segunda-feira, 27 de abril de 2026

PT aprova manifesto ameno e que não toca em ‘feridas’

Por /Andrea Jubé, Sofia Aguiar e Érica Ribeiro

Sem a presença de Lula, documento não trata de segurança pública ou atuação nas redes sociais nem do descontentamento da população

Num momento em que mais da metade dos brasileiros desaprova a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Partido dos Trabalhadores (PT) encerrou o seu 8º congresso nacional com a aprovação de um manifesto em tom ameno, sem menção ao descontentamento da população. Enquanto Lula cobrou do partido promessas factíveis para o futuro e a defesa de seu governo, a abordagem crítica coube aos discursos finais do presidente da sigla, Edinho Silva, e do ex-ministro da Fazenda e pré-candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad.

Lideranças petistas ouvidas pelo Valor lamentaram que o documento não tocou em “feridas” do partido, como as dificuldades ainda não superadas com o debate sobre segurança pública e a atuação nas redes sociais, áreas de domínio da direita, bem como o diálogo com o segmento evangélico.

A programação previa o encerramento do evento com a presença de Lula, que não compareceu porque estava de repouso, recuperando-se de dois procedimentos a que se submeteu na sexta-feira (24), de retirada de uma lesão de pele na cabeça e de infiltração no punho direito. Para compensar a ausência, ele gravou um vídeo, exibido na abertura do congresso, no qual advertiu que ao falar do futuro, o PT tem que se comprometer com coisas que “nós temos facilidade e possibilidade de fazer”.

Num cenário em que pesquisas internas do PT mostram frustração dos eleitores com as entregas do governo, o presidente disse, no vídeo, que quando os petistas apresentarem as propostas para o futuro, é preciso que seja uma “coisa factível que a gente possa executar, porque senão a gente fica prometendo, e o cara pergunta [depois] por que vocês não fizeram”.

No discurso de encerramento, no domingo (26), Edinho fez uma autocrítica para exortar a militância a ter humildade para ouvir o que a sociedade tem a dizer ao PT. “A conjuntura está difícil, mas como está difícil se temos o governo mais exitoso da história?”, questionou. “Como esse governo tão exitoso não é reconhecido?”, prosseguiu, em alusão às recentes pesquisas que mostram a alta desaprovação do governo e o avanço do pré-candidato do PL à Presidência, senador Flávio Bolsonaro (RJ).

Segundo Edinho, as respostas a essa insatisfação são “diversas”, mas “a ação é uma só: conversar com o povo brasileiro, mostrar o que construímos, e o que queremos construir”. Ele advertiu que “não pode a conjuntura lá fora estar gritando coisas para nós”, e o PT não ouvir. Ele ainda cobrou dos militantes aproximação de segmentos da sociedade que se mostram refratários ao PT, como jovens evangélicos, motoristas de aplicativos e motoentregadores. “Temos que perguntar onde estamos errando, se queremos representá-los”, recomendou.

Apresentado como estrela principal, em substituição a Lula, e aplaudido de pé, Haddad também assumiu uma postura crítica ao reconhecer que a população está exigindo mais do PT. Ele afirmou que o governo passou um tempo dedicado a reconstruir a economia e políticas sociais que a gestão anterior de Jair Bolsonaro teria destruído. Salientou que agora é preciso “oferecer ao povo um programa de governo que vá além do que já fizemos”.

Lula cobrou compromisso com coisas que o PT tem “possibilidade de fazer”

Haddad destacou que o partido tem que se desdobrar para garantir a vitória do líder petista em outubro. “Não temos o direito de descansar até ver realidade confirmada nas urnas”, “precisamos estar mobilizados para garantir essas conquistas”.

Sem mencionar a insatisfação de parcela dos brasileiros, o documento de oito páginas “Construindo o futuro: manifesto do PT para seguir transformando o país”, dirigido à militância, afirma que o “Brasil está no rumo certo”. O manifesto enumera dados positivos do governo, como o “crescimento médio de 2,8% neste mandato”, o avanço da reforma da renda, a saída pela segunda vez do Mapa da Fome, o aumento real do salário mínimo, o controle da inflação e a retomada de políticas públicas.

O mesmo documento salientou o compromisso do PT com a defesa da democracia e da soberania, defendendo sete reformas estruturais: política e eleitoral, tributária, tecnológica, agrária, administrativa e da comunicação. Num cenário de críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF), que respingam no governo, o PT também defende uma “reforma do Judiciário”, com “mecanismos de autocorreção” - uma defesa velada do código de ética para o STF, rejeitado pela maioria dos ministros da Corte.

O manifesto ainda ressalta o compromisso com crescimento econômico, justiça social, e a redução da jornada de trabalho, com o fim da escala 6 x 1 - bandeira eleitoral de Lula.

O esforço de aproximação com os evangélicos coube à fala da deputada e pré-candidata ao Senado pelo Rio de Janeiro, Benedita da Silva, uma das porta-vozes do PT com o segmento: “Não vamos nos assustar com pesquisas. Eu posso aumentar a pesquisa quando aumento a minha militância e vou de porta em porta para dizer que Lula será reeleito presidente”.

 

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