Gabriel Hirabahasi, Danielle Brant Alvaro Gribel / O Estado de S. Paulo
Congresso Nacional da legenda de Lula
abandona defesa de reforma do sistema financeiro e inclui proposta de reformas
agrária e da comunicação, em aceno à esquerda
Versão final, desidratada a pedido do
Planalto, exclui citações diretas a Bolsonaro e recua em defesa de reforma do
sistema financeiro.
O Partido dos Trabalhadores (PT) aprovou ontem seu manifesto com diretrizes do partido para este ano. A versão final do texto foi desidratada a pedido do Palácio do Planalto, como revelou o Estadão, excluindo mais de dez citações diretas ao ex-presidente Jair Bolsonaro e também retirando um parágrafo que fazia a defesa da reforma do sistema financeiro e mencionava o caso do Banco Master.
O documento final foca a comparação da gestão
do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com a de Bolsonaro, mas se
referindo ao governo anterior e sem citar o nome do ex-presidente. Lula não participou
do congresso, conforme previsto. O presidente passou por procedimentos de saúde
na sexta-feira, dia 23, e permanece em repouso.
Na cerimônia, o ex-ministro da Fazenda e
pré-candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad, sentou-se ao lado direito
do presidente do PT, Edinho Silva. Para contornar a ausência de Lula, o PT
retransmitiu um discurso dele em encontro global de líderes progressistas em
Barcelona.
O manifesto foi aprovado por unanimidade
pelos militantes presentes no congresso. O texto é mais sucinto que as
diretrizes para o programa de governo. O programa será discutido nas próximas
semanas pelo diretório nacional do partido.
Um dos principais pontos retirados do
manifesto foi a defesa de uma reforma do sistema financeiro, com menção
específica à necessidade de mudanças em razão do escândalo envolvendo o Banco
Master.
O presidente do partido, Edinho Silva,
justificou que o caso Master foi debatido durante o congresso, assim como o do
INSS. Mas os dois temas não são citados no texto final.
Edinho repetiu o discurso do governo de que
foi a gestão Lula que instaurou investigação sobre o Master e também sobre as
fraudes com aposentadorias do INSS. Uma CPI investigou o caso e chegou a pedir
o indiciamento de Fábio Luís, o Lulinha, mas o relatório final não foi
aprovado.
FLÁVIO. Durante o encontro, o marqueteiro
Raul Rabelo divulgou um vídeo que, sem apresentar provas, vincula o senador
Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato ao Planalto, ao caso Master. O locutor
usa a expressão “bolsomaster” e afirma que o senador teria recebido uma “mansão
de R$ 6 milhões em Brasília” como parte do esquema.
Procurado, o senador não se manifestou até
ontem à noite. Flávio Bolsonaro não é investigado no caso e não há informações
de que a mansão comprada por ele em 2021, com financiamento do BRB, tenha
relação com o esquema do banqueiro Daniel Vorcaro.
O escândalo do Master levou petistas e
bolsonaristas a se acusarem mutuamente. O banco foi autorizado a operar em
2019, durante o governo Bolsonaro, mas foi no período Lula que atingiu o seu
maior tamanho, em 2024.
O ex-ministro da Fazenda Guido Mantega
prestou consultoria a Daniel Vorcaro no valor de R$ 14 milhões e o levou para
uma reunião com o presidente. Lula, contudo, chamou o presidente do Banco
Central, Gabriel Galípolo, e afirmou a Vorcaro que a análise de compra do
Master pelo BRB seria estritamente técnica.
“O manifesto tem de ser a centralidade de
falar com o País e chamar o centro para compor com o Lula, isso que é
fundamental”
José Guimarães (Ministro da Secretaria de Relações Institucionais)
O partido manteve outros pontos no manifesto.
Foi preservada a linha de três eixos centrais do projeto nacional de
desenvolvimento — reconstrução do papel do Estado como indutor do
desenvolvimento (marca da esquerda), retomada do crescimento econômico com
distribuição de renda (marca dos governos petistas) e transição produtiva,
tecnológica e ambiental (adotada com mais ênfase a partir da campanha de 2022).
O manifesto trata como “eixo central da
tática política” a reeleição do presidente Lula. Também propõe sete reformas
essenciais — duas delas acrescentadas ao longo do fim de semana para atender a
outras alas do partido. Constavam no documento desde sexta-feira, dia 24, a
defesa de uma reforma política e eleitoral; uma tributária; uma tecnológica;
uma reforma do Judiciário; e uma administrativa.
MUDANÇA. A cúpula do partido acrescentou
ontem no rol de reformas essenciais, a agrária, “garantindo soberania
alimentar”. Também foi incluída a reforma do setor de comunicação. O texto
justifica a medida citando que a Constituição deve ser cumprida. O documento
fala que a reforma deve proibir “monopólios no setor”.
Apesar da inclusão desses dois temas que não
são bem recebidos pelos partidos de centro e de direita, o ministro da
Secretaria de Relações Institucionais (SRI), José Guimarães, disse que o
objetivo do manifesto é “chamar o centro para compor com o Lula”, evitando
polêmicas que possam afastar setores que não são da esquerda da candidatura
petista.
“O manifesto tem de ser a centralidade de
falar com o País e chamar o centro para compor com o Lula, isso que é
fundamental”, disse Guimarães.
Uma versão preliminar do texto citava a
necessidade de o partido buscar apoios eleitorais também à direita, mas esse
trecho foi suprimido.
TERRAS RARAS. O manifesto cita como um dos
desafios a disputa pelo controle de recursos estratégicos, em meio ao debate no
Congresso sobre terras raras e ao interesse do governo americano por esses
recursos.
“É imperativo que o Brasil assuma o
protagonismo sobre suas reservas de terras raras — um conjunto de 17 minerais
críticos essenciais para a indústria de alta tecnologia, para a produção de
baterias, lasers, turbinas eólicas e componentes de defesa”, diz o texto.
O documento também defende mudança no regime
de emendas parlamentares, acabando com a impositividade, reduzindo o volume e o
modo de funcionamento. Atualmente, o governo é obrigado a destinar recursos
indicados por deputados e senadores, e a aplicação do dinheiro é obrigatória.
Um ponto mantido é a defesa de uma
“permanente transição geracional” no próprio partido, com limite no número de
mandatos (no máximo dois no mesmo cargo e três no total de participação na
mesma instância). A versão final também fala em garantir “no mínimo 50% de
mulheres nos espaços de deliberação”. A proposta de programa não falava nem em
garantir a renovação interna no partido nem a equidade de gênero nos postos de
decisão da legenda.
O presidente Lula se envolveu na construção do manifesto. Veio do governo o pedido para que o documento fizesse mais comparações entre as gestões de Lula e de Bolsonaro.

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