Por /Andrea Jubé, Sofia Aguiar e Érica Ribeiro
Sem a presença de Lula, documento não trata
de segurança pública ou atuação nas redes sociais nem do descontentamento da
população
Num momento em que mais da metade dos
brasileiros desaprova a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o
Partido dos Trabalhadores (PT) encerrou o seu 8º congresso nacional com a
aprovação de um manifesto em tom ameno, sem menção ao descontentamento da
população. Enquanto Lula cobrou do partido promessas factíveis para o futuro e
a defesa de seu governo, a abordagem crítica coube aos discursos finais do
presidente da sigla, Edinho Silva, e do ex-ministro da Fazenda e pré-candidato
ao governo de São Paulo, Fernando Haddad.
Lideranças petistas ouvidas pelo Valor lamentaram que o documento não tocou em “feridas” do partido, como as dificuldades ainda não superadas com o debate sobre segurança pública e a atuação nas redes sociais, áreas de domínio da direita, bem como o diálogo com o segmento evangélico.
A programação previa o encerramento do evento
com a presença de Lula, que não compareceu porque estava de repouso,
recuperando-se de dois procedimentos a que se submeteu na sexta-feira (24), de
retirada de uma lesão de pele na cabeça e de infiltração no punho direito. Para
compensar a ausência, ele gravou um vídeo, exibido na abertura do congresso, no
qual advertiu que ao falar do futuro, o PT tem que se comprometer com coisas
que “nós temos facilidade e possibilidade de fazer”.
Num cenário em que pesquisas internas do PT
mostram frustração dos eleitores com as entregas do governo, o presidente
disse, no vídeo, que quando os petistas apresentarem as propostas para o
futuro, é preciso que seja uma “coisa factível que a gente possa executar,
porque senão a gente fica prometendo, e o cara pergunta [depois] por que vocês
não fizeram”.
No discurso de encerramento, no domingo (26),
Edinho fez uma autocrítica para exortar a militância a ter humildade para ouvir
o que a sociedade tem a dizer ao PT. “A conjuntura está difícil, mas como está
difícil se temos o governo mais exitoso da história?”, questionou. “Como esse
governo tão exitoso não é reconhecido?”, prosseguiu, em alusão às recentes
pesquisas que mostram a alta desaprovação do governo e o avanço do
pré-candidato do PL à Presidência, senador Flávio Bolsonaro (RJ).
Segundo Edinho, as respostas a essa
insatisfação são “diversas”, mas “a ação é uma só: conversar com o povo
brasileiro, mostrar o que construímos, e o que queremos construir”. Ele
advertiu que “não pode a conjuntura lá fora estar gritando coisas para nós”, e
o PT não ouvir. Ele ainda cobrou dos militantes aproximação de segmentos da
sociedade que se mostram refratários ao PT, como jovens evangélicos, motoristas
de aplicativos e motoentregadores. “Temos que perguntar onde estamos errando,
se queremos representá-los”, recomendou.
Apresentado como estrela principal, em
substituição a Lula, e aplaudido de pé, Haddad também assumiu uma postura
crítica ao reconhecer que a população está exigindo mais do PT. Ele afirmou que
o governo passou um tempo dedicado a reconstruir a economia e políticas sociais
que a gestão anterior de Jair Bolsonaro teria destruído. Salientou que agora é
preciso “oferecer ao povo um programa de governo que vá além do que já
fizemos”.
Lula cobrou compromisso com coisas que o PT
tem “possibilidade de fazer”
Haddad destacou que o partido tem que se
desdobrar para garantir a vitória do líder petista em outubro. “Não temos o
direito de descansar até ver realidade confirmada nas urnas”, “precisamos estar
mobilizados para garantir essas conquistas”.
Sem mencionar a insatisfação de parcela dos
brasileiros, o documento de oito páginas “Construindo o futuro: manifesto do PT
para seguir transformando o país”, dirigido à militância, afirma que o “Brasil
está no rumo certo”. O manifesto enumera dados positivos do governo, como o
“crescimento médio de 2,8% neste mandato”, o avanço da reforma da renda, a
saída pela segunda vez do Mapa da Fome, o aumento real do salário mínimo, o controle
da inflação e a retomada de políticas públicas.
O mesmo documento salientou o compromisso do
PT com a defesa da democracia e da soberania, defendendo sete reformas
estruturais: política e eleitoral, tributária, tecnológica, agrária,
administrativa e da comunicação. Num cenário de críticas ao Supremo Tribunal
Federal (STF), que respingam no governo, o PT também defende uma “reforma do
Judiciário”, com “mecanismos de autocorreção” - uma defesa velada do código de
ética para o STF, rejeitado pela maioria dos ministros da Corte.
O manifesto ainda ressalta o compromisso com
crescimento econômico, justiça social, e a redução da jornada de trabalho, com
o fim da escala 6 x 1 - bandeira eleitoral de Lula.
O esforço de aproximação com os evangélicos
coube à fala da deputada e pré-candidata ao Senado pelo Rio de Janeiro,
Benedita da Silva, uma das porta-vozes do PT com o segmento: “Não vamos nos
assustar com pesquisas. Eu posso aumentar a pesquisa quando aumento a minha
militância e vou de porta em porta para dizer que Lula será reeleito
presidente”.

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