucano é herdar o eleitorado dela. Se não na totalidade, a maior parte. Por isso a intenção dele será manter a sintonia com o eleitor de oposição, imaginando que quem escolhe Marina Silva não vota no governo.

Neste aspecto, não há mudança estratégica no rumo da campanha. A avaliação é a de que os setores do PSB próximos ao PT ficarão com Dilma e os que já têm boas relações com o PSDB em vários estados não têm motivo para romper acordos já fechados.

O que muda nesse momento e pelas próximas duas semanas é o grau de atritos. Haverá uma "baixada" de alguns decibéis no tom dos discursos. A morte de Eduardo Campos abalou a todos; até que o efeito do choque se amenize não há clima para beligerância.

Apaga a luz. Ao contrário da avaliação do presidente do PT, Rui Falcão, sobre a necessidade de a presidente Dilma se reeleger para o ex-presidente Lula "voltar em 2018", um ministro de fino tino político acha que a reeleição encerra um ciclo.

Na opinião desse integrante do primeiro escalão do governo, caso Dilma consiga mais um mandato o PT terá gastado seus últimos créditos junto ao eleitorado.

Pálida ideia. Na rodada estadual do Datafolha divulgada sexta-feira Geraldo Alckmin continua firme no patamar de 55% de intenções de votos.

O governo é considerado ótimo ou bom por 47% dos entrevistados. Mas, quando perguntados sobre quais as melhores áreas da administração, 22% responderam "nenhuma" e 24% não souberam dizer. Juntos, somam 46%.

Ou seja, o paulista vota em Alckmin, mas não sabe por quê.

João Bosco Rabello: Da utopia à realidade

- O Estado de S. Paulo

A síntese que melhor definiu o drama político do PSB e da ex-senadora Marina Silva foi do ex-secretário de Meio Ambiente de Pernambuco, Sérgio Xavier, para quem "é hora de chorar e trabalhar ao mesmo tempo".

Possivelmente essa dura realidade removeu parcialmente o constrangimento do partido e, ao final, da própria Marina, para que o passo incontornável de consolidá-la candidata em substituição a Eduardo Campos fosse dado antes dos rituais de despedida do ex-governador.

O que isso determina, por ora, é a garantia de um segundo turno, muito embora ele já fosse dado por certo antes da tragédia, pela lógica da soma dos votos dos candidatos de oposição no cenário de queda da candidata Dilma Rousseff.

O raciocínio que leva a esse prognóstico se baseia no maior patrimônio eleitoral de Marina, mas desconhece que o ex-governador ainda iniciaria a campanha na televisão, que além de torná-lo mais conhecido, o vincularia à ex-senadora, consolidando a transferência de votos que se estimava desde a aliança que os uniu.

O dado novo é a tragédia que ganha justificadamente tom emocional e molda o cenário em que a adversidade não subtrai, mas soma. Eduardo se vai, mas deixa o sonho de um novo país que embalará a campanha da coligação.

Não há dúvida do impacto dos acontecimentos para as candidaturas de Dilma Rousseff e Aécio Neves. No primeiro caso, dissipa-se a esperança, ainda que tênue, da vitória no primeiro turno. No segundo, está ameaçada a liderança que o garantia como representante da oposição no segundo.

De imediato, Aécio é o mais atingido se considerada a votação de Marina em 2010, quando teve desempenho melhor nas regiões onde o PSDB se mostra mais forte que o PT. Mas Dilma pode sofrer duro revés com a migração para Marina dos votos brancos e nulos atraídos pelo discurso do novo.

Nesse contexto, profecias estão desautorizadas, mas as especulações são naturais. E nos últimos dias elas incluíram mesmo a possibilidade de um segundo turno sem governo, hipótese baseada na previsão de um efeito avassalador da tragédia política.

O enredo, no entanto, se desenvolverá passo a passo, como impõem as circunstâncias. As chances de Marina serão tanto maiores quanto à sua capacidade de agregar a coligação que tinha em Campos seu poder moderador.

É um desafio ao equilíbrio da ex-senadora, se considerada a necessidade de assimilar que sua "nova política" começa pela convivência com a velha, posto que transformação é processo. O que testará sua capacidade de conciliar utopia e realidade nas doses certas.